terça-feira, dezembro 30, 2008

To Whom It May Concern

1. Quatro meses, três semanas e dois dias, Cristian Mungiu.
2. No Country for Old Men, Joel e Ethan Coen.
3. Coeurs, Alain Resnais.
4. California Dreamin’, Cristian Nemescu.
5. Gomorra, Matteo Garrone.
6. O Segredo de um Cuscuz, Abdel Kechiche.
7. Happy-go-lucky, Mike Leigh.
8. Juno, Jason Reitman.
9. Destruir depois de ler, Joel e Ethan Coen.
10. Os Falsificadores, Stefan Ruzowitzky.

Depois explico, se deus quiser.

terça-feira, dezembro 23, 2008

Feliz Natal

segunda-feira, dezembro 15, 2008

1984

Quando vejo isto, tenho a sensação de que cresci na RDA.

quinta-feira, novembro 20, 2008

Ver slideshow


Belas fotos, as de Barack Obama no Flickr, cansado como nunca o vimos. (Cheguei lá através dos Bichos.)

segunda-feira, novembro 17, 2008

A pessoa errada

Em síntese, é a história de um rapaz que se apaixonou pela pessoa errada: ele próprio.

terça-feira, novembro 11, 2008

Video


Caetano Veloso: cinco minutos que não são perda de tempo.

quinta-feira, novembro 06, 2008

Estado civil

Quando um grupo perde a sua figura política de referência, costuma-se dizer que esse grupo ficou «politicamente órfão». Porém, numa curiosa mudança de metáfora, Medeiros Ferreira declara-se «viúvo» de Hillary Clinton. A escolha de palavras não é arbitrária.

quarta-feira, novembro 05, 2008

Ups, outro momento de pluralismo


O discurso de McCain ontem à noite não foi menos notável do que o de Barack Obama.

(Caetano Veloso também se referiu a este assunto.)
No calor da noite, esqueci-me de saudar os bloggers portugueses que acolheram a designação de Sarah Palin para candidata a VP como uma escolha «brilhante» de John McCain. É esta argúcia que lhes tem valido darem hoje opinião em tudo quanto é jornal, estação de rádio ou canal de televisão portugueses. É o chamado «circo mediático». Embora eu não esteja certo de que esta expressão contenha alguma metáfora.

O impossível acontece



É uma vitória extraordinária. Aliás, é a segunda de duas vitórias extraordinárias. Com a primeira, Obama salvou o Partido Democrata da vergonha de não ter mais nada para apresentar, ao fim de oito anos de Bush, do que uma versão requentada da administração Clinton. Com a segunda, salva a honra da América, estabelecendo de uma só vez o corte simbólico com o desastre do período anterior. Isto estava ao alcance dele, e não estava provavelmente ao alcance de mais ninguém.

Nesta hora, guardo um pensamento para os adversários lusos de Barack Obama. Não os apoiantes de McCain (de que, aliás, só consegui recensear um), mas os bushistas, da primeira à última hora, e os clintonistas; a arrogância e o desdém com que trataram o candidato democrata e os seus apoiantes merecem ser recordados. Obama e os seus seguidores foram quase sempre tratados como pouco mais do que idiotas, patetas e crédulos. Os patamares de infantilismo argumentativo atingidos neste percurso conheceram exemplos notáveis – e que vão perdurar.
Já os clintonistas, tendo apostado também em caracterizar Obama como uma espécie de pastor evangélico para massas histéricas, insistiram especialmente em assegurar que o candidato negro não teria quaisquer hipóteses de ser eleito. «Quem conhece» – e cito – «um poucochinho os EUA não duvida por um momento que o Obama jamais será Presidente. Tão certo como dois e dois serem quatro.» Obama só ganhava primárias em sistema de caucus e em estados irrelevantes.

As afirmações categóricas destes sábios continuam ao alcance de qualquer motor de busca. Talvez por isso, uns e outros, nestas últimas semanas, se tenham afadigado a garantir-nos que só o cataclismo financeiro imprevisível (pelo menos quanto à altura em que ele iria dar-se) acabou por oferecer a Obama a vitória impossível. Por mais que outros dados indiquem o oposto.

Ao contrário do que outros também sustentam, a margem de vitória de Obama não é pequena. Não foi o «prestígio» do senador McCain, ou outra coisa qualquer, que manteve a disputa até ao fim. É uma vitória larga. Quem imagina que pudesse ser coisa de uma dimensão muito mais ampla, é que não tem a mínima ideia do que são os EUA, das divisões profundas que atravessam esse país enorme e que possibilitaram, entre outras coisas, que George W. Bush tivesse, por assim dizer, ganho duas eleições seguidas.

Agora, quero ouvir o discurso do novo Presidente dos EUA e ir fazer ó-ó.

terça-feira, novembro 04, 2008

Um momento de pluralismo


Daqui.

Não é que eu acredite nisto, é claro. Mas achei muita piada aos miúdos. (O YouTube tem a letra.)

segunda-feira, novembro 03, 2008

Uma certa ideia da América (2)


Imagem retirada daqui.

Tem-se assinalado muitas vezes que, se as eleições norte-americanas fossem decididas pelos europeus, Obama ganharia por margem esmagadora. Esta observação tem sido frequentemente feita com uma boa dose de cinismo e mesmo de sarcasmo; afinal de contas, quem vota nas eleições norte-americanas são os norte-americanos. O que se tem notado menos é que esta simpatia dos europeus por Obama, este encantamento, esta mania, revela muita vontade de gostar da América. Porque Obama, seja lá aquilo que venha a ser, é americano - como indivíduo, como personalidade, como imagem, como história de vida. Não é nem podia ser europeu. Se é amor, não é narcisista.
Ora, é muita vontade de gostar da América, depois de anos maus. Mas aqueles mesmos que andaram a distribuir acusações de antiamericanismo («primário», sempre «primário») são os que agora fustigam a credulidade da esquerda e o seu entusiasmo em relação a Obama.
Haja paciência. Eu até era capaz de lhes achar graça, se não vivesse aqui.

sábado, novembro 01, 2008

Monsieur de La Palice goes to America

[Ou: Uma certa ideia da América]


Acho muita graça às pessoas que se dizem fãs da América e que depois, confrontadas com o American dream, advertem, com ar grave, que ele vai desiludir. Pois - mas não será da natureza do dream?

quinta-feira, outubro 30, 2008

Pub.


Desta vez é sem novidade, mas faz uma capa bonita.

Quem gostar de ironia trágica, pode entreter-se a ler o editorial de há oito anos, a apoiar George W. Bush.

quarta-feira, outubro 29, 2008

Vinícius Cantuária

Se amanhã às dez vou ao Olga Cadaval, é estritamente por causa disto aqui.

segunda-feira, outubro 13, 2008

Fundo de ecrã

Aqui, o segredo está nas imperfeições, na curva da perna demasiado magra, na manchinha:


Obrigado.

Funny thing

A funny thing happened to me this morning…

[uma sugestão do Pedro]
Aliás: este post do Pedro Magalhães já não faz exatamente parte de «um blogue sobre sondagens e estudos de opinião». É parte de um projeto paralelo, a que por conveniência podemos chamar O Céu sobre Columbus, Ohio.

Hope

«Tenho assim um palpite sobre o partido em que a maior parte das pessoas abaixo estão a votar.»

[early voters em Columbus, Ohio. Foto e legenda de Pedro Magalhães]

sábado, outubro 11, 2008

Se tiverem meia-hora ocupada com uma coisa rotineira, como ver a bola ou passar a ferro, experimentem ouvir a entrevista do Miguel Esteves Cardoso ao Carlos Vaz Marques, na semana passada. Em princípio, deve ser só questão de seguir este link. Acho que gostei mais da primeira metade do que do resto, mas, de qualquer forma, o importante é isto: neste último ano ou assim, tenho achado graça ao Miguel Esteves Cardoso como não achava desde os anos 80. E isto, se for verdade, é um milagre.

quarta-feira, outubro 01, 2008

Um daily show


Nos EUA, há uma nova Comedy Central, com um novo Daily Show.

Fareed Zakaria: It's not that she doesn't know the right answer. It's that she clearly does not understand the question. This is way beyond anything we have ever seen from a national candidate.
Alaska is an unusual state. 85% of its budget comes from oil revenues. Basically, you're just distributing oil revenues that are being provided for you by digging holes in the ground. This is good training to be president of Saudi Arabia, not the United States.
The most scary answer in the Katie Couric interview was not on foreign policy. The foreign policy stuff was funny. The scary answer was on the economy.

segunda-feira, setembro 29, 2008

Nós roemos


Há duas maneiras de assinalar, hoje, o centenário da morte do escritor brasileiro Machado de Assis. (Há mais.) Das dez da manhã às seis da tarde, na casa Fernando Pessoa (um lugar que para mim se tornou menos simpático desde que a atual diretora tomou posse), faz-se leitura integral de
Memórias Póstumas de Brás Cubas. «Faz-se» significa que lê quem quiser ler e estiver presente. (Também podia ser o Dom Casmurro ou alguns contos.) Na Gulbenkian, há um colóquio sobre Machado de Assis, com intervenções dos maiores especialistas, como John Gledson ou Abel Barros Baptista.
Machado de Assis é para mim um conhecimento relativamente recente. Só o descobri mesmo com a leitura da antologia de contos
organizada por Abel Barros Baptista para a coleção da Cotovia. Depois li Memórias Póstumas e reli Dom Casmurro. É isso mesmo: reli Dom Casmurro. À primeira (e olhem que não foi assim há tanto tempo), tinha-me passado completamente ao lado. Foram os contos que me permitiram descobrir o que tinha lido antes.
Há quem diga que Machado de Assis é o maior ficcionista da língua portuguesa. Isto, dito por pessoas que sabem do que falam. É para mim, mas desconheço quase tudo.

OS VERMES

"Ele fere e cura!". Quando, mais tarde, vim a saber que a lança de Aquiles também curou uma ferida que fez, tive tais ou quais veleidades de escrever uma dissertação a este propósito. Cheguei a pegar em livros velhos, livros mortos, livros enterrados, a abri-los, a compará-los, catando o texto e o sentido, para achar a origem comum do oráculo pagão e do pensamento israelita. Catei os próprios vermes dos livros, para que me dissessem o que havia nos textos roídos por eles.

— Meu senhor, respondeu-me um longo verme gordo, nós não sabemos absolutamente nada dos textos que roemos, nem escolhemos o que roemos, nem amamos ou detestamos o que roemos; nós roemos.

Não lhe arranquei mais nada. Os outros todos, como se houvessem passado palavra, repetiam a mesma cantilena. Talvez esse discreto silêncio sobre os textos roídos fosse ainda um modo de roer o roído.

segunda-feira, setembro 22, 2008

Um video do Maradona a fazer o aquecimento, quando ele era jogador do Nápoles, nos anos 80:


Quem gostar de ler, também pode entreter-se com
isto.

sábado, setembro 13, 2008

Democrático

Sim, eu tenho amigos de direita, mas da direita democrática: gente que se cumprimenta com dois beijinhos.

quinta-feira, setembro 11, 2008

A fama póstuma

Reparei agora que o post que esforçadamente escrevi sobre O Céu sobre Lisboa ficou com o seguinte endereço:

Exatamente: «O cu sobre», porque o
blogger não reconhece letras com acento. Outra coisa interessante é que, neste post do maradona, um comentador Tiago informa que «Infelizmente o autor do blog em causa [O Céu sobre Lisboa] faleceu há uns meses.» Notem a linguagem ponderosa: «infelizmente» e – é quase jurídico – «o blog em causa». É esta escolha de palavras que dá credibilidade ao texto.
Acho que o Pedro Ornelas acharia graça aos caminhos da fama póstuma. É o género de ironia do quotidiano que não morreu com ele.

sábado, setembro 06, 2008

Um aviso feito a tempo


na Fajã de João Dias, ilha de São Jorge (Açores). Clicar para ler

As alminhas que aqui vêdes
de labarédas vestidas,
quem sabe se representam
as vossas almas queridas.

(e, mais acima)

Entre o Purgatório e o Céu
quantas vezes não vai mais
que o passo do Padre Nosso
resado quando passais.

sexta-feira, setembro 05, 2008

Revista de blogs

No dia de hoje, há setenta anos, Orwell passou ao largo da costa portuguesa, assinalando o cabo da Roca e o cabo de São Vicente. O dia estava “very hot, and the sea bright blue”. Orwell avistou gaivotas de um tipo que não conhecia, que se chegavam muito perto da água “como mochos sobre a relva”, e também andorinhas; disseram-lhe que na véspera se tinham visto baleias. Sei isto porque está escrito no seu diário, agora organizado como um blog.
Dentro do mesmo género, mas com observações mais completas e interessantes, no dia de hoje, há quatro anos, Pedro Ornelas divertiu-se com o SATU,
o «veículo» de Paço de Arcos; há três anos, estava na Madeira e tomou umas notas sobre a praça de táxis e sobre o cais; e há um ano, nesta mesma data, topou uns cavalos a galarem-se nuns painéis da Igreja de S. Tiago, em Évora.

quinta-feira, setembro 04, 2008

Que há com o pato?


The ultimate Republican ticket

O Pedro Magalhães volta à metáfora estafada de que, se pudesse votar nas eleições americanas, votava nos Democratas mesmo que o candidato fosse o Pato Donald. O Pato, sempre o Pato, outra vez o Pato – por quê o Pato? Não há personagens piores, mais incapazes ou mais ridículas, na história da ficção, do que o Pato Donald? Por que não o Homer Simpson? Bart? Mr. Burns? (Não, esse é do Partido Republicano). O Smithers?
Mas houve uma ocasião em que o Pato Donald de facto foi a votos. Eu devia ter uns oito anos quando organizei a primeira eleição, em família. Não havia um posto específico em jogo; era uma eleição
como jogo, o que era talvez normal para uma cabeça moldada pela experiência das presidenciais de 1980 e por passar os domingos à tarde com um jogo de sociedade chamado “As eleições e os partidos”. Os dois candidatos eram o Tio Patinhas e o Pato Donald e, de acordo com a dinâmica eleitoral, acabou por resultar convencionado que o Tio Patinhas era o candidato da direita e o Pato Donald o da esquerda.
A história da derrota do Pato Donald é um pouco embaraçosa. Naquela tenra idade em que os instintos se revelam mais crus, foi precisa uma certa ajuda minha para decidir o resultado. Esquerda e direita, a família dividiu-se ao meio. Uma avó, porém, tinha votado no Pato Donald de forma que considerei irregular (uma cruzinha fora do quadrado? Já não me lembro), fechando os olhos ao facto de que um avô tinha votado Tio Patinhas de forma igualmente irregular (não preencheu o boletim e deu-me simplesmente um papelinho com o nome escrito: Tio Patinhas). Graças a este expediente, o milionário de Patópolis venceu a eleição sem posto pela estreita margem de doze a onze, ou coisa parecida.
O Pato Donald candidato da esquerda, o eleitorado dividido ao meio e o resultado decidido com uma chapelada. O meu pequeno sufrágio familiar antecipou a grande política americana em duas décadas; quem diria.

O tabuleiro de "As eleições e os partidos" pode ser visto neste forum dedicado ao museu do brinquedo, de Sintra.

Crónica de Luís Fernando Veríssimo, Sexo na Cabeça. Clicar na imagem para ler.

segunda-feira, setembro 01, 2008

O Céu sobre

A livraria Esperança, no Funchal, que conheci através do Pedro Ornelas

Em férias, sou surpreendido pela notícia da morte do Pedro Ornelas.

Deixem-me que tente dizer por que é que (como assinalei antes muitas vezes),
O Céu sobre Lisboa era o meu blog preferido.
Uma vez eu estava na Madeira, já lá estava há uns três ou quatro dias, e lembrei-me de lhe enviar um email a pedir sugestões, porque ele tinha falado várias vezes da Madeira no
blog (o Pedro passou anos da adolescência no Funchal e tinha família lá). Por coincidência – isto foi no réveillon de 2005/6 – ele também estava no Funchal. Tudo o que vi na Madeira nos dias seguintes devo-o ao Pedro, e poderia ter ficado mais uma semana na ilha, porque havia mais para ver. Vejam bem: eu até estava com pessoas de lá; mas nem toda a gente tem o olho do Pedro. Os primeiros dias foram pardacentos, os seguintes excelentes. Este ano, em São Paulo (novamente estando com pessoas de lá), fiz a mesma coisa, porque me lembrava do entusiasmo com que o Pedro tinha falado da viagem dele à cidade. Em resposta, recebi um email de duas páginas. (Muitas das coisas que o Pedro referia até eram no bairro onde eu estava instalado, e não as tinha visto.)
Há muito tempo que eu tinha o desejo de fazer algum projecto de trabalho com o Pedro: uma revista, um guia de viagens, um documentário. (É uma pena que o Pedro não tenha escrito um livro de viagens.) O Pedro tinha um olho raro, curioso, inteligente, culto, sensível. Tinha também um tom pouco comum na escrita. Como se fosse tudo um pouco
subdued. Os entusiasmos apareciam de forma entusiástica, sem dúvida (e havia muitos entusiasmos no blog dele), mas os textos nunca tinham a menor fanfarronice. (Essa coisa rara, não haver fanfarronice). Parece haver uma dúvida a atravessar a escrita, mas é uma dúvida inquisitiva, curiosa. Os textos eram limpos, impecáveis, irrepreensíveis. E eu tenho descoberto muitas coisas através da blogosfera, mas as coisas de que falava o Pedro eram daquelas em que eu atentava mais. Houve os passeios pela Madeira, as sugestões de São Paulo, mas há discos, blogs, livros que ainda recentemente comprei por me lembrar de ele ter falado. Livros que vou ler por causa do Pedro, e entretanto o Pedro até já morreu.

Eu e o Pedro não nos conhecíamos bem. Descobri-o no Agosto de há quatro anos (estava eu, justamente, em São Paulo),
através de um email que ele escreveu para o blog do Francisco José Viegas e que me impressionou. Devemos ter-nos encontrado meia-dúzia de vezes. Há assim estas recordações dispersas. Um sms dele, uma vez, estava eu em Bombaim, a comentar a saída do Mário Mesquita de colunista do Público. Respondi: “Não sei de nada, estou em Bombaim.” Resposta dele: “Então, e isso é giro?”
O Pedro, ao que apurei, deve ter morrido no dia 10 de Agosto, domingo, de manhã, no hospital, na sequência de complicações decorrentes de uma operação ao fígado. (Eu só soube quase três semanas depois, e através de um amigo meu que nem sequer o conhecia.) Suponho que ele teria talvez 45 anos, ou coisa parecida. Acho que nunca foi a Bombaim nem voltou ao Brasil. Não sei se foi a São Jorge e às Flores, onde eu estava na semana em que tive a notícia, mas acho que ele teria certamente gostado muito dessas ilhas. Não escreveu um livro de viagens, e juntos não vamos fazer nenhuma revista nem sequer nenhum documentário.
É uma perda muito triste.

Muitas vezes enviei
posts do Pedro, por email, a amigos. Uma boa maneira de ler o blog é – como em todos – começar pelo princípio.


From: Pedro Ornelas
Date: Jan 2, 2006 1:45 AM
Subject: Re:
To: Ivan Nunes


Sugestões instantâneas. Comer peixe no Doca do Cavacas, a uns 5 km do centro, direcção oeste, à beira mar. Relação qualidade-preço imbatível, comida, localização e serviço impecáveis, convém marcar mesa. Tomar um café ou qualquer outra coisa na esplanada do Clube Naval (embora não tenha a certeza se está aberto nesta altura) ou na do Palheiro Golf. Beber um copo à noite no bar do Savoy Hotel, que vai ser demolido em breve e tem um ambiente que faz lembrar os filmes do 007 dos anos 60. Ir de manhã cedo ao pico do Areeiro (a essas horas há mais probabilidades de conseguir ver alguma coisa nesta época do ano). Ir almoçar ao Seixal (ao lado do cais, não me lembro o nome mas é o único neste sítio) ou à Fajã da Areia, perto de S. Vicente (também não me lembro o nome mas tem uma esplanada, fica na estrada do lado oposto ao mar, e servem um polvo muito bom). Capítulo bares no Funchal, o mais bonito é o Look, que fica no molhe da Pontinha e abre à tarde e à noite. Se quiseres visitar uma das livrarias mais disfuncionais do mundo, vai à Esperança na rua dos Ferreiros. Vale a pena, embora comprar livros seja difícil. O museu de arte contemporânea no forte de São Tiago vale pelo edifício, um antigo forte filipino à beira mar, e o mesmo vale para o novíssimo Centro Cultural Casa das Mudas, na Calheta.

domingo, julho 20, 2008

Transcrição do post «estou a ver este programa de gonçalo cadilhe sobre o fernão de magalhães» do maradona:

«Gonçalo Cadilhe, gostava que me explicassem este enigma. Gonçalo Cadilhe escreve no Expresso ou lá o que é. Como é possivel? Um dia destes, daqui a pouco quase dez anos depois, volto a comprar o Expresso, só para ver quantos "como é possivel?" se consegue encontrar por lá. No Público há alguns "como é possivel?"; no DN, curiosamente, parece-me haver menos "como é possivel?" que no Público. Nos jornais desportivos o raciocinio é o inverso. Sente-se o "como é possivel?" quando se encontra uma coisa boa, aparentemente bem escrita (que eu não percebo nada dessas merdas), pensada, com principio, meio, fim e lógica, por vezes mesmo imaginação e inteligência. Por incrivel que pareça, em todas as edições dos jornais desportivos temos sempre a oportunidade de emitir um "como é possivel?" É preciso compreender que eu agora poderia continuar por aqui fora, com um comboio de "como é possivel?" e só terminar amanhã.»

quarta-feira, julho 02, 2008

Um Sócrates


Federação Distrital de Castelo Branco do PS, em meados dos anos 80

Sobre Sócrates – O menino de ouro do PS, de Eduarda Maio (Esfera dos Livros, 365 pp., 25€).

[Publicado na Time Out de hoje.]

A subdirectora da Antena 1, Eduarda Maio, a quem o programa de televisão "O Juiz Decide" deu nos anos 90 uma relativa notoriedade, acaba de publicar uma biografia do actual primeiro-ministro. E não há duas maneiras de dizer isto: trata-se de um péssimo livro. Com esta biografia não se aprende nada de relevante sobre a carreira e a ascensão política de José Sócrates que não estivesse já nos jornais. A narrativa dos acontecimentos decisivos (a candidatura à liderança do PS, a maioria absoluta) não acrescenta dados novos. Se Sócrates, num ou noutro episódio, é alvo de ataques, Eduarda Maio não os investiga; aproveita apenas para realçar as qualidades que levaram o nosso Herói a resistir-lhes. "À firmeza do seu trabalho parlamentar, José Sócrates juntava agora o seu espírito. Gostava de quebrar a solenidade pardacenta das sessões, de remoçar o debate político salpicando-o de humor e sacudindo-lhe o excesso de sisudez e de monotonia" (p.211). O tom é "hagiográfico", disse Pacheco Pereira. Pior que isso: é parolo.

Há páginas e páginas de resumos de peças de propaganda, como artigos de jornal ou programas partidários; e passagens chatas e compridas como quem recita em versão alargada um curriculum vitae. A abordagem da autora consiste numa espécie de contemplação beata. Maio entrevistou alguns próximos de Sócrates, que lhe contaram como o nosso primeiro-ministro é um "bom amigo", um "menino de ouro", tem extraordinárias capacidades de trabalho e é um devoto dos livros. "«Quando ele teve que aumentar o IVA, nem dormiu na noite anterior», afirma Renato Sampaio" (p.311). Nem por uma vez a jornalista se lembra de investigar o que está realmente em jogo nessas amizades e inimizades políticas, o que as move, o que torna o nosso homem tão "persuasivo" – em suma, tudo aquilo que é propriamente a política. E nunca, sobre uma matéria controversa (a co-incineração, o caso da licenciatura, conflitos pessoais variados), dá voz aos críticos.

Seria possível escrever uma biografia interessante sobre o actual primeiro-ministro? É tentador pensar que os nossos actuais líderes, seguindo uma tendência que é sociológica e que não é portuguesa, não são propriamente personagens carismáticas, mas indivíduos formados nas máquinas partidárias, que (sejam quais forem outras qualidades que eventualmente tenham) não têm vidas aventurosas nem biografias emocionantes.

Tudo isso é certo, mas há ainda qualquer coisa de relevante nesse cinzentismo. Talvez José Sócrates, Filipe Menezes, Passos Coelho, não se prestem a histórias fascinantes; mas prestam-se, apesar de tudo, a uma história relevante da nossa democracia. Através da biografia de um deles poderíamos conhecer alguma coisa sobre os mecanismos que fazem de um indivíduo um caso de sucesso político nos dias de hoje: aquilo que realmente condiciona promoções e despromoções, alianças e zangas, numa época em que os confrontos ideológicos estão esbatidos. Mesmo sem fazer um julgamento sumário do regime, importava conhecer um pouco mais sobre o funcionamento interno dessas instituições cruciais da democracia que são os partidos políticos. Há uma biografia política que mereceria a pena ser escrita, sobre um homem banal num regime banal.

E – uma última nota – eu não detesto Sócrates pessoalmente, como figura. Suspeito até – suspeito apenas, porque a biografia de Maio não dá para mais – de que mesmo no plano pessoal haveria algo de interessante para contar na história de um José Sócrates. Aos sete anos de idade, viveu o divórcio litigioso dos pais, que se arrastou em tribunal por seis anos; e até aos 16 ficou afastado da mãe e dos seus dois irmãos. Folheando o livro, é difícil não reparar nas fotos de infância desta criança que nunca sorri; e que tem outras tragédias na sua vida familiar. Não estou a incitar ao voyeurismo, mas não seria relevante investigar a relação entre a criança das fotos e o político que, paradoxalmente, se tornou popular (pelo menos numa dada fase) por uma certa reserva e mesmo uma certa antipatia? Outros superam tristezas por uma extroversão exuberante e maníaca; não assim Sócrates. Mas, numa biografia de 350 páginas, de prosa redundante e rendilhada (e frequentemente ridícula), Maio não dedica uma linha a investigar como é que a criança que depois foi primeiro-ministro atravessou tudo isto.

sexta-feira, junho 27, 2008

Fazer coisas com palavras

"Amo-te" é uma performativa?

sexta-feira, junho 20, 2008

Diva à matiné


A jornalista Lara Logan é correspondente do canal de televisão CBS no Iraque e resolveu denunciar a cobertura que os media americanos fazem da guerra.
Só uma pergunta: há quantos anos o cinema não nos dá uma personagem de ficção que seja tão atraente como esta?

quarta-feira, junho 18, 2008

19 de Julho


Eu pagava o preço do bilhete só para ler este texto. (Obrigado ao Pedro Mexia.)
Tonight, in his suit and hat, he resembles a senior 1920s mobster, only with a guitar instead of a tommy gun.
When he and his similarly attired band open with the Italian-flavoured Dance Me to the End of Love, we could almost be at a mafia wedding. The hat is gracefully doffed to acknowledge applause.
Cohen's baritone has become deeper and more formidable over the years; the line in Tower of Song - "I was born with the gift of a golden voice" - prompts a wave of knowing laughter and applause. The golden voice now resembles a boulder rolling down a tunnel: something huge and elemental.
Older songs such as Suzanne lure him back to the upper limits of his range, but most of the material dates from after he discovered synthesizers and politics in the 80s.
The acrid, dystopian humour of The Future and First We Take Manhattan is as resonant now as it was 20 years ago, a reminder that the only people who dub Cohen depressing are those that don't get the jokes. He delivers plenty tonight, like a wry nightclub host.
"Please sit down," he says after one standing ovation. "It makes me nervous. I think you're going to leave."
(...) Seizing his magnificent Hallelujah back from Jeff Buckley, Rufus Wainwright and dozens more, he is possessed by the words, his eyes squeezed tight, his body trembling.
After three hours, the final encore is the aptly titled I Tried to Leave You. "Goodnight my darling/ I hope you're satisfied," Cohen rumbles with a wink. "Here's a man still working for your smile."

domingo, junho 15, 2008

Cenas de um casamento



[do Público de hoje]
A geração R vai ao altar
15.06.2008, Paulo Moura

O Cabaret Maxime organizou a sua versão especial das noivas de Santo António. Na noite de sexta-feira, 13, o Cónego Lello realizou quatro casamentos. Eram todos a fingir?

Nenhum Governo tinha tido coragem para aumentar as propinas universitárias desde os anos 40. Mais ou menos na altura em que, na Praça da Alegria, em Lisboa, abriu o Cabaret Maxime, para ser frequentado por intelectuais e artistas, burgueses e até aristocratas.
Mas em Junho de 1992, transformado já o Maxime num prestigiado bar de alterne, o Parlamento aprovou a nova Lei das Propinas. De 1200 escudos, a taxa passaria a 200 contos, na euforia do cavaquismo tardio. Os estudantes revoltaram-se. Escreveram no traseiro "Não pagamos!" e baixaram as calças em frente à Assembleia da República. Baixaram também as expectativas que o país tinha colocado neles. Afinal, tinham 20 anos, eram os baby-boomers de Abril. E ninguém lhes tinha explicado o peso simbólico que carregavam nos ombros. Furioso, o director de um influente jornal chamou-lhes Geração Rasca. Mas fizeram manifestações e uma greve, um ministro caiu e a lei foi, não derrotada, mas suavizada.
O grupo que encabeçou a contestação estudava no Instituto Superior Técnico. Eram uns 20. Partilhavam gostos e ideias. Andavam sempre juntos. Desenvolveram a sua própria ideia de irreverência, muito diferente da dos pais. Gostavam dos Ena Pá 2000 e dos Irmãos Catita, de quem não perdiam nenhum concerto, fosse no Ritz Club, fosse no Paradise Garage. Quando Manuel João Vieira concorreu à Presidência da República sob a palavra de ordem "Só desisto se for eleito", apoiaram-no.
O grupo manteve-se unido, pelo menos nos jantares semanais, das sextas-feiras, mesmo depois de quase todos eles terem concluído os doutoramentos e se terem tornado docentes universitários. Luis Mota, o presidente da Associação de Estudantes do Técnico, tornou-se namorado de Rita Canário, também dirigente associativa. Ele tornar-se-ia professor de informática no ISCTE, ela de Física na FCT, da Universidade Nova. Os Irmãos Catita continuaram a ser a banda sonora das suas vidas.

O primeiro casal
Sexta-feira, 13 de Junho de 2008. O Santo António entra em palco e começa a dircursar, de sandálias e braços abertos. "Não vos inquieteis. Deveis, após os votos, fazer muitos filhos e fornicar muito nesta Terra", clama ele, enquanto o Padre Lelo se está a vertir para a cerimónia. "Fornicai, para que muitos filhos possam substituir esses chineses das lojas dos 300. Combatei a imigração candestina."
O Cabaret Maxime organizou a sua versão especial dos casamentos de Santo António. Depois da decadência e do encerramento, o Maxime reabriu em Janeiro de 2006, sob a gestão de Manuel João Vieira e o seu padrasto Bo Backstrom. Tornou-se o santuário permanente dos Irmãos Catita e dos Ena Pá 2000 e de todos os fãs que os acompanharam nas últimas duas décadas. Numa espécie de milagre de Lázaro pós-moderno, consegue ressuscitar artistas como José Cid ou Victor Espadinha, em espectáculos de lotação esgotada. Esquecemo-nos de que eles estavam esquecidos, graças ao grande ilusionista Lello Vilarinho, também conhecido como Lelo Marmelo, Lelo Universal, ou Cónego Lello.
É sob este avatar que Manuel João surge agora em palco, quer dizer, no altar, para celebrar os matrimónios. "Hoje, sexta-feira, 13, vamos casar aqui homens e mulheres, mulheres e mulheres, e mesmo outros que estão fora desse enquadramento económico-social", anuncia o sacerdote da Igreja de Todos os Santos e Mais Alguns.
"Com a bênção do verdadeiro Santo António, ides fazer um investimento no mercado de futuros. Porque é Deus que vos enlaça, como uma trepadeira amazónica."
Aproxima-se o primeiro casal, Isabel e Tiago. Palmas. "Em nome da Igreja de Todos os Santos e Mais Alguns, mais de 3000 santos que vivem em concubinato no Paraíso, em apartamentos duplex em condomínios fechados com vista para o mar..." recita o cónego. "Tiago, desejas profundamente e a sério unir o teu destino, para toda a eternidade, ou pelo menos durante algum tempo, até que a morte vos separe, ou alguma doença horrível que vos faça apodrecer como cadáveres num cemitério, casar com Isabel..."
Que irá ele responder? A expectativa é enorme. Isabel, 28 anos, assistente de recursos humanos, queria casar mesmo. Tiago, 24 anos, mecânico, não. Mas ela viu no telejornal o anúncio do Maxime e pensou que era a solução. Convenceu o namorado a participar na brincadeira. Só quando viu a família toda, a mãe da noiva, os padrinhos, trajados a rigor e reunidos no Maxime, é que ele percebeu que aquilo não era bem uma brincadeira. Pelo menos para a noiva, e respectiva família, não era. "Isto é a ver se ele se entusiasma", explicou ela. Mas o que conseguiu foi que ele ficasse zangado. Por isso ninguém sabe o que vai ele agora, na hora da verdade, responder.
Mas o noivo levanta os olhos para o cónego e diz: "Sim. Proclamo a minha fidelidade, em nome do Pai, do Filho e do Espirito Santo".
Isabel jura o mesmo e Lello abençoa-os: "Pronuncio-vos marido e mulher, até que qualquer coisa vos separe. Podem beijar-se e fazer outras coisas porcas".

O segundo casal
Catarina e Fernando, 35 e 37 anos, já vivem juntos há 6 e têm dois filhos. Mas não se sabe quem tem fugido mais do casamento, ele ou ela. De qualquer forma, é ele que inventa as desculpas esfarrapadas, como esta: "Da última vez que íamos casar, ela ficou grávida. E pronto, lá ficámos sem dinheiro outra vez". Ou esta: "Já tentei, mas não consegui. Meti os papéis na Conservatória, mas depois mudámos de residência... É difícil. Tentei várias vezes, mas não consegui".
Agora, parece que é de vez: vieram os padrinhos e 32 convidados, incluindo as famílias e o patrão da agência imobiliária em que ambos trabalham. E prometem que, para a semana, vão ao Registo Civil legalizar a união. Pelo menos foi o que disseram à mãe da noiva, Dona Rosalina, sentada, feliz, na primeira fila do Maxime.
"Desejas amar e ser fiel à tua mulher para o resto da tua vida, enquanto o mundo for mundo, até que o mundo estremeça e os vulcões alastrem sobre a Terra?", pergunta o Cónego Lello, e Fernando responde, com uma cerveja na mão: "É tudo o que eu mais quero na vida".
"E tu, Catarina, aceitas este homem, para a procriação, até que a morte, ou outro acontecimento mesquinho ou bizarro vos separe?"
"Aceito, mas procriar não quero mais, porque já temos uma menina..."
"Milagre! Milagre!", gritam em uníssono cónego, Santo António e Frei Tuck. "Ainda agora casaram e já nasceu uma menina! É milagre! Aleluia!" E pedem mais 200 mil euros para a Fundação Catita, num cheque que é assinado ali mesmo. "Praise de Lord!"

Finalmente Rita e Luís
A noite está em grande, o Cónego Lello rejubila. Rita e Luís avançam para o altar. "Aceitas esta mulher e toda a sua fecundidade em Jesus Cristo? Aceitas esta joint venture para o futuro?"
"Aceito e desejo-o", responde o doutor Luís, 35 anos, ex-dirigente associativo.
"E tu, desejas unir o teu destino ao deste homem devasso?", pergunta Lello à doutora Rita, que "nunca seria capaz de um casamento tradicional".
"Sim!"
"Se alguém conhece alguma objecção diga-o agora, ou cale-se para sempre, e seja comido no Inferno por ratos com cornos. Proclamo-vos doravante marido e mulher. Ide e multiplicai-vos."
Uma matulona semi-nua vem fazer lap-dancing. Realiza-se um casamento de última hora entre um homem e duas mulheres. Os Irmãos Catita começam o concerto. "Chupas e engoles, tocas gaita de foles, nas minhas partes moles", canta Lello Marmelo. Todos dançam. Até a Dona Rosalina, ao som de Cocaína na Vagina. Mas só até às 4 da manhã. E, desde que os vizinhos protestaram por causa do barulho, sem nunca ultrapassar a barreira dos 89 decibéis.

sexta-feira, junho 13, 2008

Shyamalanesco


Não sei propriamente explicar. Tinham passado as primeiras imagens deste trailer, e eu nem sabia que havia um filme novo do Shyamalan, quando disse para o lado: «- Isto é o Shyamalan». E era: imediatamente a seguir apareceu o nome dele. Vi só alguns dos filmes: não gostei de Signs, menos ainda de Senhora da Água, impressionou-me muito O Protegido (Unbreakable). Mas suspeito agora que os meus likes & dislikes dizem mais sobre a minha disposição do momento do que sobre eles.
Há qualquer marca autoral muito forte, plano-por-plano, nas imagens de O Acontecimento; infelizmente, não sei explicar o que é. Claro que evoca Spielberg, não só pelo lugar das crianças, a narrativa infantil e reacionária (há uma verdade primordial a que se regressa e que as crianças intuem), e o facto de ser tudo muito e excessivamente explicado. Olho para aquilo e evoca Spielberg, mas é um Spielberg dos inícios, intenso e mais bem feito. Há qualquer coisa de muito americano nas cores de O Acontecimento, nessas imagens que sem saber porquê imediatamente atribuí a Shyamalan (haverá também qualquer coisa de indiano? É que falo em cores). Há rigor, há detalhe, na maneira de filmar cada plano: gostei da imagem de uma velha subtilmente filmada através de um mosquiteiro, a quadrícula pequenina dando uma vaga sugestão de pintura impressionista. Encontrei ecos de Signs, encontrei todas as marcas de cinema que não é do meu género, mas deixei-me interessar pelo filme. Shyamalan é um autor e há qualquer coisa de forte e Shyamalanesco.

quarta-feira, junho 11, 2008

Le Sporting, club d’esthètes lisboètes

Há um abismo moral que separa o Sporting do Benfica: o benfiquista é um sujeito que, em miúdo, escolheu ser «dos que ganham» e ficar com a multidão. E, no futebol, a moralidade é a estética, como comprova este artigo do Libération publicado hoje:
Le gamin du Sporting est gâté : en ces temps de bloc équipe et d’impact physique, ici ce qui compte, c’est le talent brut. Au Sporting, c’est historique, on fabrique du cousu-pied

sexta-feira, junho 06, 2008

Nacional-cançonetismo (nova esquerda remix)

«Foi o renascer da esperança, da alegria, das canções cantadas em comum. Portugal precisa de mais esquerda.»

[Manuel Alegre, numa genial entrevista feita a seguir ao comício de terça e publicada ontem no Público.]

Otimismo histórico

Nos começos do século, Portugal era governado pelo Partido Socialista sob orientação de José Sócrates, Manuel Alegre liderava um comício do Bloco, que era criticado pela restante oposição de esquerda, o PCP, pelas vozes de Jerónimo de Sousa e de José Saramago.
A política, XXI não tem obviamente nada a ver com a Política XXI, honra lhe seja feita.

quarta-feira, junho 04, 2008

Um weberianismo da treta

Tem havido um ar de presciência, ou até de omnisciência, na retórica dos bloggers portugueses de inclinação clintonista. Obama é minimizado, e os seus apoiantes tratados com condescendência: nada justifica a popularidade do candidato negro à nomeação democrata a não ser uma aura mística pessoal; o apoio a Obama tem um nome – Obamania – e logo por aí se vê que é um fenómeno do domínio do irracional; o candidato não seria portanto politicamente confiável. Não me lembro de uma única pessoa ponderada que tenha declarado simpatia por Obama. O apoio à candidatura – abertamente não-glamourosa – de Hillary Clinton não é só a opção mais sensata; é a opção dos sages, que vez por outra abrem um pouco a cortina dos seus oráculos e nos dizem aquilo que vai acontecer.
Neste contexto, é pelo menos irónico contemplar a forma como Hillary Clinton tem politicamente conduzido o estertor da sua campanha. Como reagiu ontem à noite em Nova Iorque, quando Barack Obama conseguiu o número necessário de delegados à Convenção democrata? "This has been a long campaign. And I will be making no decisions tonight. But this has always been your campaign. So, to the 18 million people who voted for me, and to our many other supporters out there of all ages: I want to hear from you. I hope you’ll go to my website at hillaryclinton.com and share your thoughts with me and help in any way that you can, and in the coming days I'll be consulting with supporters and party leaders to determine how to move forward..."
É ver para crer, e julgar da racionalidade, fiabilidade e sentido de responsabilidade da candidata dos sábios.

Obama (2)

Mr Obama will not want to make the offer if there is a chance that she will actually accept. Expect a complicated dance between the two in coming days. She probably would not bring to his ticket what it needs.

Obama ganhou a nomeação democrata.

terça-feira, junho 03, 2008

A língua é nossa


Em termos de petições de defesa da língua, há uma de que sinto especial falta: para que se incluam autores brasileiros (e talvez africanos) no currículo das escolas secundárias portuguesas, da mesma forma que no Brasil se ensinam Eça, Pessoa, Camilo. Isto sempre me envergonha perante amigos brasileiros: se a língua é nossa, por que raio a conhecemos pior do que eles?

Bravo Portugal

Tinha-me passado despercebido. Só hoje reparei neste post do blog do Economist:

sexta-feira, maio 30, 2008

Seleção


Não é patriotismo. É a minha chance de torcer pelo Quaresma.

segunda-feira, maio 12, 2008

Estou encantado com a descoberta de Luiz Tatit. Fui mais que cético assistir ao show na Culturgest, onde aliás não enchíamos meia sala. Esperava um brasileiro meio erudito, meio chato, saiu-me uma espécie de versão paulistana do André Belo. Intelectual, sim (professor na USP), mas com letras muito engraçadas, muito irónicas, em melodias muito simples. Muitas vezes são estórias, com um narrador auto-irónico, e quase parecem música para crianças. Ele não canta, quase não canta, mas a gente acaba por se acostumar. O espectáculo foi um sucesso, e no final houve uma corrida aos cd's que se vendiam na entrada e esgotaram em dez minutos. Os cd's são bons; gosto sobretudo dos dois primeiros. Há tempo que não descobria um entusiasmo assim.

Parvoíces sem p

Assinalando o aniversário do blog de Pacheco Pereira, Vasco Graça Moura insurge-se contra a queda do "p" na palavra "abrupto"; no Ípsilon, João Bonifácio escreve "corruto" assim, e depois explica: "em homenagem ao país irmão optou-se por seguir o acordo [ortográfico]". Mas nem aqui nem no Brasil, nem antes nem depois da nova norma, "abrupto" ou "corrupto" se escrevem sem "p".
O acordo ortográfico tem um alcance frustrantemente modesto. Sobretudo do ponto de vista dos seus detractores.

sábado, maio 10, 2008

Working Class Menace


«I tell you, Frank: there's suddenly something rather menacing about the working class.» Paródia da série britânica Big Train a partir dos Pássaros de Hitchcock.

sexta-feira, maio 09, 2008

Dou-me ao trabalho de escrever estas coisas por imaginar um leitor ideal que seja instigado a ir ver o filme. Mas suspeito que o método do IMDB seja muito mais eficaz.

Plot keywords for California Dreamin' (Nesfarsit) (2007)
* Nudity
* American Dream
* Father Daughter Relationship
* Flashback Sequence
* Anti Americanism
* Title Based On Song
* Bureaucratism
* Train
* War
* Based On True Story
* Title Spoken By Character

quinta-feira, maio 08, 2008


Encontro de culturas


Cristian Nemescu tinha 27 anos, a 24 de Agosto de 2006, quando, estava ele a terminar o seu primeiro filme, se meteu num táxi com o técnico de som: tiveram um acidente e morreram os dois. Califórnia Dreamin’, que ainda está em exibição no King às sextas, sábados e segundas-feiras à meia-noite*, é por isso uma primeira e última obra, e quem a vir perceberá bem a tragédia. Tem marcas de primeiro filme e de filme inacabado; umas e outras não impedem que valha muito a pena vê-lo.
Durante o bombardeamento da NATO à Sérvia na primavera de 1999, um comboio leva armamento militar americano, atravessando a Roménia. Um chefe de estação zeloso de procedimentos burocráticos (e pouco simpatizante dos americanos) manda parar a composição numa pequena vila; obriga a cinco ou seis dias de encontro de culturas, choque de percepções recíprocas, entre os habitantes romenos e as tropas americanas.
O tom é irónico, um pouco melancólico, auto-irónico, mas com passagens líricas (a actriz, Maria Dinulescu, não se presta a menos). Para o ouvido português, neste, como noutros filmes romenos, não passarão desapercebidas as enormes afinidades da língua. Para o olho português, talvez não passem, também, as afinidades de paisagem. Há momentos em que dá vontade de geminar os dois países. Pelo meio da melancolia, há um tom entusiasmante nesta primeira (e última) obra, e os Mamas & Papas cantando Califórnia Dreamin’, sobre o genérico final, devem ter contribuído para a espécie de alegria com que eu saí do filme.

* e no Nimas às sete, todos os dias.

segunda-feira, maio 05, 2008

Neste sentido


Comprei um macbook e confirmo que é bonito, neste sentido: é um computador e não é feio.

quarta-feira, abril 30, 2008

Ressaca moral


(clicar para ler).

quarta-feira, abril 02, 2008

Delinqüente

Nunca pensei envolver-me numa troca de argumentos sobre o acordo ortográfico. Há pessoas muito mais qualificadas do que eu para escrever sobre isso. Mas, uma vez interpelado pelo Frazão, não posso deixar de dizer que acho os argumentos dele surpreendentemente fraquinhos. Que sem «c» em ação e sem «p» em perceção deixamos de saber abrir a vogal anterior? E «inflacionário», como o pronunciará o Frazão? Que, perdendo a referência à origem etimológica, ficamos com situações incongruentes, como «espectador» e «espetáculo»? Há quanto tempo escrevemos «quatro» e «catorze»? Parecendo que não, já se fizeram reformas ortográficas antes, incluindo coisas tão estranhas como a supressão dos acentos nos advérbios de modo – e, ainda assim, sabiamente, toda a gente consegue ler isto. Claro que esta reforma não é perfeita: se fosse a meu gosto, recolocava o trema em «agüentar» e «delinqüente» (que, no entanto, ninguém lê da mesma forma que «quente»). Por fim, o Frazão invoca «as árvores». Suponho que se refira a dicionários e gramáticas que precisam de ser revistos (o resto vai sendo adaptado, e há prazos para isso). Eu também me preocupo com as árvores. Por isso é que praticamente deixei de comprar o Público.

Oblivion's swallowing sea

Não se apoquentem se não perceberem o título. O que conta é o som. Pode ser que seja eu que li pouco, mas achei este parágrafo, com que abre o obituário do Economist da semana passada, sobre o último sobrevivente francês que combateu na I Guerra Mundial, digno do começo de um grande romance. Do resto do texto também gostei muito.

THE business of memory is a solid and solemn thing. Plaques are unveiled on the wall; stone memorials are built in the square; the domed mausoleum rises brick by brick over the city. But the business of memory is also as elusive as water or mist. The yellowing photographs slide to the back of the drawer; the voices fade; and the last rememberers of the dead die in their turn, leaving only what Thomas Hardy called “oblivion's swallowing sea”.
[Continua.]

quarta-feira, março 26, 2008

A selva

Não conheço em pormenor as disposições do acordo ortográfico, de modo que o meu texto, mais do que seguir uma norma, faz uma apropriação um tanto selvagem daquilo que me interessa. A minha brasilofilia é conhecida, e há tempo que eu deixei de usar «p» em ótimo, e retiro com gosto o «c» em fato. A minha mistura de português de Portugal com português do Brasil não é mais que uma pequena utopia pessoal. Mas simpatizo com o acordo: não, como diz o ministro, porque possamos passar a ter «uma língua unificada» (vocês dêem um desconto), mas na medida em que ele adapte algumas coisas que está na hora de serem adaptadas.
Ah: e eu não duvido por um segundo da superioridade do português do Brasil.

terça-feira, março 25, 2008

Honestos falsificadores


Por razões que superam o meu entendimento, a crítica portuguesa (dos jornais que leio, de que de fato são poucos) reagiu com frieza a Os Falsificadores, a fita austríaca que este ano ganhou o Óscar de melhor filme estrangeiro. Trata-se de um filme muito acima da média, a história de um grupo de judeus no campo de concentração que são identificados pelos seus carcereiros como especialmente hábeis na contrafação: são capazes de imitar perfeitamente as notas de libra inglesa, e podem constituir um auxílio muito útil ao esforço de guerra. Em contrapartida, gozam de um tratamento de relativo privilégio, comparado com os outros presos, e têm a sobrevivência mais ou menos garantida. O alcance deste compromisso não é pequeno: se os nazis fossem capazes de falsificar o dólar, isso constituiria para eles, em 1945, uma fonte vital de oxigénio. O filme, que é servido por um ótimo ator (Karl Markovics) no papel do protagonista, coloca-nos pois no centro de um dilema moral: como espectadores, identificamo-nos naturalmente com ele, e por isso desejamos que sobreviva; mas um outro personagem lembra-nos constantemente a implicação disto, em termos de colaboração numa empreitada radicalmente imoral, que inclui o extermínio dos outros judeus. Estamos portanto perante um filme sobre o nazismo e os campos que, longe de nos colocar na posição relativamente confortável de contemplar o mal a partir de fora (com desprezo, com pena, com comiseração), nos coloca numa posição de desconforto moral, de julgamento difícil, de conflito entre instintos emocionais (a empatia com o protagonista) e escolhas racionais (do domínio da abstração).
Que seja ainda possível fazer um filme sobre o nazismo que nos surpreenda, que conte uma história que quase não conhecíamos e nos obrigue a enfrentar o assunto sob um prisma que quase nunca fomos chamados a contemplar, já é bastante bom. Que isso seja servido por uma realização esteticamente «limpa», sem grandes artifícios ou truques sentimentais, e ainda bons atores, é razão mais que suficiente para chamar a atenção. Em Lisboa, Os Falsificadores já só está no Corte Inglês.

terça-feira, março 18, 2008

Lúcida

Um fim-de-semana em cheio para o Irmão Lúcia: um boneco, um teste e uma teoria política.

sexta-feira, março 14, 2008

The dismal science


O paper de Paul Krugman, de 1978, sobre a teoria do comércio intergalático é o género de texto que faz cócegas dentro da cabeça. «It should be noted that, while the subject of this paper is silly, the analysis actually does make sense. This paper, then, is a serious analysis of a ridiculous subject, which is of course the opposite of what is usual in economics.» É muito difícil lê-lo sem ter reação. [Obrigado à Mariana.]

terça-feira, março 11, 2008

Aleluia! Aleluia!


Ele vai estar em Portugal a 19 de Julho.

quarta-feira, março 05, 2008

A política do ui, que medo!

(um post a meias com o Filipe Nunes)


Era uma vez a Hillary Clinton, o Barack Obama e um português. A Hillary acusava o Obama de não saber responder em momentos de crise, de não ter experiência para reagir se o telefone tocasse às três da manhã, enquanto as crianças americanas dormem. O Obama contestava que a Hillary também não tinha muita experiência, e a experiência do marido dela não era a experiência dela. Foram, então, perguntar ao português. Ele respondeu assim:

"Eu lembro-me de uma vez um governador do Banco de Portugal me ter telefonado às duas horas da manhã, para casa, estava eu a dormir perfeitamente, tranquilamente, a dizer: "Mário, é uma desgraça, é uma desgraça, amanhã isto vai quebrar, porque nós passámos à linha vermelha e agora já não temos dinheiro para pagar. Se há uma corrida aos bancos é a bancarrota." E eu respondi-lhe: "Olhe, ó meu caro amigo, o senhor governador faça favor, para a próxima vez, não me acorde às duas da manhã, porque se é a bancarrota eu tenho de estar lúcido amanhã de manhã e, portanto, preciso de dormir agora. Deixe-me lá dormir." Bem, não houve bancarrota. Mas estivemos muito próximo, realmente."

segunda-feira, fevereiro 25, 2008


O video está cortado por metade, mas, de qualquer forma, acho que esta ainda é a minha favorita.

domingo, fevereiro 17, 2008

Ensaios céticos



[Texto publicado anteontem no suplemento Ípsilon do Público.]


Sobre Eric Hobsbawm, Globalização, democracia e terrorismo, traduzido por Miguel Romeira para a ed. Presença.


Eric J. Hobsbawm é indiscutivelmente um dos maiores historiadores vivos e deve muito desse estatuto a uma tríade de obras de referência sobre o século XIX – Era das Revoluções (1789-1848), Era do Capital (1848-1875) e Era do Império (1875-1914). Já parcialmente retirado da vida académica, escreveu depois um volume sobre o século XX, que obteve também um reconhecimento enorme. Chamou-se Era dos Extremos (1914-1991), mas, apesar do título enganador, não era de forma nenhuma comparável aos livros anteriores: tratava-se agora de um comentário à história do século XX feito por quem o viveu (Hobsbawm nasceu em 1917, a outra data de início do seu «breve século»), reconstruindo-o através de documentos, anotações e memórias, no que elas têm também de fragmentário e selectivo.

Na própria página que abre Era dos Extremos está sublinhado que ninguém pode contar a história do seu tempo como a de séculos passados, e que Hobsbawm não é, nunca foi, um historiador do século XX, mas um especialista no século XIX. Por mais que na bizarra tradução portuguesa a Era dos Extremos tenha tido como subtítulo «breve história do século XX» (trata-se do «breve século XX», e são 600 páginas), o livro não é pois nenhuma síntese, mas uma interpretação do tempo da própria vida. E, quando mais tarde Hobsbawm publicou a sua autobiografia (Tempos Interessantes), fez questão de notar que se tratava do «reverso» de Era dos Extremos. O livro sobre o século XX podia também ser lido como memória, e a autobiografia como uma introdução ao século: foi o próprio Hobsbawm quem o sugeriu.

Se começo por falar de outros livros, e não da colectânea de ensaios que agora tenho em mãos, é que creio que este volume deve ser interpretado no quadro da autobiografia alargada que Hobsbawm tem vindo a escrever nos seus anos de senectude. Os temas que estruturam esta compilação são actuais: «Globalização, democracia e terrorismo» remete para os três grandes chavões do discurso político contemporâneo. Mas o olhar sobre eles é marcado pela experiência e pela nostalgia do século XX. Há um fio que vem de Era dos Extremos e se prolonga, o sentimento de perda de um mundo organizado pela Guerra Fria (um sistema internacional «estável», «ordeiro», «previsível»), uma nostalgia dos anos gloriosos de 1945-1975, em que, enfrentado pela alternativa comunista do Leste, o capitalismo se socializou.

Um dos pilares desta transformação é o declínio do Estado, hoje muitas vezes incapaz de controlar o que se passa no seu interior. A enorme disseminação de armamento ligeiro, que se iniciou com a Guerra Fria e prosseguiu desordenadamente depois do seu fim, é várias vezes mencionada como pondo em causa a ordem estadual. Outro pilar consiste no declínio da disponibilidade dos cidadãos para obedecer – quer no plano mais quotidiano da disposição para cumprir a lei, quer no sentido mais ambicioso, de dar a vida em defesa da pátria. A generalidade dos Estados deixou, segundo o autor, de poder contar com os seus cidadãos para este fim. O recrudescimento de massacres, limpezas étnicas e deslocações forçadas de populações numa escala nunca vista desde o final dos anos 1940 é outro tema recorrente, e que ilustra os inconvenientes trazidos pelo fim da Guerra Fria.

A estratégia do autor é a de encarar os fenómenos contemporâneos com olhos céticos informados pela história. Céticos num duplo sentido: porque a visão de Hobsbawm sobre a evolução do mundo é pessimista, e porque se trata de despir estes chavões da sua carga idealizada e fantasista. Há um capítulo (o terceiro) que discute as diferenças entre o imperialismo como classicamente concebido, no seu apogeu no século XIX, e a actual hegemonia norte-americana – é a parte mais interessante do livro, em que emerge o historiador do século XIX. Outros aspectos, porém, são apenas comentários algo banais à situação do mundo: não precisamos de um historiador para nos dizer que o sonho da exportação militar da democracia é perigoso, ou que a ameaça que o terrorismo islâmico coloca às sociedades ocidentais é relativamente pequena, comparada com os riscos do alarmismo. Concorde-se ou não com estas ideias, elas estão presentes no debate político, e Hobsbawm não acrescenta grande coisa ao que a esquerda geralmente diz sobre o assunto.

Além das saudades do século XX, há uma curiosa nota de conservadorismo moral. Hobsbawm sustenta que assistimos hoje a uma «reversão» do «processo de civilização» que Norbert Elias, num famoso livro de 1939, identificou como vindo desde a Idade Média: uma vasta transformação gradual dos padrões sociais relativos à sexualidade, à alimentação, à violência, à higiene íntima. (Até a forma abstracta como nos referimos a estas coisas demonstra a força da «civilização».) Tratou-se de impor «maneiras», etiqueta, regras de vergonha e de repugnância. Ora, para Hobsbawm, é tudo isto que está em causa com a actual «escalada da violência pública», que concebe em termos muito alargados, associando numa mesma análise fenómenos de violência social e de violência política, incluindo terrorismo, reabilitação da tortura, delinquência juvenil, quebra de regras tradicionais de respeito no interior da família e disseminação da linguagem obscena a todas as classes sociais, e mesmo às mulheres.

Nalguns aspectos deste diagnóstico de «reversão» do processo civilizacional, há um eco do «tudo o que é sagrado é profanado», que Karl Marx celebremente escreveu no Manifesto Comunista, referindo-se à forma como o capitalismo desintegra as velhas convenções sociais. Hobsbawm também faz uma articulação entre a evolução actual da globalização e o declínio do respeito; mas o que em Marx tinha uma tonalidade apesar de tudo positiva – o capitalismo era revolucionário, uma etapa na transição do obscurantismo para o progresso –, aqui não tem mais. Tendo-se perdido o destino último (o comunismo), estes fenómenos são vistos de maneira inteiramente negativa.

No conjunto, estes são ensaios políticos, mais opinativos do que históricos. São testemunho de uma cabeça que aos 90 anos mantém uma atenção assombrosa – e sem nenhum sectarismo ideológico – à bibliografia que vai saindo. A tradução é relativamente fluente, mas acontece tropeçar-se numa palavra absurda ou numa passagem ininteligível. Há erros graves, como chamar à doutrina militar americana «choque e terror», quando é evidente que na retórica antiterrorista «terror» seria sempre palavra banida (é «choque e pavor»). Há também erros divertidos: na p.36, Hobsbawm angustia-se por duas vezes com o destino da «corrida humana» e o perigo da sua extinção. Trata-se, como é evidente, de «human race», essa mesma espécie a que pertenço eu, você leitor e o tradutor do livro, mesmo que momentaneamente ele pareça ter sido tomado pelo espírito de um processador de texto.

domingo, fevereiro 10, 2008

O azulejo explica


O primeiro filme a sério de 2008 é o romeno 4 meses, três semanas e dois dias. Já só está no King (e no Corte Inglês na sessão das sete). Procurem vê-lo.

O filme é sobre o aborto ou sobre Ceasescu? O azulejo explica.

quinta-feira, janeiro 31, 2008

Actualidade política


Um ou outro jornalista tem a amabilidade de me telefonar a pedir que eu fale sobre o novo ministro da Cultura no plano pessoal – peculiaridades, idiossincracias, restaurantes onde gosta de almoçar, livros que lê. Mas há neste exercício uma dimensão sempre mítica, os livros e os filmes e as comidas que hão-de definir aquilo que a pessoa é. Ora, conheço demasiado bem a pessoa, realmente, para poder ter um discurso adequado ao exercício.

quinta-feira, janeiro 03, 2008

A minha passagem de ano

Muito generoso, inteligente e com grande sentido de humor. Basta dar uma volta pelos blogs para ver que toda a gente diz o mesmo sobre o Olímpio, e eu não sei acrescentar nada. Leiam, por exemplo, o José Mário Silva, que o encontrava nos mesmos sítios que eu.


Tive a notícia pelo jornal, duas ou três horas antes da mudança do ano, entre a crónica do Rui Tavares e o anúncio necrológico. Mesmo depois de os ler, demorou uma meia-hora até cair a ficha, perceber que o Olímpio era mesmo o Olímpio. Ao princípio, foi literalmente inconcebível; depois, admiti a ideia, e mais tarde ganhei coragem para falar dela. Houve uma coisa, no entanto, que ajudou a perceber que era ele mesmo: uma linha só, no anúncio do funeral, que sugeria ser ele, porque não se escrevem coisas assim para muita gente.
É banal dizer que é uma morte injusta. Neste caso, provavelmente só os que o tiverem conhecido saberão o que isto significa.

Stumbling and mumbling em Paranoid Park


Voltei a ver Paranoid Park, e ainda gostei mais à segunda. O filme assenta em grande medida sobre uma narração em voz-off, feita pelo protagonista. Acontece que o protagonista é adolescente e, como é comum entre os adolescentes, não tem uma dicção clara. Pelo contrário, as palavras tropeçam, numa mistura entrecortada de sons abruptos e murmúrios. Ler, de qualquer forma, é uma coisa difícil, e as pessoas comuns aprendem a ler bem relativamente tarde. Confiar a narração a um adolescente implica aceitar o risco destes stumbles and mubmles, desta coisa um pouco árida, às vezes um pouco estúpida. A estratégia de Gus van Sant foi levar essa opção até ao fim: na voz que nos apresenta a história e na própria história, que vai atrás e à frente, construindo-se sobre hiatos, à medida que o adolescente reconstrói o que se passou.

quarta-feira, janeiro 02, 2008

Dez filmes de 2007

(mas afinal são só cinco)


O filme do ano, e quase me apetecia dizer o único filme do ano, foi Tarantino. Ele faz aquilo que mais ninguém faz. Acção e efeitos especiais lowtech, diálogos sem conteúdo e uma perseguição automóvel final que dura vinte minutos. Foi o mais enjoyable, o mais extremo, o mais divertido; o mais inteligente, chocante e surpreendente também. Tenho a impressão de que começámos a vê-lo como uma diversão de que se conhecem as regras, e depois, passo a passo, as regras vão sendo quebradas, as fronteiras superadas e a gente pergunta-se até onde é que aquilo pode ir. Na sala onde eu estive, o final foi saudado com uma gargalhada: acho que não foi só humor; foi também um riso de tensão, adrenalina libertada. Não houve nada que se chegasse, em 2007, a este filme de duplos e perseguições de automóvel.



Mas Gus van Sant é também um autor muito peculiar. Talvez não se dê suficiente atenção a isso. Digo-o independentemente de se gostar mais de uns filmes do que de outros, e eu sem dúvida gostei muito de Elephant e de Paranoid Park e calhou nem sequer ter visto, por exemplo, Last Days ou Drugstore Cowboy. Em Abril deste ano, completamente por acaso, deparei-me, numa exposição na Cinemateca francesa, com um filme de quarenta minutos, de Alan Clarke, sobre a violência na Irlanda do Norte, realizado no final da década de oitenta. O filme chama-se «Elephant» e a primeira coisa em que se repara, quando se começa a olhar para ele, é que é o «Elephant» de Gus van Sant (de 2003). Van Sant transpôs, não uma história, mas uma maneira de filmar, uma sequência de planos, para um cenário diferente, para um massacre num liceu americano no final dos anos noventa. Este é também o autor que, dez anos atrás, filmou Psico de Hitchcock, repetindo-o, cena por cena. Há um pouco disto tudo em Paranoid Park, no génio de transpor a música de Nino Rota feita para os filmes de Fellini para o cenário de um crime de adolescentes numa pequena cidade dos EUA. Talvez Paranoid Park seja, como alguns dizem, demasiado parecido com Elephant: os planos, a circularidade da história, etc. Mas é, ainda assim, surpreendente e bonito. Óptimo cinema, óptimo cineasta: o segundo dos meus filmes do ano.

Climas, o turco, talvez pudesse, talvez merecesse, ficar em segundo lugar. É quase cinema mudo.


Clint Eastwood teve uma excelente ideia com os dois filmes sobre a batalha de Iwo Jima. Não desprezando o aspecto visual de Cartas de Iwo Jima, eu acho que o filme a sério é As Bandeiras dos Nossos Pais, em que o realizador trabalha material que conhece e um meio em que sabe mexer-se. Todos os momentos de flashback em Cartas são pavorosos, e toda a construção das personagens japonesas, do ponto de vista das motivações e da sua lógica, é de papelão e inverosímil, o que não acontece com os soldados americanos das Bandeiras. Gostei dos dois, mas o melhor é este.

A fechar a lista um filme francês, uma boa surpresa: lento, demorado
, Lady Chatterley mostra coisas quase impossíveis de filmar (a natureza, as borboletas, as flores, a chuva) e com dois grandes actores.

A minha lista de 2007 é então assim:
  1. Death Proof, de Quentin Tarantino





  2. Paranoid Park, de Gus Van Sant
  3. Climas, de Nuri Bilge Ceylan
  4. Flags of Our Fathers, de Clint Eastwood
  5. Lady Chatterley, de Pascale Ferran

2007 não dá para dez. Foi fraquinho.

Ainda assim, Torre Bela, o filme de Thomas Harlan sobre a ocupação de uma herdade no Ribatejo durante o PREC, caberia na lista se fosse um filme de 2007. Não é, embora tenha conhecido este ano uma espécie de estreia, com a exibição no cinema King. As razões para o incluir na lista seriam cinematográficas; a Medeia Filmes é que não fez justiça a isso, exibindo-o em cópia DVD, sem avisar os espectadores e sem reduzir o preço do bilhete (coisa que já vem sendo hábito).
Outro filme que podia estar na lista é Retour en Normandie, do realizador de Ser e Ter, em que Nicolas Philibert regressa, trinta anos depois, aos actores e aos lugares de Eu, Pierre Rivière, que degolei a minha mãe, a minha irmã e o meu irmão, feito em 1976 por René Allio, com o próprio Philibert como assistente. O filme não teve, nem terá, estreia comercial; vio-o no DocLisboa. Acho Philibert – um documentarista – um cineasta de mão-cheia, pela capacidade para filmar as pessoas e as ouvir. Se tivesse estreia comercial, seria sem dúvida um dos filmes do ano.
Menções honrosas ainda para As Cartas de Iwo Jima, pelas razões aduzidas, Il Caimano (que, não sendo do melhor Moretti, é ainda assim Moretti) e Rescue Dawn, de Werner Herzog, que é cinema para ver em ecrã grande. 2007 foi um dos raros anos em que, tendo-se estreado um filme de Woody Allen, ele não cabe em qualquer lista de melhores (escrevi sobre ele aqui).

Falhei Inland Empire, Half Nelson, Still Life, Luzes no Crepúsculo. Oxalá sejam filmes de caber na lista.

O pior do ano, a uma grande distância de asco, foi A Ponte, um pseudo-documentário que mostra pessoas a saltarem para a morte da Golden Gate Bridge, em São Francisco. Ficará registado na memória por não ter nenhum cinema, só voyeurismo, e ainda assim ter despertado encanto em pelo menos um dos críticos da nossa praça.
Menção
honrosa, já agora, para Babel, que também era uma valente porcaria, voyeurismo sobre pobres para revolta e consolo moral do primeiro mundo.

[Para comparar: as listas de 2004, 2005 e 2006.]