Segunda-feira, Maio 12, 2008

Estou encantado com a descoberta de Luiz Tatit. Fui mais que cético assistir ao show na Culturgest, onde aliás não enchíamos meia sala. Esperava um brasileiro meio erudito, meio chato, saiu-me uma espécie de versão paulistana do André Belo. Intelectual, sim (professor na USP), mas com letras muito engraçadas, muito irónicas, em melodias muito simples. Muitas vezes são estórias, com um narrador auto-irónico, e quase parecem música para crianças. Ele não canta, quase não canta, mas a gente acaba por se acostumar. O espectáculo foi um sucesso, e no final houve uma corrida aos cd's que se vendiam na entrada e esgotaram em dez minutos. Os cd's são bons; gosto sobretudo dos dois primeiros. Há tempo que não descobria um entusiasmo assim.

Parvoíces sem p

Assinalando o aniversário do blog de Pacheco Pereira, Vasco Graça Moura insurge-se contra a queda do "p" na palavra "abrupto"; no Ípsilon, João Bonifácio escreve "corruto" assim, e depois explica: "em homenagem ao país irmão optou-se por seguir o acordo [ortográfico]". Mas nem aqui nem no Brasil, nem antes nem depois da nova norma, "abrupto" ou "corrupto" se escrevem sem "p".

O acordo ortográfico tem um alcance frustrantemente modesto. Sobretudo do ponto de vista dos seus detractores.

Sábado, Maio 10, 2008

Working Class Menace


«I tell you, Frank: there's suddenly something rather menacing about the working class.» Paródia da série britânica Big Train a partir dos Pássaros de Hitchcock.

Sexta-feira, Maio 09, 2008

Dou-me ao trabalho de escrever estas coisas por imaginar um leitor ideal que seja instigado a ir ver o filme. Mas suspeito que o método do IMDB seja muito mais eficaz.

Plot keywords for California Dreamin' (Nesfarsit) (2007)
* Nudity
* American Dream
* Father Daughter Relationship
* Flashback Sequence
* Anti Americanism
* Title Based On Song
* Bureaucratism
* Train
* War
* Based On True Story
* Title Spoken By Character

Quinta-feira, Maio 08, 2008


Encontro de culturas


Cristian Nemescu tinha 27 anos, a 24 de Agosto de 2006, quando, estava ele a terminar o seu primeiro filme, se meteu num táxi com o técnico de som: tiveram um acidente e morreram os dois. Califórnia Dreamin’, que ainda está em exibição no King às sextas, sábados e segundas-feiras à meia-noite*, é por isso uma primeira e última obra, e quem a vir perceberá bem a tragédia. Tem marcas de primeiro filme e de filme inacabado; umas e outras não impedem que valha muito a pena vê-lo.
Durante o bombardeamento da NATO à Sérvia na primavera de 1999, um comboio leva armamento militar americano, atravessando a Roménia. Um chefe de estação zeloso de procedimentos burocráticos (e pouco simpatizante dos americanos) manda parar a composição numa pequena vila; obriga a cinco ou seis dias de encontro de culturas, choque de percepções recíprocas, entre os habitantes romenos e as tropas americanas.
O tom é irónico, um pouco melancólico, auto-irónico, mas com passagens líricas (a actriz, Maria Dinulescu, não se presta a menos). Para o ouvido português, neste, como noutros filmes romenos, não passarão desapercebidas as enormes afinidades da língua. Para o olho português, talvez não passem, também, as afinidades de paisagem. Há momentos em que dá vontade de geminar os dois países. Pelo meio da melancolia, há um tom entusiasmante nesta primeira (e última) obra, e os Mamas & Papas cantando Califórnia Dreamin’, sobre o genérico final, devem ter contribuído para a espécie de alegria com que eu saí do filme.

* e no Nimas às sete, todos os dias.

Segunda-feira, Maio 05, 2008

Neste sentido


Comprei um macbook e confirmo que é bonito, neste sentido: é um computador e não é feio.

Quarta-feira, Abril 30, 2008

Ressaca moral


(clicar para ler).

Quarta-feira, Abril 02, 2008

Delinqüente

Nunca pensei envolver-me numa troca de argumentos sobre o acordo ortográfico. Há pessoas muito mais qualificadas do que eu para escrever sobre isso. Mas, uma vez interpelado pelo Frazão, não posso deixar de dizer que acho os argumentos dele surpreendentemente fraquinhos. Que sem «c» em ação e sem «p» em perceção deixamos de saber abrir a vogal anterior? E «inflacionário», como o pronunciará o Frazão? Que, perdendo a referência à origem etimológica, ficamos com situações incongruentes, como «espectador» e «espetáculo»? Há quanto tempo escrevemos «quatro» e «catorze»? Parecendo que não, já se fizeram reformas ortográficas antes, incluindo coisas tão estranhas como a supressão dos acentos nos advérbios de modo – e, ainda assim, sabiamente, toda a gente consegue ler isto. Claro que esta reforma não é perfeita: se fosse a meu gosto, recolocava o trema em «agüentar» e «delinqüente» (que, no entanto, ninguém lê da mesma forma que «quente»). Por fim, o Frazão invoca «as árvores». Suponho que se refira a dicionários e gramáticas que precisam de ser revistos (o resto vai sendo adaptado, e há prazos para isso). Eu também me preocupo com as árvores. Por isso é que praticamente deixei de comprar o Público.

Oblivion's swallowing sea

Não se apoquentem se não perceberem o título. O que conta é o som. Pode ser que seja eu que li pouco, mas achei este parágrafo, com que abre o obituário do Economist da semana passada, sobre o último sobrevivente francês que combateu na I Guerra Mundial, digno do começo de um grande romance. Do resto do texto também gostei muito.

THE business of memory is a solid and solemn thing. Plaques are unveiled on the wall; stone memorials are built in the square; the domed mausoleum rises brick by brick over the city. But the business of memory is also as elusive as water or mist. The yellowing photographs slide to the back of the drawer; the voices fade; and the last rememberers of the dead die in their turn, leaving only what Thomas Hardy called “oblivion's swallowing sea”.
[Continua.]

Quarta-feira, Março 26, 2008

A selva

Não conheço em pormenor as disposições do acordo ortográfico, de modo que o meu texto, mais do que seguir uma norma, faz uma apropriação um tanto selvagem daquilo que me interessa. A minha brasilofilia é conhecida, e há tempo que eu deixei de usar «p» em ótimo, e retiro com gosto o «c» em fato. A minha mistura de português de Portugal com português do Brasil não é mais que uma pequena utopia pessoal. Mas simpatizo com o acordo: não, como diz o ministro, porque possamos passar a ter «uma língua unificada» (vocês dêem um desconto), mas na medida em que ele adapte algumas coisas que está na hora de serem adaptadas.
Ah: e eu não duvido por um segundo da superioridade do português do Brasil.

Terça-feira, Março 25, 2008

Honestos falsificadores


Por razões que superam o meu entendimento, a crítica portuguesa (dos jornais que leio, de que de fato são poucos) reagiu com frieza a Os Falsificadores, a fita austríaca que este ano ganhou o Óscar de melhor filme estrangeiro. Trata-se de um filme muito acima da média, a história de um grupo de judeus no campo de concentração que são identificados pelos seus carcereiros como especialmente hábeis na contrafação: são capazes de imitar perfeitamente as notas de libra inglesa, e podem constituir um auxílio muito útil ao esforço de guerra. Em contrapartida, gozam de um tratamento de relativo privilégio, comparado com os outros presos, e têm a sobrevivência mais ou menos garantida. O alcance deste compromisso não é pequeno: se os nazis fossem capazes de falsificar o dólar, isso constituiria para eles, em 1945, uma fonte vital de oxigénio. O filme, que é servido por um ótimo ator (Karl Markovics) no papel do protagonista, coloca-nos pois no centro de um dilema moral: como espectadores, identificamo-nos naturalmente com ele, e por isso desejamos que sobreviva; mas um outro personagem lembra-nos constantemente a implicação disto, em termos de colaboração numa empreitada radicalmente imoral, que inclui o extermínio dos outros judeus. Estamos portanto perante um filme sobre o nazismo e os campos que, longe de nos colocar na posição relativamente confortável de contemplar o mal a partir de fora (com desprezo, com pena, com comiseração), nos coloca numa posição de desconforto moral, de julgamento difícil, de conflito entre instintos emocionais (a empatia com o protagonista) e escolhas racionais (do domínio da abstração).
Que seja ainda possível fazer um filme sobre o nazismo que nos surpreenda, que conte uma história que quase não conhecíamos e nos obrigue a enfrentar o assunto sob um prisma que quase nunca fomos chamados a contemplar, já é bastante bom. Que isso seja servido por uma realização esteticamente «limpa», sem grandes artifícios ou truques sentimentais, e ainda bons atores, é razão mais que suficiente para chamar a atenção. Em Lisboa, Os Falsificadores já só está no Corte Inglês.

Terça-feira, Março 18, 2008

Lúcida

Um fim-de-semana em cheio para o Irmão Lúcia: um boneco, um teste e uma teoria política.

Sexta-feira, Março 14, 2008

The dismal science


O paper de Paul Krugman, de 1978, sobre a teoria do comércio intergalático é o género de texto que faz cócegas dentro da cabeça. «It should be noted that, while the subject of this paper is silly, the analysis actually does make sense. This paper, then, is a serious analysis of a ridiculous subject, which is of course the opposite of what is usual in economics.» É muito difícil lê-lo sem ter reação. [Obrigado à Mariana.]

Terça-feira, Março 11, 2008

Aleluia! Aleluia!


Ele vai estar em Portugal a 19 de Julho.

Quarta-feira, Março 05, 2008

A política do ui, que medo!

(um post a meias com o Filipe Nunes)


Era uma vez a Hillary Clinton, o Barack Obama e um português. A Hillary acusava o Obama de não saber responder em momentos de crise, de não ter experiência para reagir se o telefone tocasse às três da manhã, enquanto as crianças americanas dormem. O Obama contestava que a Hillary também não tinha muita experiência, e a experiência do marido dela não era a experiência dela. Foram, então, perguntar ao português. Ele respondeu assim:

"Eu lembro-me de uma vez um governador do Banco de Portugal me ter telefonado às duas horas da manhã, para casa, estava eu a dormir perfeitamente, tranquilamente, a dizer: "Mário, é uma desgraça, é uma desgraça, amanhã isto vai quebrar, porque nós passámos à linha vermelha e agora já não temos dinheiro para pagar. Se há uma corrida aos bancos é a bancarrota." E eu respondi-lhe: "Olhe, ó meu caro amigo, o senhor governador faça favor, para a próxima vez, não me acorde às duas da manhã, porque se é a bancarrota eu tenho de estar lúcido amanhã de manhã e, portanto, preciso de dormir agora. Deixe-me lá dormir." Bem, não houve bancarrota. Mas estivemos muito próximo, realmente."

Segunda-feira, Fevereiro 25, 2008


O video está cortado por metade, mas, de qualquer forma, acho que esta ainda é a minha favorita.

Domingo, Fevereiro 17, 2008

Ensaios céticos



[Texto publicado anteontem no suplemento Ípsilon do Público.]


Sobre Eric Hobsbawm, Globalização, democracia e terrorismo, traduzido por Miguel Romeira para a ed. Presença.


Eric J. Hobsbawm é indiscutivelmente um dos maiores historiadores vivos e deve muito desse estatuto a uma tríade de obras de referência sobre o século XIX – Era das Revoluções (1789-1848), Era do Capital (1848-1875) e Era do Império (1875-1914). Já parcialmente retirado da vida académica, escreveu depois um volume sobre o século XX, que obteve também um reconhecimento enorme. Chamou-se Era dos Extremos (1914-1991), mas, apesar do título enganador, não era de forma nenhuma comparável aos livros anteriores: tratava-se agora de um comentário à história do século XX feito por quem o viveu (Hobsbawm nasceu em 1917, a outra data de início do seu «breve século»), reconstruindo-o através de documentos, anotações e memórias, no que elas têm também de fragmentário e selectivo.

Na própria página que abre Era dos Extremos está sublinhado que ninguém pode contar a história do seu tempo como a de séculos passados, e que Hobsbawm não é, nunca foi, um historiador do século XX, mas um especialista no século XIX. Por mais que na bizarra tradução portuguesa a Era dos Extremos tenha tido como subtítulo «breve história do século XX» (trata-se do «breve século XX», e são 600 páginas), o livro não é pois nenhuma síntese, mas uma interpretação do tempo da própria vida. E, quando mais tarde Hobsbawm publicou a sua autobiografia (Tempos Interessantes), fez questão de notar que se tratava do «reverso» de Era dos Extremos. O livro sobre o século XX podia também ser lido como memória, e a autobiografia como uma introdução ao século: foi o próprio Hobsbawm quem o sugeriu.

Se começo por falar de outros livros, e não da colectânea de ensaios que agora tenho em mãos, é que creio que este volume deve ser interpretado no quadro da autobiografia alargada que Hobsbawm tem vindo a escrever nos seus anos de senectude. Os temas que estruturam esta compilação são actuais: «Globalização, democracia e terrorismo» remete para os três grandes chavões do discurso político contemporâneo. Mas o olhar sobre eles é marcado pela experiência e pela nostalgia do século XX. Há um fio que vem de Era dos Extremos e se prolonga, o sentimento de perda de um mundo organizado pela Guerra Fria (um sistema internacional «estável», «ordeiro», «previsível»), uma nostalgia dos anos gloriosos de 1945-1975, em que, enfrentado pela alternativa comunista do Leste, o capitalismo se socializou.

Um dos pilares desta transformação é o declínio do Estado, hoje muitas vezes incapaz de controlar o que se passa no seu interior. A enorme disseminação de armamento ligeiro, que se iniciou com a Guerra Fria e prosseguiu desordenadamente depois do seu fim, é várias vezes mencionada como pondo em causa a ordem estadual. Outro pilar consiste no declínio da disponibilidade dos cidadãos para obedecer – quer no plano mais quotidiano da disposição para cumprir a lei, quer no sentido mais ambicioso, de dar a vida em defesa da pátria. A generalidade dos Estados deixou, segundo o autor, de poder contar com os seus cidadãos para este fim. O recrudescimento de massacres, limpezas étnicas e deslocações forçadas de populações numa escala nunca vista desde o final dos anos 1940 é outro tema recorrente, e que ilustra os inconvenientes trazidos pelo fim da Guerra Fria.

A estratégia do autor é a de encarar os fenómenos contemporâneos com olhos céticos informados pela história. Céticos num duplo sentido: porque a visão de Hobsbawm sobre a evolução do mundo é pessimista, e porque se trata de despir estes chavões da sua carga idealizada e fantasista. Há um capítulo (o terceiro) que discute as diferenças entre o imperialismo como classicamente concebido, no seu apogeu no século XIX, e a actual hegemonia norte-americana – é a parte mais interessante do livro, em que emerge o historiador do século XIX. Outros aspectos, porém, são apenas comentários algo banais à situação do mundo: não precisamos de um historiador para nos dizer que o sonho da exportação militar da democracia é perigoso, ou que a ameaça que o terrorismo islâmico coloca às sociedades ocidentais é relativamente pequena, comparada com os riscos do alarmismo. Concorde-se ou não com estas ideias, elas estão presentes no debate político, e Hobsbawm não acrescenta grande coisa ao que a esquerda geralmente diz sobre o assunto.

Além das saudades do século XX, há uma curiosa nota de conservadorismo moral. Hobsbawm sustenta que assistimos hoje a uma «reversão» do «processo de civilização» que Norbert Elias, num famoso livro de 1939, identificou como vindo desde a Idade Média: uma vasta transformação gradual dos padrões sociais relativos à sexualidade, à alimentação, à violência, à higiene íntima. (Até a forma abstracta como nos referimos a estas coisas demonstra a força da «civilização».) Tratou-se de impor «maneiras», etiqueta, regras de vergonha e de repugnância. Ora, para Hobsbawm, é tudo isto que está em causa com a actual «escalada da violência pública», que concebe em termos muito alargados, associando numa mesma análise fenómenos de violência social e de violência política, incluindo terrorismo, reabilitação da tortura, delinquência juvenil, quebra de regras tradicionais de respeito no interior da família e disseminação da linguagem obscena a todas as classes sociais, e mesmo às mulheres.

Nalguns aspectos deste diagnóstico de «reversão» do processo civilizacional, há um eco do «tudo o que é sagrado é profanado», que Karl Marx celebremente escreveu no Manifesto Comunista, referindo-se à forma como o capitalismo desintegra as velhas convenções sociais. Hobsbawm também faz uma articulação entre a evolução actual da globalização e o declínio do respeito; mas o que em Marx tinha uma tonalidade apesar de tudo positiva – o capitalismo era revolucionário, uma etapa na transição do obscurantismo para o progresso –, aqui não tem mais. Tendo-se perdido o destino último (o comunismo), estes fenómenos são vistos de maneira inteiramente negativa.

No conjunto, estes são ensaios políticos, mais opinativos do que históricos. São testemunho de uma cabeça que aos 90 anos mantém uma atenção assombrosa – e sem nenhum sectarismo ideológico – à bibliografia que vai saindo. A tradução é relativamente fluente, mas acontece tropeçar-se numa palavra absurda ou numa passagem ininteligível. Há erros graves, como chamar à doutrina militar americana «choque e terror», quando é evidente que na retórica antiterrorista «terror» seria sempre palavra banida (é «choque e pavor»). Há também erros divertidos: na p.36, Hobsbawm angustia-se por duas vezes com o destino da «corrida humana» e o perigo da sua extinção. Trata-se, como é evidente, de «human race», essa mesma espécie a que pertenço eu, você leitor e o tradutor do livro, mesmo que momentaneamente ele pareça ter sido tomado pelo espírito de um processador de texto.

Domingo, Fevereiro 10, 2008

O azulejo explica


O primeiro filme a sério de 2008 é o romeno 4 meses, três semanas e dois dias. Já só está no King (e no Corte Inglês na sessão das sete). Procurem vê-lo.

O filme é sobre o aborto ou sobre Ceasescu? O azulejo explica.

Quinta-feira, Janeiro 31, 2008

Actualidade política


Um ou outro jornalista tem a amabilidade de me telefonar a pedir que eu fale sobre o novo ministro da Cultura no plano pessoal – peculiaridades, idiossincracias, restaurantes onde gosta de almoçar, livros que lê. Mas há neste exercício uma dimensão sempre mítica, os livros e os filmes e as comidas que hão-de definir aquilo que a pessoa é. Ora, conheço demasiado bem a pessoa, realmente, para poder ter um discurso adequado ao exercício.

Quinta-feira, Janeiro 03, 2008

A minha passagem de ano

Muito generoso, inteligente e com grande sentido de humor. Basta dar uma volta pelos blogs para ver que toda a gente diz o mesmo sobre o Olímpio, e eu não sei acrescentar nada. Leiam, por exemplo, o José Mário Silva, que o encontrava nos mesmos sítios que eu.


Tive a notícia pelo jornal, duas ou três horas antes da mudança do ano, entre a crónica do Rui Tavares e o anúncio necrológico. Mesmo depois de os ler, demorou uma meia-hora até cair a ficha, perceber que o Olímpio era mesmo o Olímpio. Ao princípio, foi literalmente inconcebível; depois, admiti a ideia, e mais tarde ganhei coragem para falar dela. Houve uma coisa, no entanto, que ajudou a perceber que era ele mesmo: uma linha só, no anúncio do funeral, que sugeria ser ele, porque não se escrevem coisas assim para muita gente.
É banal dizer que é uma morte injusta. Neste caso, provavelmente só os que o tiverem conhecido saberão o que isto significa.

Stumbling and mumbling em Paranoid Park


Voltei a ver Paranoid Park, e ainda gostei mais à segunda. O filme assenta em grande medida sobre uma narração em voz-off, feita pelo protagonista. Acontece que o protagonista é adolescente e, como é comum entre os adolescentes, não tem uma dicção clara. Pelo contrário, as palavras tropeçam, numa mistura entrecortada de sons abruptos e murmúrios. Ler, de qualquer forma, é uma coisa difícil, e as pessoas comuns aprendem a ler bem relativamente tarde. Confiar a narração a um adolescente implica aceitar o risco destes stumbles and mubmles, desta coisa um pouco árida, às vezes um pouco estúpida. A estratégia de Gus van Sant foi levar essa opção até ao fim: na voz que nos apresenta a história e na própria história, que vai atrás e à frente, construindo-se sobre hiatos, à medida que o adolescente reconstrói o que se passou.

Quarta-feira, Janeiro 02, 2008

Dez filmes de 2007

(mas afinal são só cinco)


O filme do ano, e quase me apetecia dizer o único filme do ano, foi Tarantino. Ele faz aquilo que mais ninguém faz. Acção e efeitos especiais lowtech, diálogos sem conteúdo e uma perseguição automóvel final que dura vinte minutos. Foi o mais enjoyable, o mais extremo, o mais divertido; o mais inteligente, chocante e surpreendente também. Tenho a impressão de que começámos a vê-lo como uma diversão de que se conhecem as regras, e depois, passo a passo, as regras vão sendo quebradas, as fronteiras superadas e a gente pergunta-se até onde é que aquilo pode ir. Na sala onde eu estive, o final foi saudado com uma gargalhada: acho que não foi só humor; foi também um riso de tensão, adrenalina libertada. Não houve nada que se chegasse, em 2007, a este filme de duplos e perseguições de automóvel.



Mas Gus van Sant é também um autor muito peculiar. Talvez não se dê suficiente atenção a isso. Digo-o independentemente de se gostar mais de uns filmes do que de outros, e eu sem dúvida gostei muito de Elephant e de Paranoid Park e calhou nem sequer ter visto, por exemplo, Last Days ou Drugstore Cowboy. Em Abril deste ano, completamente por acaso, deparei-me, numa exposição na Cinemateca francesa, com um filme de quarenta minutos, de Alan Clarke, sobre a violência na Irlanda do Norte, realizado no final da década de oitenta. O filme chama-se «Elephant» e a primeira coisa em que se repara, quando se começa a olhar para ele, é que é o «Elephant» de Gus van Sant (de 2003). Van Sant transpôs, não uma história, mas uma maneira de filmar, uma sequência de planos, para um cenário diferente, para um massacre num liceu americano no final dos anos noventa. Este é também o autor que, dez anos atrás, filmou Psico de Hitchcock, repetindo-o, cena por cena. Há um pouco disto tudo em Paranoid Park, no génio de transpor a música de Nino Rota feita para os filmes de Fellini para o cenário de um crime de adolescentes numa pequena cidade dos EUA. Talvez Paranoid Park seja, como alguns dizem, demasiado parecido com Elephant: os planos, a circularidade da história, etc. Mas é, ainda assim, surpreendente e bonito. Óptimo cinema, óptimo cineasta: o segundo dos meus filmes do ano.

Climas, o turco, talvez pudesse, talvez merecesse, ficar em segundo lugar. É quase cinema mudo.


Clint Eastwood teve uma excelente ideia com os dois filmes sobre a batalha de Iwo Jima. Não desprezando o aspecto visual de Cartas de Iwo Jima, eu acho que o filme a sério é As Bandeiras dos Nossos Pais, em que o realizador trabalha material que conhece e um meio em que sabe mexer-se. Todos os momentos de flashback em Cartas são pavorosos, e toda a construção das personagens japonesas, do ponto de vista das motivações e da sua lógica, é de papelão e inverosímil, o que não acontece com os soldados americanos das Bandeiras. Gostei dos dois, mas o melhor é este.

A fechar a lista um filme francês, uma boa surpresa: lento, demorado
, Lady Chatterley mostra coisas quase impossíveis de filmar (a natureza, as borboletas, as flores, a chuva) e com dois grandes actores.

A minha lista de 2007 é então assim:

  1. Death Proof, de Quentin Tarantino





  2. Paranoid Park, de Gus Van Sant
  3. Climas, de Nuri Bilge Ceylan
  4. Flags of Our Fathers, de Clint Eastwood
  5. Lady Chatterley, de Pascale Ferran

2007 não dá para dez. Foi fraquinho.

Ainda assim, Torre Bela, o filme de Thomas Harlan sobre a ocupação de uma herdade no Ribatejo durante o PREC, caberia na lista se fosse um filme de 2007. Não é, embora tenha conhecido este ano uma espécie de estreia, com a exibição no cinema King. As razões para o incluir na lista seriam cinematográficas; a Medeia Filmes é que não fez justiça a isso, exibindo-o em cópia DVD, sem avisar os espectadores e sem reduzir o preço do bilhete (coisa que já vem sendo hábito).
Outro filme que podia estar na lista é Retour en Normandie, do realizador de Ser e Ter, em que Nicolas Philibert regressa, trinta anos depois, aos actores e aos lugares de Eu, Pierre Rivière, que degolei a minha mãe, a minha irmã e o meu irmão, feito em 1976 por René Allio, com o próprio Philibert como assistente. O filme não teve, nem terá, estreia comercial; vio-o no DocLisboa. Acho Philibert – um documentarista – um cineasta de mão-cheia, pela capacidade para filmar as pessoas e as ouvir. Se tivesse estreia comercial, seria sem dúvida um dos filmes do ano.
Menções honrosas ainda para As Cartas de Iwo Jima, pelas razões aduzidas, Il Caimano (que, não sendo do melhor Moretti, é ainda assim Moretti) e Rescue Dawn, de Werner Herzog, que é cinema para ver em ecrã grande. 2007 foi um dos raros anos em que, tendo-se estreado um filme de Woody Allen, ele não cabe em qualquer lista de melhores (escrevi sobre ele aqui).

Falhei Inland Empire, Half Nelson, Still Life, Luzes no Crepúsculo. Oxalá sejam filmes de caber na lista.

O pior do ano, a uma grande distância de asco, foi A Ponte, um pseudo-documentário que mostra pessoas a saltarem para a morte da Golden Gate Bridge, em São Francisco. Ficará registado na memória por não ter nenhum cinema, só voyeurismo, e ainda assim ter despertado encanto em pelo menos um dos críticos da nossa praça.
Menção
honrosa, já agora, para Babel, que também era uma valente porcaria, voyeurismo sobre pobres para revolta e consolo moral do primeiro mundo.

[Para comparar: as listas de 2004, 2005 e 2006.]

Sábado, Dezembro 22, 2007

Theo e companhia


Pim Fortuyn (retrato de Jean Thomassen)

[Recensão publicada ontem no suplemento Ípsilon do Público.]

Sobre Ian Buruma, A morte de Theo van Gogh e os limites da tolerância, traduzido por Dalila Coutinho para a ed. Presença.


A 2 de Novembro de 2004, o cineasta Theo Van Gogh foi assassinado a tiro em pleno dia, no meio da rua, por Mohammed Bouyeri, um jovem de 26 anos, filho de imigrantes marroquinos. Depois de o matar, Bouyeri aproximou-se do corpo, rasgou-lhe a garganta com um punhal e deixou-lhe espetada no peito, com uma segunda faca, uma carta aberta com destino a Ayaan Hirsi Ali. Van Gogh e Ali, deputada nascida na Somália, tinham feito pouco tempo antes um pequeno filme de onze minutos, «Submissão», em que excertos do Corão apareciam projectados sobre a pele nua de várias mulheres. Tinham-se tornado nos mais notórios adversários da religião islâmica na Holanda.

O cineasta, a deputada e o homicida são três dos protagonistas deste livro; o quarto é Pim Fortuyn, político ostensivamente gay e ostensivamente anti-imigração, assassinado em 2002 no auge de uma carreira fulgurante que se havia iniciado apenas três anos antes. A morte de Pim Fortuyn, às mãos de um fanático dos direitos dos animais, era precisamente o tema do filme que Van Gogh estava a terminar quando foi morto. Mas as ligações entre Fortuyn e Van Gogh eram anteriores: cada um à sua maneira – um vaidoso da aparência cuidada e kitsch, o outro cultivador do desmazelo – eram dois provocadores que agitavam a «política do consenso» que dominara a Holanda na segunda metade do século XX. Ambos eram estridentes. Ambos eram anti-islâmicos, especialmente por causa da liberdade das mulheres e dos homossexuais. Ambos eram paradoxais. Fortuyn, que desprezava os imigrantes muçulmanos, gabava-se de ter tido relações sexuais com jovens marroquinos; e «fornicadores de cabras» não era, ainda assim, o insulto mais violento que Theo Van Gogh reservava aos praticantes da religião islâmica. Pim Fortuyn era, além disso, católico. Numa entrevista de 1999, afirmou: «Não quero cometer blasfémia, mas devo dizer que nos quartos escuros das discotecas para homens me vem à cabeça a atmosfera da liturgia católica. O quarto escuro que eu frequento em Roterdão não é totalmente escuro. É atravessado por uma luz velada, como numa catedral antiga. Há qualquer coisa de religioso em ter relações sexuais num lugar assim. (…) Um quarto escuro é decididamente excitante do ponto de vista erótico. Mais excitante do que uma igreja? Bem, não me ouvirão dizer isso. Achei bastante excitante ser rapazinho de coro» (p.49). Este é o homem que em 2004 seria eleito «o maior holandês de sempre» (como o nosso Oliveira Salazar) num concurso de televisão.

A morte de Theo van Goghé um livro de retratos: um ensaio no sentido mais preciso do termo, uma tentativa de aproximação. Fragmentário, construído sobre pequenas biografias, com enquadramento histórico e atenção ao estilo literário, não é um livro de tese. Discute questões políticas e filosóficas à medida da reportagem, mas não procura enformar aquilo que conta dentro de uma tese política muito definida: as reportagens nunca são meras «ilustrações» das ideias. Um dos grandes recursos de Buruma é a sua aptidão para pintar um retrato sociológico, para fazer uma caracterização traçando rapidamente um meio e uma genealogia. Mostra como o fenómeno Pim Fortuyn nasceu da crise da «política do consenso»; esboça o enquadramento ideológico e familiar de Theo van Gogh; descreve os «gastarbeiter» marroquinos – berberes, oriundos das montanhas remotas do Rif, não árabes – que emigraram para a Holanda e entre os quais nasceu Mohammed Bouyeri; conta o fascínio de Hirsi Ali com à sua chegada à Holanda, e a subsequente desilusão com uma sociedade que ela acha que cobardemente não enfrenta o extremismo islâmico. Este é também um livro atento à especificidade concreta de um país, e que foge a grandes proclamações sobre o Ocidente, o Islão, as «civilizações».

Buruma trata com nuances as recentes deslocações de fronteiras entre esquerda e direita sobre as questões do relativismo. Políticos conservadores reclamam-se dos valores do Iluminismo, mas esta linhagem é problemática. A iconoclastia que era característica dos pioneiros do Iluminismo – um Voltaire, tanto quanto um Marquês de Sade – não se encontra nos seus herdeiros recentes. «Os ícones sagrados da sociedade holandesa foram derrubados na década de 60 do século XX, tal como um pouco por todo o mundo ocidental, quando as igrejas perderam o controlo sobre as vidas das pessoas, quando a autoridade governamental era algo a desafiar, não a obedecer, quando os tabus sexuais eram rompidos em público e em privado, e quando – muito em linha com o Iluminismo original – as pessoas abriram os seus olhos e ouvidos a civilizações fora do Ocidente. (…) O apelo conservador aos valores do Iluminismo é, em parte, uma revolta contra uma revolta. Para muitos conservadores, a tolerância foi longe demais» (pp.32-33).

Ian Buruma é uma espécie de holandês. Nasceu em Haia em 1951, viveu lá até 1975, mas tem raízes cosmopolitas: de mãe inglesa, é sobrinho do cineasta John Schlesinger (o realizador de Cowboy da Meia-Noite ou O Homem da Maratona), com quem publicou recentemente um livro de entrevistas. Em jovem, viveu no Japão, país sobre o qual escreveu muito. Buruma é um escritor, mas não predominantemente de romances (tem apenas uma obra de ficção publicada); dá aulas numa universidade norte-americana, mas não é exactamente um académico. Escreve sobre uma grande variedade de temas, incluindo cinema, nos jornais mais famosos do mundo. A qualidade deste pequeno livro de Buruma está na hibridez do estilo – aquilo a que chamamos jornalismo.

Tudo isto merecia uma capa mais bonita e um título menos estrepitoso, uma subtileza mais literária, do que os da edição portuguesa. No original, uma pequena bicicleta caída sobre o fundo branco da capa evoca a bicicleta de Theo Van Gogh tombada na neve. O título – Murder in Amsterdam – é genérico e literário. Na versão portuguesa transforma-se num volume com ar descartável, colado à actualidade, de capa feia e título ligeiramente sensacionalista.

A tradução, não sendo má, precisaria de uma revisão que lhe limpasse alguns erros. Não lembra ao diabo traduzir filosofias «New Age» como «Nova Era» (p.85), mas o que é mesmo grave é confundir o Partido Nacional-Socialista Holandês (NSB, a formação nazi dos anos 1930 e 1940) com o Partido Socialista (p.67).

Segunda-feira, Dezembro 10, 2007

Qual foi o melhor livro que leu este ano?
Foi Assim, de Zita Seabra
Bilhete de Identidade, de Maria Filomena Monica
Eu, Carolina, de Carolina Salgado
pollcode.com free polls

Sexta-feira, Dezembro 07, 2007

Neil Jordan



Eu não gostei de Jogo de Lágrimas e também não gostei de A Estranha em Mim por aí além. Mas eu gostar ou não gostar interessa pouco. O que me parece é que A Estranha em Mim tem inscrito em letras grandes que é produto da mesma mão que fez Jogo de Lágrimas. São filmes não apenas cheios de implicações morais, mas de interpelações morais ao espectador. São filmes com uma tonalidade sentimental carregada (que é do que eu gosto menos, mas lhes é intrínseco). São ambos filmes violentos, intensos, cujo formato de base (se a memória não me falha quanto a Jogo de Lágrimas) é o thriller. São filmes em que os «inimigos» - os protagonistas, que se encontram em lados opostos de uma fronteira moral, que aliás lhes é vital - são inimigos íntimos: Terrence Howard e Jodie Foster, Stephen Rea e Forest Whitaker. (São filmes em que um dos protagonistas é preto.) O facto de serem protagonizados por inimigos íntimos intensifica e humaniza o conflito moral que está a desenrolar-se, porque os espectadores são colocados dos dois lados da fronteira: os próprios protagonistas são tão próximos um do outro que parecem poder mudar de lado (embora, insisto, abracem vitalmente o lado que é o seu).
E, enfim, também são filmes muito eficazes, bem feitos, dentro de uma concepção perfeitamente mainstream e hollywoodesca. A Estranha em Mim tem inclusivamente alguns achados narrativos, como colocar o polícia Terrence Howard sistematicamente atascado em engarrafamentos de trânsito.

Domingo, Novembro 25, 2007

Alvalade XXI


A sala de cinema Raj Mandir, em Jaipur, no Rajastão, com 1200 lugares, e um foyer que só visto

Talvez uma das razões para a exuberância e romantismo kitsch dos filmes de Bollywood seja que, na Índia, ir ao cinema ainda é uma actividade social e uma actividade de massas.
Ultimamente, uma grande parte dos filmes que estreiam por cá parecem sitcoms ou jogos de computador.

A juntar a todas as outras coisas boas que há no Estádio de Alvalade, o cinema tem agora uma «sala Bollywood».

Stanley Cavell

Sou a pessoa que eu conheço menos capaz de ver um filme em dvd do princípio ao fim. Deve ter alguma coisa que ver com isto:
One of the things about film is the gigantism of the images, which dwarf you, which infantilize you, which make you speechless.

Sexta-feira, Novembro 23, 2007

Apuramento para o Europeu


Não me apetece falar com ninguém que não tenha memória do Portugal-URSS de 1983, do mergulho de Chalana, de Dasaev, do penalti transformado pelo Jordão. Ao lado disso, tudo o que vivemos agora é ersatz, como diria o Pacheco Pereira.


Perhaps it is the cold nights of November drawing in, or possibly just a rank bad mood. But I ask: has there been anything so repellent in British cultural life as the new song and video by the Spice Girls? It is called “Headlines (Friendship Never Ends)”, a title that hints at the momentousness of the much heralded reunion of the five women after several years of moody estrangement.
To judge by the video, it is the kind of reunion I imagine when the former states of Yugoslavia get together to discuss mutual sewage needs. They slink into a dark room in slow motion and adopt a series of pouts and poses that would shame a $10 drag act. The two members of the group who consider themselves sufficiently thin to be attractive are semi-disrobed. The others remain shrouded and shadowy. None of them relates to any of their freshly reacquainted friends. The sophistication of digital trickery forces us to ask: are they in the same room?

Quinta-feira, Novembro 15, 2007

Ui! E como rimos!

A crónica das amenidades trocadas entre Ana Gomes e Miguel Portas nos corredores do Parlamento Europeu não tem a gentlemanship das aventuras de João Carlos Espada nos clubs de Oxford. Em contrapartida, há já nelas uma promessa de encanto plebeu que merece ser acarinhada:

Ontem, enquanto votavamos no plenário do PE, onde agora somos vizinhos, demarcando onde acaba o PSE e começa o GUE na nossa fila, o Miguel Portas avisou-me que se tinha “metido comigo” no blogue. Rimos quando lhe ripostei: “era o que tu querias, que eu te desse trela...”.

A graça! O chiste! Encore un effort!

Quarta-feira, Novembro 14, 2007

A biologia

«No caso do PCP, só a biologia impediu que tenha a mesma direcção de 1941.»
[Rui Ramos, na crónica de hoje no Público.]

Quarta-feira, Novembro 07, 2007

A linha

Tenho isto aqui há uma semana, à espera que alguém pergunte.
A 5ª frase completa da pág.161 do livro que tenho mais à mão.

«Internally, Germany has a good deal in common with a Socialist state.»


[O ensaio em questão é «The Lion and the Unicorn: Socialism and the English genius», de 1940. A Alemanha a que se refere é a Alemanha nazi].

Gostava de saber qual é o livro que neste preciso momento têm mais à mão Pedro Ornelas, Penélope Cruz, Quentin Tarantino, Medeiros Ferreira e Iga A. (esta vai sem link porque há crianças a ver).

R.I.P.

Quem quer que tenha uma afinidade, mesmo que remota, com o comunismo como ideologia não pode deixar de se sentir um pouco descorçoado ao ler o artigo que o suplemento P2 do Público hoje dedica à revolução de Outubro. Meia-dúzia de intelectuais (ou aparentados) emitem meia-dúzia de proclamações, nem sequer enfáticas, de pendor sentimental sobre o comunismo. A questão que me parece interessante realçar é que hoje em dia não existe em Portugal qualquer partido que tenha o marxismo por ideologia: não o BE, evidentemente (a frase de Miguel Portas com que o texto termina tem pelo menos a virtude de o deixar claro), nem o PCP. Para o PCP, nem mesmo essa ideologia degenerada a que se chamou marxismo-leninismo funciona mais como cartilha. Em certo sentido, são todos já pós-ideológicos, não sabem para onde estão a ir nem têm grandes coordenadas que ajudem a orientar o caminho. Suspeito que aqueles que há vinte anos disseram que o comunismo morria com a queda do Muro tivessem muita razão.

Sexta-feira, Outubro 19, 2007

O prestígio de Lisboa

Custam-me a perceber os ganhos associados ao facto de Lisboa ter um tratado com o seu nome, mesmo admitindo que o tratado seja «histórico» e duradouro. Alguém foi visitar Maastricht para descobrir o solo fértil do sonho europeu?
O que traz inegável prestígio ao país e à cidade é uma temperatura de 27 graus no fim de Outubro. Quem é o jornalista, burocrata ou dirigente europeu que sai daqui sem vontade de regressar para um fim-de-semana com a namorada?

Quinta-feira, Outubro 18, 2007

A invasão do Iraque

A Turquia prepara-se para invadir o Iraque. George W. Bush avisa que tal opção «não é do interesse da Turquia», «há maneiras melhores de lidar com o assunto do que o envio massivo de tropas para o Iraque». Durão Barroso insta as autoridades turcas «a procurarem uma solução pelo diálogo e no âmbito do Direito Internacional».
A história repete-se - primeiro como tragédia, depois como farsa, dizia Karl Marx. Como tragédia, sim. Mas isto é mais paródia do que farsa.

Segunda-feira, Outubro 15, 2007

Música de intervenção

Canto «odeio», «rocks» ou «homem» como antigamente cantava «o paz, o pão, a habitação».

Aquecimento global (2)

Talvez não seja «global warming», e sim «global warm up».