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quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Notícias da Índia

Na Índia, por estes dias, discute-se a possibilidade de que o adultério deixe de ser criminalmente punido.

«Trata-se de uma questão mentirosa», como já explicou M. R. D’souza. «Despenalização eu seria a favor, mas do que se trata é da liberalização do adultério. A partir de agora, a mulher ou o homem vão poder cometer adultério porque sim, sem terem de se justificar perante ninguém.» O economista J. C. Neves acrescentou que «ter um amante passará a ser um símbolo de status, tão normal como comprar um telemóvel novo». Grupos que se opõem à despenalização apresentaram estudos científicos que demonstram que o adultério é causa de graves perturbações psicológicas para os cônjuges, e que o parceiro ofendido sente dor. «Encornar por opção, sabendo que bate um coração?», pergunta um destes movimentos. O antigo ministro da Segurança Social Baghandas Felix acredita que a liberalização resultaria num aumento do número de divórcios, com o seu cortejo de efeitos negativos tanto ao nível psicológico como social, e para as crianças tanto quanto para os pais. Lembra ainda que a Índia é o país do mundo com maior número de pessoas consideradas «pobres» ou «extremamente pobres» segundo os critérios do Banco Mundial, e que o divórcio dos pais é, em todo o mundo, um dos principais factores propiciadores da pobreza das famílias. Estes factos, bem como o risco da propagação descontrolada da SIDA, estão a inquietar largos sectores da população indiana, que receiam as consequências negativas de uma liberalização do adultério. A Índia é, actualmente, o país com a mais alta taxa de crescimento de infectados por HIV em todo o mundo.

quinta-feira, dezembro 07, 2006

O preservativo está a um preço caríssimo

Bem sei que não vale a pena perder demasiado tempo com ele: Vasco Pulido Valente é Vasco Pulido Valente, nas suas qualidades e nos seus defeitos, e quem o lê não vai propriamente à procura do rigor no facto e no argumento. O maior trunfo do colunista (para além dos literários) é a originalidade; e este cronista em particular é capaz de viajar a galáxias distantes à procura disso. (Não foi ele quem anunciou ao mundo que a derrota dos republicanos nas eleições de Novembro nada teria que ver com o Iraque?) O texto do último sábado, que proclama:

«Por muito que doa a uma certa demagogia, materialmente, a questão do aborto acabou por se tornar numa questão residual. O uso dos contraceptivos (que não custam caro) e, sobretudo, a “pílula do dia seguinte” (venda livre a menos de quatro euros) fizeram do aborto o resultado da ignorância, da irresponsabilidade ou da má sorte.»

O Doutor Pulido Valente não tem, possivelmente, a menor ideia do preço dos preservativos: à unidade são mais caros do que o jornal onde escreve, o que é sem dúvida uma tremenda injustiça. Além disso, em muitas desafortunadas circunstâncias as pessoas nem sempre gastam apenas um para cada, digamos, «utilização»: há muito preservativo que se estraga. E por fim há ainda uma diferença – estatisticamente muito significativa – entre a eficácia «de laboratório» obtida pela borracha, e a sua eficácia real, na prática concreta das pessoas, que tem a ver com a forma como ele é utilizado.
O que me impressiona muito nos colunistas que se exprimem sobre o aborto é, frequentemente, a forma como minimizam a capacidade de espermatozóide e óvulo se juntarem apesar da vontade dos respectivos progenitores (suponho que se possa dizer assim). De nada adianta vilipendiar as pessoas pelas gravidezes indesejadas. A gravidez acidental é produto de muitas circunstâncias, desde a falta de informação, ao desleixo, à indisponibilidade de anticoncepcionais. Mas é também um facto da vida, da propensão natural do ser humano para o erro e para a falibilidade. Como escrevi outro dia, «acontece, e mais vezes do que se supõe, mesmo a cidadãos íntegros e conscienciosos, infalivelmente racionais, e prudentes até à cópula.»