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quarta-feira, julho 02, 2008

Um Sócrates


Federação Distrital de Castelo Branco do PS, em meados dos anos 80

Sobre Sócrates – O menino de ouro do PS, de Eduarda Maio (Esfera dos Livros, 365 pp., 25€).

[Publicado na Time Out de hoje.]

A subdirectora da Antena 1, Eduarda Maio, a quem o programa de televisão "O Juiz Decide" deu nos anos 90 uma relativa notoriedade, acaba de publicar uma biografia do actual primeiro-ministro. E não há duas maneiras de dizer isto: trata-se de um péssimo livro. Com esta biografia não se aprende nada de relevante sobre a carreira e a ascensão política de José Sócrates que não estivesse já nos jornais. A narrativa dos acontecimentos decisivos (a candidatura à liderança do PS, a maioria absoluta) não acrescenta dados novos. Se Sócrates, num ou noutro episódio, é alvo de ataques, Eduarda Maio não os investiga; aproveita apenas para realçar as qualidades que levaram o nosso Herói a resistir-lhes. "À firmeza do seu trabalho parlamentar, José Sócrates juntava agora o seu espírito. Gostava de quebrar a solenidade pardacenta das sessões, de remoçar o debate político salpicando-o de humor e sacudindo-lhe o excesso de sisudez e de monotonia" (p.211). O tom é "hagiográfico", disse Pacheco Pereira. Pior que isso: é parolo.

Há páginas e páginas de resumos de peças de propaganda, como artigos de jornal ou programas partidários; e passagens chatas e compridas como quem recita em versão alargada um curriculum vitae. A abordagem da autora consiste numa espécie de contemplação beata. Maio entrevistou alguns próximos de Sócrates, que lhe contaram como o nosso primeiro-ministro é um "bom amigo", um "menino de ouro", tem extraordinárias capacidades de trabalho e é um devoto dos livros. "«Quando ele teve que aumentar o IVA, nem dormiu na noite anterior», afirma Renato Sampaio" (p.311). Nem por uma vez a jornalista se lembra de investigar o que está realmente em jogo nessas amizades e inimizades políticas, o que as move, o que torna o nosso homem tão "persuasivo" – em suma, tudo aquilo que é propriamente a política. E nunca, sobre uma matéria controversa (a co-incineração, o caso da licenciatura, conflitos pessoais variados), dá voz aos críticos.

Seria possível escrever uma biografia interessante sobre o actual primeiro-ministro? É tentador pensar que os nossos actuais líderes, seguindo uma tendência que é sociológica e que não é portuguesa, não são propriamente personagens carismáticas, mas indivíduos formados nas máquinas partidárias, que (sejam quais forem outras qualidades que eventualmente tenham) não têm vidas aventurosas nem biografias emocionantes.

Tudo isso é certo, mas há ainda qualquer coisa de relevante nesse cinzentismo. Talvez José Sócrates, Filipe Menezes, Passos Coelho, não se prestem a histórias fascinantes; mas prestam-se, apesar de tudo, a uma história relevante da nossa democracia. Através da biografia de um deles poderíamos conhecer alguma coisa sobre os mecanismos que fazem de um indivíduo um caso de sucesso político nos dias de hoje: aquilo que realmente condiciona promoções e despromoções, alianças e zangas, numa época em que os confrontos ideológicos estão esbatidos. Mesmo sem fazer um julgamento sumário do regime, importava conhecer um pouco mais sobre o funcionamento interno dessas instituições cruciais da democracia que são os partidos políticos. Há uma biografia política que mereceria a pena ser escrita, sobre um homem banal num regime banal.

E – uma última nota – eu não detesto Sócrates pessoalmente, como figura. Suspeito até – suspeito apenas, porque a biografia de Maio não dá para mais – de que mesmo no plano pessoal haveria algo de interessante para contar na história de um José Sócrates. Aos sete anos de idade, viveu o divórcio litigioso dos pais, que se arrastou em tribunal por seis anos; e até aos 16 ficou afastado da mãe e dos seus dois irmãos. Folheando o livro, é difícil não reparar nas fotos de infância desta criança que nunca sorri; e que tem outras tragédias na sua vida familiar. Não estou a incitar ao voyeurismo, mas não seria relevante investigar a relação entre a criança das fotos e o político que, paradoxalmente, se tornou popular (pelo menos numa dada fase) por uma certa reserva e mesmo uma certa antipatia? Outros superam tristezas por uma extroversão exuberante e maníaca; não assim Sócrates. Mas, numa biografia de 350 páginas, de prosa redundante e rendilhada (e frequentemente ridícula), Maio não dedica uma linha a investigar como é que a criança que depois foi primeiro-ministro atravessou tudo isto.

domingo, fevereiro 17, 2008

Ensaios céticos



[Texto publicado anteontem no suplemento Ípsilon do Público.]


Sobre Eric Hobsbawm, Globalização, democracia e terrorismo, traduzido por Miguel Romeira para a ed. Presença.


Eric J. Hobsbawm é indiscutivelmente um dos maiores historiadores vivos e deve muito desse estatuto a uma tríade de obras de referência sobre o século XIX – Era das Revoluções (1789-1848), Era do Capital (1848-1875) e Era do Império (1875-1914). Já parcialmente retirado da vida académica, escreveu depois um volume sobre o século XX, que obteve também um reconhecimento enorme. Chamou-se Era dos Extremos (1914-1991), mas, apesar do título enganador, não era de forma nenhuma comparável aos livros anteriores: tratava-se agora de um comentário à história do século XX feito por quem o viveu (Hobsbawm nasceu em 1917, a outra data de início do seu «breve século»), reconstruindo-o através de documentos, anotações e memórias, no que elas têm também de fragmentário e selectivo.

Na própria página que abre Era dos Extremos está sublinhado que ninguém pode contar a história do seu tempo como a de séculos passados, e que Hobsbawm não é, nunca foi, um historiador do século XX, mas um especialista no século XIX. Por mais que na bizarra tradução portuguesa a Era dos Extremos tenha tido como subtítulo «breve história do século XX» (trata-se do «breve século XX», e são 600 páginas), o livro não é pois nenhuma síntese, mas uma interpretação do tempo da própria vida. E, quando mais tarde Hobsbawm publicou a sua autobiografia (Tempos Interessantes), fez questão de notar que se tratava do «reverso» de Era dos Extremos. O livro sobre o século XX podia também ser lido como memória, e a autobiografia como uma introdução ao século: foi o próprio Hobsbawm quem o sugeriu.

Se começo por falar de outros livros, e não da colectânea de ensaios que agora tenho em mãos, é que creio que este volume deve ser interpretado no quadro da autobiografia alargada que Hobsbawm tem vindo a escrever nos seus anos de senectude. Os temas que estruturam esta compilação são actuais: «Globalização, democracia e terrorismo» remete para os três grandes chavões do discurso político contemporâneo. Mas o olhar sobre eles é marcado pela experiência e pela nostalgia do século XX. Há um fio que vem de Era dos Extremos e se prolonga, o sentimento de perda de um mundo organizado pela Guerra Fria (um sistema internacional «estável», «ordeiro», «previsível»), uma nostalgia dos anos gloriosos de 1945-1975, em que, enfrentado pela alternativa comunista do Leste, o capitalismo se socializou.

Um dos pilares desta transformação é o declínio do Estado, hoje muitas vezes incapaz de controlar o que se passa no seu interior. A enorme disseminação de armamento ligeiro, que se iniciou com a Guerra Fria e prosseguiu desordenadamente depois do seu fim, é várias vezes mencionada como pondo em causa a ordem estadual. Outro pilar consiste no declínio da disponibilidade dos cidadãos para obedecer – quer no plano mais quotidiano da disposição para cumprir a lei, quer no sentido mais ambicioso, de dar a vida em defesa da pátria. A generalidade dos Estados deixou, segundo o autor, de poder contar com os seus cidadãos para este fim. O recrudescimento de massacres, limpezas étnicas e deslocações forçadas de populações numa escala nunca vista desde o final dos anos 1940 é outro tema recorrente, e que ilustra os inconvenientes trazidos pelo fim da Guerra Fria.

A estratégia do autor é a de encarar os fenómenos contemporâneos com olhos céticos informados pela história. Céticos num duplo sentido: porque a visão de Hobsbawm sobre a evolução do mundo é pessimista, e porque se trata de despir estes chavões da sua carga idealizada e fantasista. Há um capítulo (o terceiro) que discute as diferenças entre o imperialismo como classicamente concebido, no seu apogeu no século XIX, e a actual hegemonia norte-americana – é a parte mais interessante do livro, em que emerge o historiador do século XIX. Outros aspectos, porém, são apenas comentários algo banais à situação do mundo: não precisamos de um historiador para nos dizer que o sonho da exportação militar da democracia é perigoso, ou que a ameaça que o terrorismo islâmico coloca às sociedades ocidentais é relativamente pequena, comparada com os riscos do alarmismo. Concorde-se ou não com estas ideias, elas estão presentes no debate político, e Hobsbawm não acrescenta grande coisa ao que a esquerda geralmente diz sobre o assunto.

Além das saudades do século XX, há uma curiosa nota de conservadorismo moral. Hobsbawm sustenta que assistimos hoje a uma «reversão» do «processo de civilização» que Norbert Elias, num famoso livro de 1939, identificou como vindo desde a Idade Média: uma vasta transformação gradual dos padrões sociais relativos à sexualidade, à alimentação, à violência, à higiene íntima. (Até a forma abstracta como nos referimos a estas coisas demonstra a força da «civilização».) Tratou-se de impor «maneiras», etiqueta, regras de vergonha e de repugnância. Ora, para Hobsbawm, é tudo isto que está em causa com a actual «escalada da violência pública», que concebe em termos muito alargados, associando numa mesma análise fenómenos de violência social e de violência política, incluindo terrorismo, reabilitação da tortura, delinquência juvenil, quebra de regras tradicionais de respeito no interior da família e disseminação da linguagem obscena a todas as classes sociais, e mesmo às mulheres.

Nalguns aspectos deste diagnóstico de «reversão» do processo civilizacional, há um eco do «tudo o que é sagrado é profanado», que Karl Marx celebremente escreveu no Manifesto Comunista, referindo-se à forma como o capitalismo desintegra as velhas convenções sociais. Hobsbawm também faz uma articulação entre a evolução actual da globalização e o declínio do respeito; mas o que em Marx tinha uma tonalidade apesar de tudo positiva – o capitalismo era revolucionário, uma etapa na transição do obscurantismo para o progresso –, aqui não tem mais. Tendo-se perdido o destino último (o comunismo), estes fenómenos são vistos de maneira inteiramente negativa.

No conjunto, estes são ensaios políticos, mais opinativos do que históricos. São testemunho de uma cabeça que aos 90 anos mantém uma atenção assombrosa – e sem nenhum sectarismo ideológico – à bibliografia que vai saindo. A tradução é relativamente fluente, mas acontece tropeçar-se numa palavra absurda ou numa passagem ininteligível. Há erros graves, como chamar à doutrina militar americana «choque e terror», quando é evidente que na retórica antiterrorista «terror» seria sempre palavra banida (é «choque e pavor»). Há também erros divertidos: na p.36, Hobsbawm angustia-se por duas vezes com o destino da «corrida humana» e o perigo da sua extinção. Trata-se, como é evidente, de «human race», essa mesma espécie a que pertenço eu, você leitor e o tradutor do livro, mesmo que momentaneamente ele pareça ter sido tomado pelo espírito de um processador de texto.

sábado, dezembro 22, 2007

Theo e companhia


Pim Fortuyn (retrato de Jean Thomassen)

[Recensão publicada ontem no suplemento Ípsilon do Público.]

Sobre Ian Buruma, A morte de Theo van Gogh e os limites da tolerância, traduzido por Dalila Coutinho para a ed. Presença.


A 2 de Novembro de 2004, o cineasta Theo Van Gogh foi assassinado a tiro em pleno dia, no meio da rua, por Mohammed Bouyeri, um jovem de 26 anos, filho de imigrantes marroquinos. Depois de o matar, Bouyeri aproximou-se do corpo, rasgou-lhe a garganta com um punhal e deixou-lhe espetada no peito, com uma segunda faca, uma carta aberta com destino a Ayaan Hirsi Ali. Van Gogh e Ali, deputada nascida na Somália, tinham feito pouco tempo antes um pequeno filme de onze minutos, «Submissão», em que excertos do Corão apareciam projectados sobre a pele nua de várias mulheres. Tinham-se tornado nos mais notórios adversários da religião islâmica na Holanda.

O cineasta, a deputada e o homicida são três dos protagonistas deste livro; o quarto é Pim Fortuyn, político ostensivamente gay e ostensivamente anti-imigração, assassinado em 2002 no auge de uma carreira fulgurante que se havia iniciado apenas três anos antes. A morte de Pim Fortuyn, às mãos de um fanático dos direitos dos animais, era precisamente o tema do filme que Van Gogh estava a terminar quando foi morto. Mas as ligações entre Fortuyn e Van Gogh eram anteriores: cada um à sua maneira – um vaidoso da aparência cuidada e kitsch, o outro cultivador do desmazelo – eram dois provocadores que agitavam a «política do consenso» que dominara a Holanda na segunda metade do século XX. Ambos eram estridentes. Ambos eram anti-islâmicos, especialmente por causa da liberdade das mulheres e dos homossexuais. Ambos eram paradoxais. Fortuyn, que desprezava os imigrantes muçulmanos, gabava-se de ter tido relações sexuais com jovens marroquinos; e «fornicadores de cabras» não era, ainda assim, o insulto mais violento que Theo Van Gogh reservava aos praticantes da religião islâmica. Pim Fortuyn era, além disso, católico. Numa entrevista de 1999, afirmou: «Não quero cometer blasfémia, mas devo dizer que nos quartos escuros das discotecas para homens me vem à cabeça a atmosfera da liturgia católica. O quarto escuro que eu frequento em Roterdão não é totalmente escuro. É atravessado por uma luz velada, como numa catedral antiga. Há qualquer coisa de religioso em ter relações sexuais num lugar assim. (…) Um quarto escuro é decididamente excitante do ponto de vista erótico. Mais excitante do que uma igreja? Bem, não me ouvirão dizer isso. Achei bastante excitante ser rapazinho de coro» (p.49). Este é o homem que em 2004 seria eleito «o maior holandês de sempre» (como o nosso Oliveira Salazar) num concurso de televisão.

A morte de Theo van Goghé um livro de retratos: um ensaio no sentido mais preciso do termo, uma tentativa de aproximação. Fragmentário, construído sobre pequenas biografias, com enquadramento histórico e atenção ao estilo literário, não é um livro de tese. Discute questões políticas e filosóficas à medida da reportagem, mas não procura enformar aquilo que conta dentro de uma tese política muito definida: as reportagens nunca são meras «ilustrações» das ideias. Um dos grandes recursos de Buruma é a sua aptidão para pintar um retrato sociológico, para fazer uma caracterização traçando rapidamente um meio e uma genealogia. Mostra como o fenómeno Pim Fortuyn nasceu da crise da «política do consenso»; esboça o enquadramento ideológico e familiar de Theo van Gogh; descreve os «gastarbeiter» marroquinos – berberes, oriundos das montanhas remotas do Rif, não árabes – que emigraram para a Holanda e entre os quais nasceu Mohammed Bouyeri; conta o fascínio de Hirsi Ali com à sua chegada à Holanda, e a subsequente desilusão com uma sociedade que ela acha que cobardemente não enfrenta o extremismo islâmico. Este é também um livro atento à especificidade concreta de um país, e que foge a grandes proclamações sobre o Ocidente, o Islão, as «civilizações».

Buruma trata com nuances as recentes deslocações de fronteiras entre esquerda e direita sobre as questões do relativismo. Políticos conservadores reclamam-se dos valores do Iluminismo, mas esta linhagem é problemática. A iconoclastia que era característica dos pioneiros do Iluminismo – um Voltaire, tanto quanto um Marquês de Sade – não se encontra nos seus herdeiros recentes. «Os ícones sagrados da sociedade holandesa foram derrubados na década de 60 do século XX, tal como um pouco por todo o mundo ocidental, quando as igrejas perderam o controlo sobre as vidas das pessoas, quando a autoridade governamental era algo a desafiar, não a obedecer, quando os tabus sexuais eram rompidos em público e em privado, e quando – muito em linha com o Iluminismo original – as pessoas abriram os seus olhos e ouvidos a civilizações fora do Ocidente. (…) O apelo conservador aos valores do Iluminismo é, em parte, uma revolta contra uma revolta. Para muitos conservadores, a tolerância foi longe demais» (pp.32-33).

Ian Buruma é uma espécie de holandês. Nasceu em Haia em 1951, viveu lá até 1975, mas tem raízes cosmopolitas: de mãe inglesa, é sobrinho do cineasta John Schlesinger (o realizador de Cowboy da Meia-Noite ou O Homem da Maratona), com quem publicou recentemente um livro de entrevistas. Em jovem, viveu no Japão, país sobre o qual escreveu muito. Buruma é um escritor, mas não predominantemente de romances (tem apenas uma obra de ficção publicada); dá aulas numa universidade norte-americana, mas não é exactamente um académico. Escreve sobre uma grande variedade de temas, incluindo cinema, nos jornais mais famosos do mundo. A qualidade deste pequeno livro de Buruma está na hibridez do estilo – aquilo a que chamamos jornalismo.

Tudo isto merecia uma capa mais bonita e um título menos estrepitoso, uma subtileza mais literária, do que os da edição portuguesa. No original, uma pequena bicicleta caída sobre o fundo branco da capa evoca a bicicleta de Theo Van Gogh tombada na neve. O título – Murder in Amsterdam – é genérico e literário. Na versão portuguesa transforma-se num volume com ar descartável, colado à actualidade, de capa feia e título ligeiramente sensacionalista.

A tradução, não sendo má, precisaria de uma revisão que lhe limpasse alguns erros. Não lembra ao diabo traduzir filosofias «New Age» como «Nova Era» (p.85), mas o que é mesmo grave é confundir o Partido Nacional-Socialista Holandês (NSB, a formação nazi dos anos 1930 e 1940) com o Partido Socialista (p.67).

quarta-feira, novembro 07, 2007

A linha

Tenho isto aqui há uma semana, à espera que alguém pergunte.
A 5ª frase completa da pág.161 do livro que tenho mais à mão.

«Internally, Germany has a good deal in common with a Socialist state.»


[O ensaio em questão é «The Lion and the Unicorn: Socialism and the English genius», de 1940. A Alemanha a que se refere é a Alemanha nazi].

Gostava de saber qual é o livro que neste preciso momento têm mais à mão Pedro Ornelas, Penélope Cruz, Quentin Tarantino, Medeiros Ferreira e Iga A. (esta vai sem link porque há crianças a ver).

terça-feira, outubro 02, 2007

Foi assim. Quer dizer, mais ou menos


Também eu já li o Harry Potter português, o livro que arrasou as tabelas de vendas deste Verão. E, francamente, gostei: da descrição da vida na clandestinidade, de ficar a saber que Hitchcock era o cineasta preferido de Cunhal e das observações da primeira visita à URSS (pp.326-335), que mostram que mesmo Zita Seabra é capaz de escrever notas de viagem mais interessantes que as de Gonçalo Cadilhe. Pessoas que conhecem detalhes do período têm ficado furiosas com as imprecisões e falsidades que Zita Seabra comete; mas custa-me a crer que as pessoas que conhecem detalhes do período não conhecessem Zita. Claro que ela não é escrupulosa, nem é subtil. (Mas não é parva. Já lá vamos.)
Alguns erros factuais são evidentes, mesmo para quem não saiba nada dos meandros da história. Num país onde existissem editores (parece que Zita Seabra é a sua própria editora), ter-se-iam evitado muitas repetições e passagens mais grosseiras. Por exemplo, na p.356 Marx «retoma» no Manifesto Comunista (de 1848) os argumentos de Engels na Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, que é de 1884, quando Marx já residia no cemitério de Highgate. Na p.345, Cunhal é acusado de ser malévolo na escolha de Carlos Brito (em 1980) e Ângelo Veloso (em 1986) para candidatos presidenciais do PCP, no intuito de mais tarde, caso «fosse necessário», os culpar pelos maus resultados; mas até eu me lembro de que as candidaturas de Brito e Veloso nunca foram a votos, nem estiveram para ir.
Pareceu-me judiciosa, e sibilina, a analogia feita por Carlos Gaspar na contracapa: «Zita Seabra é como a França para Tocqueville: pode ser, à vez, objecto de admiração, de ódio, de piedade e de terror, mas nunca de indiferença.» Há ironia, certamente, em comparar Zita Seabra com a Revolução Francesa. Mas é uma forma polida de lá introduzir as palavras que interessam – o ódio, a admiração, talvez até a piedade. Zita Seabra suscita muitos ódios, mas dificilmente suscita desprezo. Foi Assim (isto é: mais ou menos assim) é um testemunho em certa medida autêntico sobre os últimos anos da ditadura, o PCP, Álvaro Cunhal, «a transição democrática». Alguma coisa se aprende vendo como funciona a cabeça desta personalidade, cuja determinação e coragem, pelo menos, são inquestionáveis.

sexta-feira, julho 06, 2007

Nem tudo é doce no maquiavelismo

[publicado no Monde Diplomatique – edição portuguesa, de Julho.]

Álvaro Cunhal e a dissidência da terceira via

Raimundo Narciso

Ed. Âmbar, Porto, 2007, 197 pp.

Quase duas décadas passadas, Raimundo Narciso conta a história do grupo que dissidiu do PCP em 1988-1991: é essa a «terceira via» a que o título se refere – confusamente, uma vez que, a partir de meados da década de noventa, Tony Blair popularizou a mesma designação num sentido totalmente distinto. O livro acrescenta alguma coisa do ponto de vista do detalhe histórico: a passagem mais viva é aquela em que Raimundo Narciso se descobre perseguido por espiões do próprio partido, numa noite de 1988, enquanto se dirigia a uma reunião «fraccionista». No que o livro é manifestamente insatisfatório é no plano da reflexão política. Por um lado (tal como o próprio grupo), apresenta a dissidência como tendo motivações «procedimentais» (falta de democracia interna, etc); mas, enquanto esteve de acordo com a linha política, Narciso (como ele próprio, honestamente, anota) nunca se incomodou com os procedimentos. Já quanto às razões políticas de fundo, elas são apresentadas sob a forma de uma desadequação da linha do partido à «realidade», evidência demonstrada na incompatibilidade com a «perestroika» (que dominava a URSS neste período, e até à sua extinção) e pela incapacidade do PCP, em Portugal, para influenciar directamente a esfera do poder político.
Sobre a cabeça dos militantes então «críticos» (depois dissidentes) pairava a acusação de aproximação ao PS – acusação que, no universo do PCP, se reveste de conotações que chegam a ser mais morais que políticas. O fantasma ainda paira sobre o livro, até porque Raimundo Narciso e outros (Pina Moura, Mário Lino, José Luís Judas, o falecido Barros Moura) efectivamente aderiram ao PS ao longo dos anos seguintes. Mas a resposta de Narciso é hoje a que era naquele tempo: que se trata de um processo de intenções, que o projecto não existia, etc. Em certa medida, tudo continua a colocar-se em termos de intenção, de dolo, de culpa. O que escapa ao seu discurso (como já então escapava) é saber que projecto político tinham os «críticos» que não fosse – rigorosamente – o mesmo que o PS já prosseguia. Que linha política propunham para o PCP que não fosse a adesão ao PS? Sobre esta questão o texto é omisso; e, se ela se punha na época, a passagem do tempo não fez senão reforçá-la. O que queriam os «críticos»? O que queria, ao menos, Raimundo Narciso?

Salva-se do livro a honestidade (às vezes, impressionante) do testemunho, o depoimento sobre a experiência da ruptura após uma vida de sacrifício pessoal (sacrifício que, com assinalável modéstia, Narciso nunca enfatiza), a documentação de alguns episódios e o sentido de humor.

«A análise da situação política trouxe as novidades do costume. A situação da economia piorou, a vida dos trabalhadores agravou-se, o isolamento do Governo cresceu e as análises políticas de Cunhal, ou do partido, confirmavam-se inteiramente como se ‘previra e prevenira’. Salvo nuances e as circunstâncias de cada momento a análise era esta desde que o PCP deixou de participar no Governo em 1976 e estava ‘correctíssima’. A situação económica do país, de acordo com as análises de Cunhal e Carlos Costa, baseadas no trabalho da Comissão de Actividades Económicas que Carlos Carvalhas condimentava ao gosto do sexto andar [direcção] antes de lhas transmitir, piorava sempre, sempre, dia após dia, mês após mês, ano após ano, sem intervalo, nem fôlego. Abismávamo-nos com os abismos em que já estaria o país, felizmente sem que os Portugueses tivessem dado por isso.» [p.81]

Não se salva a qualidade da edição – mal revista, mal pontuada, com fotografias de péssima impressão, e isto num livro que traz vinte euros como preço de capa. Lido com atenção, transpira nele uma certa ambivalência de Raimundo Narciso sobre os métodos de Cunhal e do PCP, entre a rejeição e a simpatia por uma certa eficácia, um certo maquiavelismo. Hélas, na ausência de uma linha política, a eficácia é sempre o único critério que resta.

segunda-feira, junho 18, 2007

Uma forma de batota

Duas ou três semanas atrás, eu comprei o Público, como faço aos sábados e apenas aos sábados. Mas, nesse dia, o artigo mais interessante não era a crónica do Mexia nem o texto do Pacheco Pereira, como costuma ser, e sim uma entrevista no P2 com um psicólogo de Harvard sobre o mais improvável dos assuntos: a felicidade. Dava-se a circunstância de nessa mesma semana o dito psicólogo (Daniel Gilbert) vir a Lisboa, à Culturgest, falar sobre o tema, no âmbito de um seminário sobre A busca da felicidade. Registei na agenda.

E foi, de facto, um excelente seminário, bem organizado, com uma série de oradores de topo na matéria em questão. A conferência de Daniel Gilbert foi, muito simplesmente, a conferência mais estimulante, divertida, entretinente a que eu alguma vez assisti: uma hora como se fosse um concerto de música pop, e realmente havia qualquer coisa de pop na personagem. O livro, que encomendei na amazon, chegou hoje. Li até agora apenas o prefácio: todas as frases são divertidas, o que por outro lado, de certa maneira, até aborrece. Sinto-me incapaz de elaborar juízos críticos, literalmente subornado pelo sentido de humor.

Também já está à venda na fnac, no original, e até com uma tradução portuguesa.

segunda-feira, junho 11, 2007

Difícil amar a pátria

Numa das primeiras cenas de Zodiac, um policial neste momento em exibição nos cinemas, um personagem grita, segundo as legendas da versão portuguesa: «Fodão-se e morram!»

Em 1982, o historiador britânico Antony Beevor publicou uma História da Guerra Civil de Espanha, que teve tradução em português. Posteriormente, o mesmo autor publicou vários livros de história sobre batalhas decisivas da II Guerra Mundial, designadamente Estalinegrado e a queda de Berlim, que estão ambas traduzidas em Portugal. No ano passado, Beevor refez, com base no conhecimento hoje disponível dos arquivos soviéticos, a sua História da Guerra Civil de Espanha, que em consequência praticamente duplicou de tamanho. Esta obra foi considerada um dos livros do ano por diversas publicações internacionais. Aproveitando a ocasião, e o prestígio grangeado no mercado nacional pelos livros sobre Estalinegrado e Berlim, o editor português resolveu republicar a edição de 1982, sem nenhuma espécie de esclarecimento e sem nenhuma melhoria na tradução - ao que me dizem, péssima. Esta é portanto a única versão disponível em português, que é vendida, por um balúrdio, como se fosse nova. Podemos sempre ler a tradução espanhola (ao que se diz excelente) da edição refeita. Assim farei.

O livro de Raimundo Narciso sobre a dissidência do PCP em 1988-91, publicado pela Âmbar, é uma obra curta, dividida em três partes (contexto-crise-epílogo), a última das quais ocupa um total de dez páginas. O livro tem os seus méritos, de que falarei noutra altura, mas é também uma floresta desordenada de vírgulas, que só se consegue ler com esforço. Está ilustrado por várias fotografias, todas a preto e branco e todas, sem excepção nem para a capa, muitíssimo mal impressas. Está ao dispor nas livrarias contra a módica quantia de 20 (vinte) euros.

domingo, junho 03, 2007

Como falar de livros sem os ler

[ou: Como não falar de livros sem os ler?]



O pacote de dezassete livros expedidos de Deli a 10 de Fevereiro, por mar (mas o mar não é em Deli), ao preço da chuva, chegou finalmente. No geral, em bom estado. A outros, aconselho que metam os livros num pacote de cartão, e não em sacos de plástico; o resultado será melhor. Por sobre o plástico, a embalagem de pano foi cosida à mão por um funcionário dos correios de Deli, e revelou-se bastante resistente. O trajecto que estes livros terão feito dava uma boa história: é olhar para o mapa e começar a imaginar. Livros sobre a Índia (os Naipaul, dois romances do Rushdie, Dalrymple, etc.) e livros que não têm nada que ver com a Índia mas eram baratos (os três volumes de história do século XIX de Hobsbawm, um livro de Julian Barnes sobre os franceses, etc.). E livros que comprei porque a livraria era boa, surpreendente, não muito barata para padrões indianos, mas alguma coisa havia que comprar. Foi o caso deste Sven Lindqvist, autor de Exterminem todas as bestas (Caminho), numa livraria pequena e maravilhosa em Deli.
O livro - e é o primeiro caso que eu conheço assim - não tem numeração de páginas. Tem entradas, um pouco menos de quatrocentas. Da entrada nº1 remete para a 163 (ou coisa parecida), depois para a 48, e por aí adiante, até chegar ao fim, até onde não há mais sequência de entradas, ou onde se regressa à entrada nº1. Pode ler-se por esta ordem (parece que é cronológica, se vi bem), mas também se pode ler sequencialmente pela numeração (de 1 para 2 para 3, etc.), e nesse caso a organização é temática ou «associativa». E, claro, também se pode ler por outra ordem qualquer, simplesmente experimentar entradas ao acaso, folhear. Até agora, foi o que fiz.

A minha referência sobre Lindqvist era um texto muito entusiástico de Mega Ferreira sobre esse outro livro publicado na Caminho. Na minha cabeça, A History of Bombing arrumou-se junto de On the Natural History of Destruction, de Sebald (que também não li).

terça-feira, maio 15, 2007

Epifania



A capa deste livro mudou a minha vida. Lembro-me de quando a vi, há dez anos ou mais, na montra da Buchholz. Foi nessa altura que deixei a política.

quinta-feira, maio 03, 2007

A educação pelo olhar


[Este texto sai no número de Maio do Monde Diplomatique, edição portuguesa.]

O que Sócrates diria a Woody Allen
Juan Antonio Rivera

Ed. Tenacitas, Coimbra, 2006, 340 pp.


Num capítulo sobre Há Lodo no Cais, Juan Antonio Rivera segue o tema do que chama «a educação pelo olhar»: Eva Marie Saint, depositando as expectativas que tem sobre Marlon Brando, impele-o a agir de forma moral, mesmo sem lhe dizer uma palavra. A questão que Rivera está a tratar é a das «metapreferências»: a importância da imagem que fazemos de nós mesmos, dos objectivos que nos propomos alcançar, daquilo que desejamos ser. O assunto é um dos fios condutores de um livro que se dedica sobretudo a problemas de filosofia ética: estas metapreferências devem ser inalteráveis? Se, a meio do caminho, queremos outra coisa, isso é bom ou mau? Ulisses seduzido pelas sereias; Frank Sinatra, em O homem do braço de ouro, tentado a regressar ao vício da droga e do jogo. Mas o livro também discute a rigidez excessiva das metapreferências, a incapacidade para aprender ao longo da vida, a ilusão racionalista e controladora da vida como um «projecto».

Uma educação filosófica pelo olhar é a empresa a que Juan Antonio Rivera, professor de filosofia na Universidade de Barcelona, se dedica em O que Sócrates diria a Woody Allen. Aproximadamente, cada capítulo do livro corresponde a um filme e a um tema. Dois Destinos, uma comédia romântica com Nicolas Cage, introduz a questão do acaso, das ramificações possíveis (e imprevisíveis) de um percurso: depois de ver a vida como poderia ter sido, Nicolas Cage ainda é capaz de dizer que as opções que tomou foram sempre as melhores? Sapatos Vermelhos, de Michael Powell e Emeric Pressburger, serve para discutir o problema do ponto de vista inverso: o «apetite fáustico», a tentação de querer experimentar todos os caminhos possíveis. Há temas que regressam em vários capítulos, e há capítulos que tratam de mais do que um filme. Nos casos mais felizes, uma película suscita uma variedade de sugestões, de reflexões, de incitamentos: sem ter uma tese filosófica explícita, convida a encarar o mundo sob prismas diversos. É curioso notar que fitas com uma mensagem filosófica muito explícita (como Laranja Mecânica) se prestam a um tratamento relativamente pobre; são obras menos directamente centradas na questão filosófica que mais estimulam a exploração do autor.

O livro dirige-se a uma plateia de leigos, mas não é uma iniciação à história ou aos temas da filosofia, ao estilo de O Mundo de Sofia; é uma selecção de um conjunto de problemas, escolhidos de forma relativamente arbitrária ao gosto do autor, discutidos por referência a um conjunto de filmes. O «Sócrates» e o «Woody Allen» do título são metonímias: simbolizam a filosofia e o cinema em diálogo. Sócrates e Woody Allen, concretamente, aparecem aqui em papéis relativamente secundários. Uma medida das virtudes deste livro é que dá vontade de ler outros livros. Outra, melhor ainda, é que, graças às magníficas capacidades narrativas de Juan Antonio Rivera e à sua paixão cinéfila, dá vontade de ver os filmes.

A edição portuguesa é, genericamente, cuidada, mas tem as suas bizarrias: na p.167 surge a voz do editor, em nota de rodapé, para corrigir o texto e dizer que o entendimento de Rivera sobre o conceito de virtude no cristianismo está errado. Suponho que se trate de uma instância da «tentação do bem» – tema que, de resto, o livro também discute.

quarta-feira, janeiro 24, 2007


Retrato de Tom Zé por Vera Tavares, do livro

[Esta nota sobre o recente livro de entrevistas de Carlos Vaz Marques a músicos brasileiros, MPB.pt (edições Tinta da China), saiu no Le Monde Diplomatique - edição portuguesa deste mês.]

Carlos Vaz Marques recolhe em livro um conjunto de entrevistas que fez com músicos brasileiros para o programa de rádio «Pessoal e… Transmissível». Não é perfeitamente claro que haja nestas entrevistas uma identidade de estilo: algumas são biográficas, outras quase «doutrinárias»; algumas apresentações de músicos, outras conversas com interlocutores desde há muito conhecidos. Apesar do título (MPB.pt), é até duvidoso que a designação «música popular brasileira» ainda represente alguma coisa unificada, que inclua desde Hermeto Pascoal a Maria Rita, unidos pelo mero acaso de terem estado em Lisboa. As introduções feitas por Carlos Vaz Marques também seguem modelos díspares. Há entrevistas luminosas: Chico Buarque tem uma grande inteligência nas formulações, uma riqueza verdadeiramente literária na escolha das palavras. Há curiosas conversas de pendor biográfico com Edu Lobo ou Lenine; a inteligência, embora um pouco lacónica, de Marisa Monte; ou a criatividade torrencial de Tom Zé. Também há entrevistas quase sem assunto (que há para conversar com Maria Rita, se não é de muito bom tom falar apenas da mãe?), ou desagradáveis por demasiado narcísicas (Ney Matogrosso ou Caetano Veloso, todo o tempo dizendo «eu sou assim e assado», «eu acho-me isto e aquilo»).
A riqueza do livro está escondida no cd de cerca de uma hora que o acompanha, colado na última página, com fragmentos gravados das entrevistas. Aí, o que parecia um excesso «doutrinário» de Hermeto Pascoal (um discurso filosófico que às vezes faz lembrar o de Agostinho da Silva) resulta irónico, humorado, divertido. Uma entrevista com Chico César que quase não existe no papel transfigura-se no som, à medida que ele ilustra musicalmente o seu discurso e a sua história de vida. Vanessa da Mata ganha outro encanto quando se ouve o seu riso; e também Maria Rita resulta mais interessante. E é no disco que a perícia de montador de Carlos Vaz Marques vem ao de cima, fazendo coisas em áudio que o texto não permite, pondo os músicos a «dialogar» uns com os outros, criando sequências temáticas, explorando ironias.
Ao ouvir o disco, a própria unidade temática resulta plausível, porque se ganha uma noção da diversidade das raízes – em grande medida populares – musicais do Brasil. Isso é patente em Hermeto, Tom Zé, Chico César e, de uma outra maneira, em Edu Lobo, Chico Buarque, Egberto Gismonti. Na verdade, este livro é um disco, e não tem por que ser um livro. Talvez convenções de ordem comercial o justifiquem. Mas é no formato áudio que ganha riqueza de documento e testemunho.

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Réveillon no Lixo

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Capa da edição em inglês do livro de Ruy Castro, Carnaval no Fogo

Três anos atrás, eu estava no Rio. Na semana entre o Natal e o Ano Novo, as praias de Copacabana, Ipanema, Leblon são invadidas por números indescritíveis de pessoas. As praias cheiram mal. A água está tudo menos limpa. Na noite do réveillon, a população desce à praia em quantidades calculadas entre os dois e os três milhões de pessoas. Os hotéis e os navios aportados organizam um festival de fogo-de-artifício que dura uma meia-hora. Eu estava com os pés dentro da água do mar; uma garrafa vazia de espumante veio com as ondas e acertou-me na canela. Os cariocas (e os turistas) festejam a meia-noite na praia, levam a bebida, deitam as garrafas vazias no mar (junto com as flores a Iemanjá). No dia primeiro de Janeiro, saí à rua em Copacabana e não se conseguia andar, com o lixo, um bairro do tamanho de uma cidade média (ou mais) de Portugal inteiramente cheirando a urina. Tive de apanhar o autocarro e ir fazer tempo em Ipanema até à hora de apanhar o meu vôo. Não foi um bom réveillon.
Lembrei-me disto agora por – naturalmente – várias razões e porque entre os melhores livros estrangeiros publicados este ano em Portugal o Pedro Mexia colocou o do Ruy Castro sobre o Rio de Janeiro. Comprei-o lá, nesse mês de Dezembro de 2003, com sentimentos divididos (por não ter gostado de outros livros do Ruy Castro – mas os temas são sempre muito bons: a bossa-nova, Nelson Rodrigues, Carmen Miranda, Garrincha). A edição era bonitinha e ficou ali na estante até agora – até à lista de melhores de 2006 do DN da sexta-feira passada. Fui ler. O Ruy Castro nunca me decepciona. São duzentas e cinquenta páginas – pequeninas, é certo – das quais odiei praticamente cada linha. Não sorri uma única vez, não me fez pensar quase nada, não despertou curiosidade. Arrastei-o pesadamente ao longo de dois ou três dias – com um brevíssimo intervalo, quase no final: um conjunto de páginas sobre a história da bossa-nova (que o Castro conhece). O Castro não tem graça e faz piadas, o Castro não é historiador e abusa de um estilo que evoca o nosso José Hermano Saraiva: «Foi aqui…»

«Surpreendentemente, uma outra especialidade dos tupinambás, observada pelos visitantes, não conseguiu diminuir sua cotação em sociedade: o canibalismo. (…) No dia marcado para a execução, as aldeias vizinhas eram convocadas para a boca-livre e acorriam em hordas. Depois de muito canto e dança, os convidados sentavam-se no chão, formando um grande círculo. O prisioneiro era chamado ao centro do terreiro, tinha o seu corpo pintado e davam-lhe pedras e cacos de cerâmica para atirar em seus captores. Fazia também parte da regra que ele lhes dirigisse os piores xingamentos e jurasse que seus irmãos viriam vingá-lo. No auge do discurso, levava uma pancada com uma borduna que lhe esmigalhava o crânio, para deixar de ser besta, e morria en beauté, sob aplausos e pedidos de bis. (…) Pela quantidade de gente à mesa e a pouca fartura do prato, cada convidado conseguia comer, no máximo, um dedo do pé ou meia orelha.»
[Ruy Castro, 2003, Carnaval no Fogo – Crônica de uma cidade excitante demais, São Paulo: Companhia das Letras, pp.30-32.]

O Castro partilha do preconceito antiportuguês, que é das coisas mais palermas que se pode encontrar num brasileiro (e sabe Deus que eu sou o último dos patriotas e o primeiro dos brasilófilos). E o Castro tem uma moral e uma «agenda» para nos vender, segundo a qual o Rio realmente sofreu muito (criminalidade, atentados ao património, etc.), mas desde a década de noventa, desde realmente a véspera deste livro, tudo está finalmente a ir ao sítio graças ao esforço empenhado e desinteressado de cidadãos conscientes. Nas últimas páginas, o Castro quer até convencer-nos de que Copacabana, às oito da manhã do dia primeiro de Janeiro, é um espectáculo de limpeza, graças ao cuidado de três milhares de funcionários que apagam os vestígios da rambóia da noite.
Mas eu estive lá: Copacabana no dia primeiro de Janeiro e o livro do Ruy Castro têm um cheiro parecido.

quinta-feira, novembro 16, 2006

The record shows

Yes, there were times, I’m sure you knew,
When I bit off more than I could chew.
But through it all, when there was doubt,
I ate it up, and spit it out.
I faced it all, and I stood tall,
and did it my way.

Li, com gosto, o livro que Filipe Santos Costa acaba de publicar sobre a última campanha eleitoral de Mário Soares para a Presidência da República. O livro é uma crónica detalhada, inteligentemente construída, dos vários passos que levaram Soares desde a decisão de se candidatar até à derrota de 22 de Janeiro. Li com curiosidade todas as partes que não conhecia por não ter estado envolvido – designadamente, as circunstâncias que conduziram à decisão de avançar – e li também com interesse as partes que conhecia e em que estive envolvido. Idealmente, para fazer uma crónica da decisão de avançar, teria sido interessante obter mais informação sobre as outras candidaturas, sobre a forma como as movimentações de Soares foram sendo recebidas naqueles meses de Julho e Agosto – por Alegre, evidentemente, mas também por Cavaco, e até por Jerónimo e Louçã, já que a questão da «unidade da esquerda» assumiu um significado tão relevante.
Filipe Santos Costa falou com Alfredo Barroso, Mega Ferreira, Marcos Perestrello, António Manuel, António Campos, José Manuel dos Santos, entre outros – ou seja, falou com quase todas as pessoas que acompanharam de perto o dia-a-dia da campanha. Falou com todos estes em on e, muito provavelmente, com a maioria deles também em off. É possível que ainda tenha falado com Vasco Pulido Valente (para a história de um almoço), ou pelo menos com Constança Cunha e Sá, que assina o prefácio. As fontes são boas e permitem-lhe reconstruir aspectos cruciais e desconhecidos da campanha com bastante minúcia.
Isto não significa, naturalmente, que não encontre defeitos no relato. O principal é que Filipe Santos Costa está notoriamente mais à vontade a falar de factos que investigou do que a caracterizar psicologicamente os personagens, ou a descrever «estados de alma». A meu ver, as páginas iniciais, que se debruçam sobre os dias da derrota (o sábado de reflexão e o domingo eleitoral) são talvez as mais fracas, porque há poucos factos para relatar, ou quase nenhuns, e muitas «disposições». Filipe Santos Costa não resiste aqui a uma certa tentação de omnisciência – dizer o que os intervenientes estavam a pensar e a sentir para lá daquilo que eles próprios expressaram – e não evita retratar situações de forma um pouco teatralizada, quando a realidade foi talvez um pouco mais rugosa e menos «literária».
Aliás, a questão «psicológica» talvez não seja de pequena monta, e aqui encontro o segundo problema importante do livro. Se pensarmos no plano histórico, é pouco provável que esta campanha de Mário Soares venha a ser vista como um acontecimento relevante; é no plano «psicológico», «humano», que uma candidatura destas, inesperada, «ilógica», oferece uma oportunidade de ouro para fazer um retrato do personagem. Ora, os talentos de Filipe Santos Costa estão notoriamente mais do lado da investigação jornalística (dos factos) e da sua articulação inteligente do que do lado da construção literária (do personagem). É certo que quem queira perceber como e porquê Soares perdeu esta eleição, encontrará no livro a resposta. Mas isso ainda deixa em aberto duas perguntas: Quem? E por quê, se a derrota parecia inevitável a quase todos desde o início? Fico a pensar que o talento de Filipe Santos Costa promete bastante para outros trabalhos de investigação (uma boa crónica do processo Casa Pia desde que rebentou o escândalo, por exemplo, parece-me muito necessária), mas que os detalhes da campanha falhada de Mário Soares só poderão interessar a poucos como eu. Talvez me engane.
De todas as formas, ainda que Filipe Santos Costa não invista (felizmente) o seu trabalho a tentar desenhar um perfil psicológico de Soares, alguma coisa emerge do relato. Tenho para mim que, na sua aparente simplicidade, ou talvez mesmo por causa da sua aparente simplicidade (dizer o que lhe apetece e fazer quase sempre o que quer), Soares é das personagens mais complexas que me foi dado conhecer. Indagações sobre o que motiva a sua acção, sobre o que pretende, são o mais das vezes fúteis e falíveis. Mas um retrato do que foi Soares nesta campanha, da combinação de uma certa inabilidade política com uma determinação, uma energia, uma obstinação extraordinárias, essa imagem emerge claramente deste livro. Sem que Filipe Santos Costa seja condescente, a sua admiração, o seu espanto, perante este personagem singular também transparece, nítida. E a imagem que resulta é, quer-me parecer, muito próxima daquela que eu próprio tinha ao finalizar a campanha. Foi na hora da derrota que Filipe Santos Costa viu os apoiantes da candidatura gritando mais empolgadamente «Soares é fixe» perante o seu candidato, num momento em que a circunstância propriamente política já estava em boa medida superada. Foi com o My Way que nós no Super Mário terminámos a campanha. Não deve ser por acaso.

[Filipe Santos Costa, 2006, A Última Campanha, ed. Palavra, Lisboa.]

quinta-feira, novembro 02, 2006

Existe?

Vaya País! é um livro recentemente editado, em que dezoito correspondentes da imprensa estrangeira radicada em Espanha escrevem sobre as singularidades do país que os acolheu. Os textos assentam, em geral, em episódios pontuais, pormenores anedóticos dos quais extraem considerações largas, muitas vezes exageradas, sobre a psique dos espanhóis e a sua maneira de ser. Muitos estereótipos vêem-se confirmados: o suíço repara na desordem, na falta de sentido cívico, no egocentrismo; a inglesa, em como são diferentes os hábitos na bebida; o alemão encanta-se com a informalidade no trato; a italiana comenta as modas; a japonesa reflecte sobre problemas de comunicação. Mas o português tem uma singularidade: o português fala de Portugal.
«Portugal existe» é o título bem expressivo do texto de Nuno Ribeiro, correspondente do Público há quase 15 anos em Madrid, mas um dos três que não escreveram o seu texto em castelhano (para provar que Portugal existe?). Ribeiro fala sobre Portugal, no espelho espanhol: a forma como eles nos vêem, a persistência de estereótipos antigos sobre um povo «amável», de bons atoalhados e 1001 maneiras de cozinhar bacalhau; o desconhecimento, o desinteresse, o paternalismo. Nuno Ribeiro começa com a história dos esforços diplomáticos portugueses, no final dos anos oitenta, para que nos mapas metereológicos dos media espanhóis o rectângulo do lado adquirisse um nome (em vez de ficar incógnito, ou sem fronteira desenhada, ou um mero espaço vazio como se o mar fosse até Badajoz). E termina com as dificuldades que encontra para ser Ribeiro, não «Ribero», e como prescindiu de ser «Afonso», face à inevitabilidade de ficar para sempre «Alfonso».
Curiosa coisa esta: dezoito correspondentes, todos falando sobre os outros, sobre os espanhóis, excepto um. Todos fazendo comparações com o seu próprio país, uns com graça, outros com rigor – excepto um. Um, um só, apenas um, fala e se pergunta sobre o seu próprio país: como nos vêem, se nos percebem, se existimos. Estranha coisa esta, até que voltamos ao início e lemos as primeiras linhas do prefácio, de Miguel Ángel Bastenier, jornalista do El País. Diz assim:

«Dieciocho corresponsales extranjeros en Madrid de diez nacionalidades diferentes – si es que la portuguesa es de verdad extranjera (…)»

Se existe? No creo. Pero que lo hay…