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quinta-feira, abril 19, 2007

Kassin +2

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O melhor é começar por abrir este link numa nova janela, para ir ouvindo a música enquanto lê este post. O que deve estar a tocar é a música «O seu lugar» (se não está, ou não está essa, é preciso ir lá e corrigir), que convém ouvir até ao momento em que ele diz «vai custar cara essa palhaçada». Isto é o novo disco de Kassin +2, que por estes dias é posto à venda na Europa; no Brasil terá sido lançado há um par de meses, e no Japão no ano passado. (Estão a ouvi-lo? Isto é bom.) Kassin +2 é a banda de Alexandre Kassin, Domenico Lancelloti e Moreno Veloso, que no disco anterior se chamavam Domenico +2, e no anterior Moreno +2. (Parece que no próximo se chamarão simplesmente +2). É uma banda de cariocas, pós-bossa-nova. O concerto deles, em 2005, no antigo Cinema Roma, para uma pequena plateia de indefectíveis, foi uma curtição. Têm agora espectáculos marcados para dia 4 de Maio, sexta-feira, em Lisboa, no Santiago Alquimista; e na Casa da Música, do Porto, no dia seguinte. Pedaços da experiência do show podem ser descritos assim:

«A Moreno, tradicionalmente despenteado e com uma camisa da seleção mexicana de futebol, coube a tarefa de fazer as honras da casa com um surreal mas quase imperceptível “bom dia” (eram oito e quinze da noite). Com violão e voz de inspiração joãogilbertiana (e caetânica, por tabela), ele puxou uma releitura de Deusa do Amor, sucesso do Olodum, que faz parte do recém-lançado disco de estréia da banda, Máquina de Escrever Música. Alexandre Kassin tocou seu baixo eletroacústico de simplicidade aterradora e Domenico Lancelotti marcou o ritmo com duas lixas – impávidos ambos. (…) Também calma foi a versão voz-e-violão para Eu Sou Melhor Que Você, divertida canção do Mulheres Q Dizem Sim, banda original de Domenico (que, sem nada para tocar nessa, coçou a barba).»

Alexandre Kassin é um gordão de óculos, cara inexpressiva, barriga e mamas. Parece um nerd saído de um filme americano de série B sobre tropelias no liceu.

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

O descobrimento do Brasil


A primeira coisa em que reparei, ao chegar a Bombaim, foi que fazia lembrar o Rio de Janeiro. Mas não liguei muito: a mim tudo faz lembrar o Rio de Janeiro - a baía de Xangai, aos meus olhos, é Copacabana - e de qualquer forma eu estava cansado e não tinha dormido. Depois notei, quando estava no hotel, que o barulho que vinha da rua era parecido, a temperatura do ar, o cheiro, a humidade, o som dos pássaros - porque eu estava nos trópicos. Os passeios de Bombaim fazem lembrar os do Rio de Janeiro: um Rio de Janeiro um pouco mais sujo, mais poeirento, mais desordenado e mais pobre, mas o pavimento e o asfalto são parecidos, e no Rio também se vêem famílias com criancas vivendo na rua e pedindo. Ja Marine Drive é a Avenida Atlântica sem os morros em fundo: basta passear pelo calçadão olhando os prédios modernos dos anos cinquenta na orla marítima; os restaurantes das ruas adjacentes também são parecidos. Voltei a encontrar a Zona Sul em Kemps corner, onde entre duas ruas se ergue um morro com um prédio altíssimo: as escalas são iguais às do Rio, assim como o contraste entre o natural e o construído (infelizmente, não tenho fotografias). De modo que já nao me espantou mesmo nada quando, por acaso, passeando por Deli, tropecei neste pedaço de video. Sinto-me como o Cabral, que ia para a Índia e achou o Brasil.

*
Mas ninguém me tinha prevenido para Deli, das cidades mais extraordinárias onde alguma vez estive, talvez mais impressionante do que Roma, e com livrarias pequenas e surpreendentes como Londres ou os Estados Unidos.

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Réveillon no Lixo

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Capa da edição em inglês do livro de Ruy Castro, Carnaval no Fogo

Três anos atrás, eu estava no Rio. Na semana entre o Natal e o Ano Novo, as praias de Copacabana, Ipanema, Leblon são invadidas por números indescritíveis de pessoas. As praias cheiram mal. A água está tudo menos limpa. Na noite do réveillon, a população desce à praia em quantidades calculadas entre os dois e os três milhões de pessoas. Os hotéis e os navios aportados organizam um festival de fogo-de-artifício que dura uma meia-hora. Eu estava com os pés dentro da água do mar; uma garrafa vazia de espumante veio com as ondas e acertou-me na canela. Os cariocas (e os turistas) festejam a meia-noite na praia, levam a bebida, deitam as garrafas vazias no mar (junto com as flores a Iemanjá). No dia primeiro de Janeiro, saí à rua em Copacabana e não se conseguia andar, com o lixo, um bairro do tamanho de uma cidade média (ou mais) de Portugal inteiramente cheirando a urina. Tive de apanhar o autocarro e ir fazer tempo em Ipanema até à hora de apanhar o meu vôo. Não foi um bom réveillon.
Lembrei-me disto agora por – naturalmente – várias razões e porque entre os melhores livros estrangeiros publicados este ano em Portugal o Pedro Mexia colocou o do Ruy Castro sobre o Rio de Janeiro. Comprei-o lá, nesse mês de Dezembro de 2003, com sentimentos divididos (por não ter gostado de outros livros do Ruy Castro – mas os temas são sempre muito bons: a bossa-nova, Nelson Rodrigues, Carmen Miranda, Garrincha). A edição era bonitinha e ficou ali na estante até agora – até à lista de melhores de 2006 do DN da sexta-feira passada. Fui ler. O Ruy Castro nunca me decepciona. São duzentas e cinquenta páginas – pequeninas, é certo – das quais odiei praticamente cada linha. Não sorri uma única vez, não me fez pensar quase nada, não despertou curiosidade. Arrastei-o pesadamente ao longo de dois ou três dias – com um brevíssimo intervalo, quase no final: um conjunto de páginas sobre a história da bossa-nova (que o Castro conhece). O Castro não tem graça e faz piadas, o Castro não é historiador e abusa de um estilo que evoca o nosso José Hermano Saraiva: «Foi aqui…»

«Surpreendentemente, uma outra especialidade dos tupinambás, observada pelos visitantes, não conseguiu diminuir sua cotação em sociedade: o canibalismo. (…) No dia marcado para a execução, as aldeias vizinhas eram convocadas para a boca-livre e acorriam em hordas. Depois de muito canto e dança, os convidados sentavam-se no chão, formando um grande círculo. O prisioneiro era chamado ao centro do terreiro, tinha o seu corpo pintado e davam-lhe pedras e cacos de cerâmica para atirar em seus captores. Fazia também parte da regra que ele lhes dirigisse os piores xingamentos e jurasse que seus irmãos viriam vingá-lo. No auge do discurso, levava uma pancada com uma borduna que lhe esmigalhava o crânio, para deixar de ser besta, e morria en beauté, sob aplausos e pedidos de bis. (…) Pela quantidade de gente à mesa e a pouca fartura do prato, cada convidado conseguia comer, no máximo, um dedo do pé ou meia orelha.»
[Ruy Castro, 2003, Carnaval no Fogo – Crônica de uma cidade excitante demais, São Paulo: Companhia das Letras, pp.30-32.]

O Castro partilha do preconceito antiportuguês, que é das coisas mais palermas que se pode encontrar num brasileiro (e sabe Deus que eu sou o último dos patriotas e o primeiro dos brasilófilos). E o Castro tem uma moral e uma «agenda» para nos vender, segundo a qual o Rio realmente sofreu muito (criminalidade, atentados ao património, etc.), mas desde a década de noventa, desde realmente a véspera deste livro, tudo está finalmente a ir ao sítio graças ao esforço empenhado e desinteressado de cidadãos conscientes. Nas últimas páginas, o Castro quer até convencer-nos de que Copacabana, às oito da manhã do dia primeiro de Janeiro, é um espectáculo de limpeza, graças ao cuidado de três milhares de funcionários que apagam os vestígios da rambóia da noite.
Mas eu estive lá: Copacabana no dia primeiro de Janeiro e o livro do Ruy Castro têm um cheiro parecido.