terça-feira, outubro 09, 2007
Palavras difíceis (2)
Palavras difíceis
quinta-feira, novembro 09, 2006
Carta aberta ao Director do Público
Exmo Senhor,
A campanha neo-con que V. Exa. prossegue na direcção desse jornal tem conhecido, até hoje, muitos episódios lamentáveis. Mas a capa da edição da última segunda-feira é positivamente um nojo. A manchete «Tribunal iraquiano condena Saddam Hussein à morte» é ilustrada com uma foto do taxista Khatab Ahmed de braços no ar, celebrando, na sua casa. O que simboliza o taxista Ahmed? A alegria unânime do povo iraquiano pela condenação do tirano? Ou a celebração do próprio jornal Público? A pergunta é necessária, pois a foto não ilustra directamente o acontecimento noticiado – não é uma foto do tribunal, ou do réu – mas uma reacção à sentença.
Basta consultar qualquer órgão de imprensa para concluir que a condenação por enforcamento de Saddam Hussein não foi recebida com uma celebração unânime, mas, pelo contrário, com uma profunda divisão segundo as linhas étnicas que neste momento colocam extensas áreas do país em guerra civil. Nas zonas de maioria sunita, a sentença foi acompanhado de um decreto de recolher obrigatório para obviar aos protestos, e em Tikrit tal decreto não pôde sequer ser cumprido face à magnitude das manifestações. O Público opta por ilustrar uma condenação à morte com uma celebração – mas, em termos noticiosos, não se percebe porquê.
Na mesma capa do jornal encontramos em destaque uma frase entre aspas que diz tratar-se de uma «sentença irrelevante face ao que se vive no Iraque». Sem outro contexto, somos levados a acreditar que esta é uma apreciação objectiva sobre a forma como a sentença foi recebida no país. Mas basta abrir o próprio jornal para constatar que a frase é retirada de um artigo de opinião de Francisco Teixeira da Mota. E mais: lendo o artigo – uma condenação rotunda da sentença – rapidamente se percebe que o autor não diz que o enforcamento de Saddam terá efeitos neutros, mas que, face à gravidade da situação que se vive no Iraque, nem sequer são de esperar quaisquer benefícios decorrentes da sentença. Aliás, o texto de Teixeira da Mota é tão contundente, tão crítico da decisão do tribunal, que sobram fundadas dúvidas sobre se terá sido ele a escolher um título ambíguo e neutro para um texto tão veemente.
«Um tribunal constituído de forma pouco transparente e em que o juiz presidente, apesar da confiança que nele depositavam os novos poderes iraquianos e os EUA, se veio a afastar por pressões políticas sendo substituído por um juiz, este sim, de inteira confiança. Se a isto acrescentarmos o assassínio de três advogados da defesa de Saddam Hussein, não nos precisamos sequer de lembrar dos inúmeros incidentes ocorridos ao longo do julgamento, com expulsões dos réus da sala de audiências e greves de fome, para concluirmos que este processo e a sentença proferida não se enquadram naquilo a que, usualmente, chamamos Justiça. Tanto a Amnistia Internacional como a Human Rights Watch foram, de resto, claras ao apontarem as insuficiências deste processo.
Saddam Hussein deveria ter sido julgado por um tribunal internacional, independente e imparcial, tendo em conta o facto de estarem em causa crimes contra a humanidade bem como a forma como foi deposto e obrigado a responder pelos seus crimes.
Mas, face a esta sentença, para além de entender que uma eventual morte nada acrescentará de positivo a todas as anteriores e de deplorar que a mesma tenha sido proferida de forma tão ajustada ao calendário eleitoral norte-americano, não posso, sobretudo, deixar de lamentar que a mesma já seja tão irrelevante face à situação que se vive no Iraque…»
Por fim, na página seguinte temos ocasião de conhecer directamente o pensamento de V. Exa., por meio de um editorial sintomaticamente intitulado «Apesar de tudo…» – incluindo as reticências. A V. Exa. terá faltado a coragem (de que ultimamente se vangloria nas próprias colunas editoriais) para celebrar expressamente a condenação à morte. Mas lá vai dizendo que, enfim, um julgamento no próprio país é «sempre melhor do que num tribunal internacional», e que os julgamentos de Nuremberga e Milosevic também não foram propriamente imparciais. Bastava-lhe ler, por exemplo, o que Pedro Magalhães escreveu no seu próprio jornal, no início deste processo, para saber que os tribunais nacionais não são sempre melhores, em países que atravessam guerras civis e onde o veredicto não é susceptível de ser produzido de maneira independente nem aceite de forma generalizada. Mas o que, além disso, V. Exa. esquece é que os processos de Nuremberga e de Milosevic não decorreram na sequência de invasões de países realizadas sob falsos pretextos. Milosevic foi levado à justiça depois de ser destituído no seu próprio país por um levantamento democrático, e presumo que dos nazis não preciso de falar.
O problema com a condenação de Saddam nem é tanto a questão geral da pena de morte, porque aqui, pelo menos, parece afastada a possibilidade de erro judicial. O que é trágico – e não é menos trágico só por ser esperado – é que este enforcamento será o corolário de uma guerra ilegal e injusta. E à ilegalidade e injustiça acresce a situação em que a invasão deixou o país, destruído, numa guerra civil sem fim à vista, com um número de mortes que pode ascender às centenas de milhar. Esse aspecto – esse aspecto simbolicamente confirmado com o enforcamento do anterior tirano, destituído pela operação militar anglo-americana – esse aspecto é que não será esquecido, nem pelos iraquianos nem pelos outros povos do mundo em geral. Este enforcamento não será «irrelevante».
quinta-feira, outubro 19, 2006
A derrocada

Vendo Portugal à distância de uns milhares de quilómetros - que é, às vezes, a distância a que deve ser visto - a única notícia significativa que se registou aqui no último mês de Agosto consistiu numa pequenina notinha de rodapé acrescentada pela direcção do Público a um artigo de opinião de Isabel do Carmo. Dizia assim:
«NR - O PÚBLICO não alterou a grafia deste texto, designadamente o facto da [sic] autora escrever Holocausto com caixa baixa.»
Esta nota de redacção suscitou uma enxurrada de críticas, e desde logo um comentário do abrupto altamente meritório. Mas o facto de a nota de redacção ter suscitado as reacções devidas não significa que o assunto se tenha esgotado, ou que as suas implicações ficassem por aí. Porque o que a notinha da direcção do Público constituiu foi um passo - um passo mais, um passo emblemático, um degrau apenas ligeiramente mais acima - num processo de apropriação do Público pelo seu director, em função de uma agenda ideológica altamente militante, um processo a que noutra ocasião já chamei de usurpação. Houve um dia, em Agosto, em que o director do Público imaginou que poderia desqualificar um artigo sobre Israel sugerindo, com uma pequena nota «semântica» de rodapé, uma mera correcção ortográfica, que a sua autora era «negacionista». E isto como se existisse alguma regra universal que recomendasse o uso de maiúscula em holocausto, como se o holocausto não fosse um acontecimento da História mas uma Entidade de contornos mais ou menos religiosos.
Uma notícia chegada agora, sem a magnitude, a singularidade, daquela pequena nota, vem no entanto complementá-la. O texto do Diário de Notícias da última sexta-feira que dá conta da ruptura entre Augusto M. Seabra e o Público tinha-me passado desapercebido - encontrei a referência aqui. A notícia da saída de Seabra do Público é em si mesma surpreendente e significativa para quem se tenha habituado a ler o Público desde o início: pelo peso que o crítico tinha no jornal, a quantidade de textos que escreveu, o trabalho, a informação que neles estava inscrita. A isto acresce, lateralmente, o facto de que AMS era talvez a única pessoa que, no próprio Público, ainda criticava abertamente a agenda ideológica do director, e sobretudo a subordinação do jornal a essa agenda.*
Mas - como se assinala muito justamente aqui - a notícia do DN sobre a saída de Seabra tem ainda um pormenor picaresco: o director do Público responde às críticas à orientação do jornal com observações pessoais e ataques de carácter. Isto é interessante. Também é interessante que, três meses atrás (em Julho, se não estou em erro), quando, num conjunto extenso de artigos sobre o lugar da crítica, AMS polemizou com Eduardo Prado Coelho, este lhe tenha respondido, nas páginas do jornal, com um ataque violento de carácter pessoal do género mais grosseiro e mais inaudito.
José Manuel Fernandes é director do jornal, e Eduardo Prado Coelho tem o estatuto singularíssimo de colunista diário, vai para dez anos ou coisa assim (com o aspecto cómico adicional de que, supostamente, representa a «esquerda»). Os dois juntos dão boa imagem do pior que o Público tem hoje para oferecer. Não conhecia a Seabra - que, segundo sei, não respondeu a qualquer destes ataques - vocação para Cristo. De qualquer forma, o que às vezes começo a perguntar-me é se ainda assistiremos à derrocada final deste jornal, que tinha nascido dentro das melhores expectativas.
* Um episódio que, por cómico, registei do ano passado foi o da capa do Público que anunciava em manchete «três eleições históricas» - na Alemanha, no Japão e outra que não me lembro (mas não: não era no Iraque). O carácter «histórico» das eleições consistia em que, na opinião do jornal, elas representavam a grande oportunidade para esses países se movimentarem em direcção a uma agenda económica mais liberal. Infelizmente, os eleitores desses países não estiveram à altura dos desígnios históricos que o director do Público lhes tinha atribuído, e produziram resultados eleitorais de compromisso, muito pouco «históricos».