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quinta-feira, novembro 09, 2006

Some guys have all the luck

Don’t date him, girl é o nome de um site norte-americano, visitado diariamente por seiscentas mil a um milhão de pessoas, em que as mulheres inscritas (cerca de 720.000) depositam informações sobre homens que as enganaram, ou que elas acham que as enganaram. Há 18 mil delinquentes recenseados. O assunto tem sido tratado por jornais no mundo inteiro (incluindo em Portugal), que geralmente se focam na devassa da privacidade pela internet, na possibilidade de difamação e nas acções jurídicas intentadas por alguns destes homens, que se sentem injustiçados. Mas o aspecto mais interessante do caso talvez esteja antes disso – no facto em si, na ideia do site.
O nome, desde logo, é sugestivo: «don’t date him, girl», e o «girl» final não tem outra função que não seja enfática, maternal, apaziguadora. «Girl» é «rapariga», mas é também «menina». Depois há este paradoxo muito curioso: todos os depoimentos têm como ponto de partida uma mulher que diz às outras para elas não fazerem, não experimentarem, não tentarem aquilo que ela mesma já tentou. A ambivalência que está contida nisto, nalguns casos, é muito manifesta. Veja-se o caso de Todd Hollis, um dos mais badalados, que é descrito assim por uma das suas ex-namoradas:

«Escuro e atraente, parece um sonho de chocolate. Até que o conheces. (…) Tem casos em todos os códigos postais dos EUA. É uma bomba («He’s hot»)… Não se deixem enganar por ele, meninas.»

É difícil imaginar um texto promocional que fosse mais convidativo. Este homem é simplesmente irresistível (um sonho, um doce, uma bomba); a única maneira de o evitar é manter-se à distância, porque ele tem magias que enfeitiçam mulheres através de um continente inteiro.
É claro que o que aqui está presente – ou presente pela ausência – é a culpa. «Don’t date him, girl» denuncia os homens, culpabiliza-os, ao mesmo tempo que paternaliza as mulheres, para evadir o problema da culpa. Um homem irresistível é um homem a que não se pode resistir. Uma mulher que não pode resistir é uma mulher que não tem responsabilidade nem culpa. A mulher não é bem uma mulher: é uma rapariga, é uma menina. Culpa – mas de quê?
Acho muito interessante como permanece vivo o problema da culpa com relação ao sexo em sociedades supostamente liberais - em sociedades, dizem-nos todos os dias, completamente liberais no domínio do sexo, excessivamente libertadas. O que este site ilustra - e a própria foto da criadora do site, Tasha Joseph, ilustra - é o paradoxo de uma sociedade em que os padrões estéticos se sexualizaram muitíssimo (Tasha Joseph é uma mulher «arranjada», «produzida», «atraente»), mas isso convive com um discurso sobre o sexo que não mudou muitíssimo. A mulher pode ter relações sexuais fora do casamento - mas elas têm de ser justificadas por um imaginário romântico tradicional, ou por uma irracionalidade, uma anulação da vontade própria (o homem «irresistível»). Fantasias que remetem para a violação – fantasias de serem aprisionadas, encostadas à parede, assoberbadas durante o acto sexual – são as mais comuns, e, em muitos casos, talvez o único mecanismo que permite à mulher libertar-se da culpa.
Um site destes poderia ser feito por homens? «Não saias com ela, rapaz, que é um perigo, vais estar indefeso e vulnerável, ela é uma bomba irresistível»? Um site desses estaria cheia de fotos das mulheres «irresistíveis» – mas seriam, suspeito, fotos de outra natureza. E seria possível em países de costumes liberais e igualdade sexual, como a Suécia, ou a Dinamarca? Existe nos EUA, em grande escala pública, com um milhão de visitas por dia; em breve existirá em espanhol, e algo me diz que em Portugal também não seria impossível.

quinta-feira, outubro 12, 2006

Capuchinho Vermelho, o justiceiro



Num texto de que, de resto, gostei muitíssimo, umas semanas atrás, o Rui Tavares escrevia às tantas a seguinte passagem:

«O interesse pelo caso [da jovem austríaca que foi sequestrada e ficou encerrada dos dez aos dezoito anos numa masmorra] nasce, em primeiro lugar, da preocupação real pelos traumas dos abusos sexuais, uma apreensão recente que por vezes sucumbe à morbidez e ao sensacionalismo, mas que é correcta na sua essência.»

E eu fiquei a pensar nisto: «correcta na sua essência». Será que a preocupação generalizada com os abusos sexuais sobre menores que hoje se vive é, descontada a morbidez e o sensacionalismo, correcta na sua essência? E ainda conseguimos discernir uma essência? As perguntas foram suscitadas, entre outras coisas, pelo facto de ter visto, dois meses antes, um filme que focava o problema das relações entre adultos e adolescentes sob o prisma dos abusos sexuais. Hard Candy parte deste temor: uma rapariga de catorze anos conhece num chat um homem quase duas décadas mais velho e vão tomar café. O encontro corre «bem» e o - por assim dizer - casal segue para casa dele.
Tudo começa aí. Não se pode revelar demasiado para não estragar o filme, mas em casa do fotógrafo os papéis invertem-se: o perseguidor é perseguido, e a jovem caçada é quem prende a sua caça. O que a miúda de 14 anos irá fazer é uma espécie de pregação moral em acto, que mostra ao «sedutor» que toda a sedução de adolescentes por adultos é imoral, inaceitável, por mais que o adulto se sinta desafiado, tentado ou incitado. As adolescentes vestem-se e comportam-se muitas vezes de forma hipersexualizada aliás: as pré-adolescentes também) mas isso não é desculpa. Falo em «pregação moral» porque o filme é carregado de discurso, mas trata-se também de vingança física, tortura demoradamente praticada pela rapariga em nome de uma amiga abusada em circunstâncias idênticas, e, em geral, em nome de todas as adolescentes.
Se o universo das «vítimas» é amplo, o universo dos «acusados» não o é menos: o filme aposta em que estejamos todos, ou quase todos, a ser julgados ali, porque o adulto é um fulano com o ar mais «normal» possível (não um evidente «tarado», não um ostensivo criminoso) e porque a condenação da rapariga é extensível a todos os que alguma vez nas suas cabeças fantasiaram com adolescentes.
Pense-se o que se pensar desta pregação moral (e alguns aspectos fazem sentido), o lado perverso do filme reside em que ele não faz uma mera afirmação deste ponto de vista («moral») contra outro (da «imoralidade»). A coisa curiosa é que o filme joga nos dois tabuleiros, e retira a sua eficácia do facto de jogar nos dois tabuleiros. De um lado, é um filme altamente moralista sobre como não devemos explorar sexualmente as teenagers, não devemos interpretar os seus comportamentos libidinosos como convites ou concordância a aventuras sexuais: com isto, a plateia satisfaz o seu instinto moralista, comprazendo-se em ver o abusador castigado. Mas, do outro lado, a rapariga que castiga não é de maneira nenhuma uma adolescente vulgar, mas uma rapariga atraente - de maneira que a eficácia do filme também reside no alargamento generalizado da culpa. Nós também podíamos pensar aquilo sobre ela.
Com isto, às tantas o filme inteiro é uma fantasia de homem, e de homem que gosta de miúdas novas: a miúda é ao mesmo tempo criança e ao mesmo tempo omnisciente e omnipotente; é inteligentíssima (o filme assenta num desses irritantes guiões em que cada frase é uma tirada de efeito) e ainda por cima tortura o «sedutor», castigando-o por ele ter desejos que não deve ter (e pelos quais se sente culpado). O castigo é ela quem o exerce – não a lei, sob forma mais ou menos abstracta. Se o filme ganha no tabuleiro da moralidade, ganha também no tabuleiro da fantasia voyeurista, do homem que fantasia uma rapariga inocente e poderosa, e que, ao mesmo tempo, se sente culpado e precisa de ser punido por isso.
A rapariga não fala nem pensa nem age como uma rapariga de 14 anos. Aliás: a actriz não tem 14 anos, mas 19. O que o filme finge que nos oferece é um discurso moral sobre a atracção por miúdas; o que no fim de contas nos oferece é uma jovem bonita e atraente, com traços andróginos, inteligente para lá da conta, ao mesmo tempo que alimenta a fantasia de que se trata de uma adolescente semi-púbere, plena de inocência, sobre a qual pensar em termos sexuais será um crime análogo ao de pedofilia.
Como diz Oscar Wilde em A Woman of no Importance, «a thoroughly bad man [is] the sort who admires innocence».

Um artigo no Economist
– sempre essa referência fatal – que li no espaço entre o filme e o texto do Rui Tavares dizia ainda duas coisas curiosas. Primeira: que, de acordo com uma sondagem Gallup efectuada no ano passado, os norte-americanos estão muito mais preocupados com o perigo de um estranho que viole crianças do que com qualquer outro assunto público. 66% manifestam-se «muito preocupados» com esse perigo, face a 52% que manifestam o mesmo sobre o crime violento, ou 36% muito preocupados com o terrorismo. Esta preocupação tem efeitos práticos, como por exemplo o facto de, há dez anos, haver três estados com restrições aos sítios onde ex-condenados por abusos sexuais sobre crianças podem viver, contra 14 actualmente, e outros 12 que estão a preparar legislação nesse sentido.

«Um caso típico é o da lei aprovada esta semana em Monroe, New Jersey, que impede condenados por alguns tipos de ofensas sexuais de viverem a menos de 800 metros de qualquer escola, creche, jardim infantil, biblioteca ou local de oração – por outras palavras: de viverem seja onde for.»

Segundo: não só, como é sabido, a maioria dos abusos sexuais é praticada por membros das próprias famílias, como, de acordo com os números disponíveis para os EUA, só 3% dos condenados por esse tipo de abusos reincide no prazo de três anos. Por cada ex-condenado por abusos sexuais que reincide, diz ainda o Economist, há 7 ex-condenados por crimes comuns que abusam sexualmente de crianças. A preocupação que hoje se vive com o perigo de estranhos vindos da rua abusarem de menores é «correcta na sua essência»? Dificilmente.

Para uma recensão muito boa sobre Hard Candy – «the rare movie that may be worthiest for the arguments you’ll have after it’s over» –, aqui.