quinta-feira, abril 26, 2007
Autobiografia sumária
Histórias
Vasco Pulido Valente
Público, 21.04.2007
No dia em que nasci, 21 de Novembro de 1941, Hitler ocupava quase toda a Europa e o exército alemão estava a alguns quilómetros de Moscovo. Franco tinha liquidado a República e Salazar mandava em Portugal. Ainda me lembro, distintamente, de ouvir a voz do Führer (ou de Goebbels?) na telefonia e das senhas de racionamento. Quando cresci, a guerra continuava viva na pobreza geral, nos livros, nos jornais, nas conversas da família. Sou, em primeiro lugar, um filho desse tempo. Do tempo dos julgamentos de Nuremberga, de Londres bombardeada (que cheguei a ver) e das revelações (de resto, vagas) sobre os campos de extermínio. Mas também o tempo do “existencialismo”, dos caveaux de Saint-Germain e do new look de Dior, que não deixou de aparecer numa Lisboa estupefacta e remota.
Nunca perdi a memória ou os sinais desse princípio, que foi, por assim dizer, a minha introdução ao mundo. A guerra fria veio complicar as coisas. Em Portugal, a existência da ditadura impunha, na prática, a escolha de um único lado. Não se podia ser contra os comunistas pela razão primitiva e óbvia de que o regime perseguia e prendia os comunistas. Não houve ninguém, ou quase ninguém, com um resto de consciência moral, que, numa altura ou noutra, não caísse neste buraco: o buraco sem fundo do “antifascismo”. Sair dele era mais difícil e muitos só saíram muito depois do 25 de Abril.
Por mim, gastei esforçadamente uma dúzia de anos no trabalho inglório de varrer a tralha política e teórica da minha cabeça. É uma parte da minha vida que se estragou e que não volta. Sou um filho da guerra fria.
A democracia portuguesa trouxe uma exagerada esperança de reforma e decência. Ao começo, mesmo a seguir ao PREC, nada parecia impedir que se fizesse um país, sem a miséria, a corrupção e a complacência do costume. Por isto e por aquilo, não se fez. Portugal conservou os seus velhos vícios, sem adquirir novas virtudes. Na minha última encarnação sou, prosaicamente, um filho da democracia falhada. Como escreveu o homem, a velhice é um naufrágio. Comigo, um naufrágio que às vezes não acho exclusivamente pessoal. Mas são com certeza momentos de megalomania. A verdade é que já não pertenço a esta história. O meu interesse é forçado, a minha presença é, pelo menos para mim, gratuita. Mas, por enquanto, não há remédio senão persistir.
quinta-feira, dezembro 07, 2006
O preservativo está a um preço caríssimo
«Por muito que doa a uma certa demagogia, materialmente, a questão do aborto acabou por se tornar numa questão residual. O uso dos contraceptivos (que não custam caro) e, sobretudo, a “pílula do dia seguinte” (venda livre a menos de quatro euros) fizeram do aborto o resultado da ignorância, da irresponsabilidade ou da má sorte.»
O Doutor Pulido Valente não tem, possivelmente, a menor ideia do preço dos preservativos: à unidade são mais caros do que o jornal onde escreve, o que é sem dúvida uma tremenda injustiça. Além disso, em muitas desafortunadas circunstâncias as pessoas nem sempre gastam apenas um para cada, digamos, «utilização»: há muito preservativo que se estraga. E por fim há ainda uma diferença – estatisticamente muito significativa – entre a eficácia «de laboratório» obtida pela borracha, e a sua eficácia real, na prática concreta das pessoas, que tem a ver com a forma como ele é utilizado.
O que me impressiona muito nos colunistas que se exprimem sobre o aborto é, frequentemente, a forma como minimizam a capacidade de espermatozóide e óvulo se juntarem apesar da vontade dos respectivos progenitores (suponho que se possa dizer assim). De nada adianta vilipendiar as pessoas pelas gravidezes indesejadas. A gravidez acidental é produto de muitas circunstâncias, desde a falta de informação, ao desleixo, à indisponibilidade de anticoncepcionais. Mas é também um facto da vida, da propensão natural do ser humano para o erro e para a falibilidade. Como escrevi outro dia, «acontece, e mais vezes do que se supõe, mesmo a cidadãos íntegros e conscienciosos, infalivelmente racionais, e prudentes até à cópula.»