quarta-feira, junho 04, 2008

Um weberianismo da treta

Tem havido um ar de presciência, ou até de omnisciência, na retórica dos bloggers portugueses de inclinação clintonista. Obama é minimizado, e os seus apoiantes tratados com condescendência: nada justifica a popularidade do candidato negro à nomeação democrata a não ser uma aura mística pessoal; o apoio a Obama tem um nome – Obamania – e logo por aí se vê que é um fenómeno do domínio do irracional; o candidato não seria portanto politicamente confiável. Não me lembro de uma única pessoa ponderada que tenha declarado simpatia por Obama. O apoio à candidatura – abertamente não-glamourosa – de Hillary Clinton não é só a opção mais sensata; é a opção dos sages, que vez por outra abrem um pouco a cortina dos seus oráculos e nos dizem aquilo que vai acontecer.
Neste contexto, é pelo menos irónico contemplar a forma como Hillary Clinton tem politicamente conduzido o estertor da sua campanha. Como reagiu ontem à noite em Nova Iorque, quando Barack Obama conseguiu o número necessário de delegados à Convenção democrata? "This has been a long campaign. And I will be making no decisions tonight. But this has always been your campaign. So, to the 18 million people who voted for me, and to our many other supporters out there of all ages: I want to hear from you. I hope you’ll go to my website at hillaryclinton.com and share your thoughts with me and help in any way that you can, and in the coming days I'll be consulting with supporters and party leaders to determine how to move forward..."
É ver para crer, e julgar da racionalidade, fiabilidade e sentido de responsabilidade da candidata dos sábios.

Obama (2)

Mr Obama will not want to make the offer if there is a chance that she will actually accept. Expect a complicated dance between the two in coming days. She probably would not bring to his ticket what it needs.

Obama ganhou a nomeação democrata.

terça-feira, junho 03, 2008

A língua é nossa


Em termos de petições de defesa da língua, há uma de que sinto especial falta: para que se incluam autores brasileiros (e talvez africanos) no currículo das escolas secundárias portuguesas, da mesma forma que no Brasil se ensinam Eça, Pessoa, Camilo. Isto sempre me envergonha perante amigos brasileiros: se a língua é nossa, por que raio a conhecemos pior do que eles?

Bravo Portugal

Tinha-me passado despercebido. Só hoje reparei neste post do blog do Economist:

sexta-feira, maio 30, 2008

Seleção


Não é patriotismo. É a minha chance de torcer pelo Quaresma.

segunda-feira, maio 12, 2008

Estou encantado com a descoberta de Luiz Tatit. Fui mais que cético assistir ao show na Culturgest, onde aliás não enchíamos meia sala. Esperava um brasileiro meio erudito, meio chato, saiu-me uma espécie de versão paulistana do André Belo. Intelectual, sim (professor na USP), mas com letras muito engraçadas, muito irónicas, em melodias muito simples. Muitas vezes são estórias, com um narrador auto-irónico, e quase parecem música para crianças. Ele não canta, quase não canta, mas a gente acaba por se acostumar. O espectáculo foi um sucesso, e no final houve uma corrida aos cd's que se vendiam na entrada e esgotaram em dez minutos. Os cd's são bons; gosto sobretudo dos dois primeiros. Há tempo que não descobria um entusiasmo assim.

Parvoíces sem p

Assinalando o aniversário do blog de Pacheco Pereira, Vasco Graça Moura insurge-se contra a queda do "p" na palavra "abrupto"; no Ípsilon, João Bonifácio escreve "corruto" assim, e depois explica: "em homenagem ao país irmão optou-se por seguir o acordo [ortográfico]". Mas nem aqui nem no Brasil, nem antes nem depois da nova norma, "abrupto" ou "corrupto" se escrevem sem "p".
O acordo ortográfico tem um alcance frustrantemente modesto. Sobretudo do ponto de vista dos seus detractores.

sábado, maio 10, 2008

Working Class Menace


«I tell you, Frank: there's suddenly something rather menacing about the working class.» Paródia da série britânica Big Train a partir dos Pássaros de Hitchcock.

sexta-feira, maio 09, 2008

Dou-me ao trabalho de escrever estas coisas por imaginar um leitor ideal que seja instigado a ir ver o filme. Mas suspeito que o método do IMDB seja muito mais eficaz.

Plot keywords for California Dreamin' (Nesfarsit) (2007)
* Nudity
* American Dream
* Father Daughter Relationship
* Flashback Sequence
* Anti Americanism
* Title Based On Song
* Bureaucratism
* Train
* War
* Based On True Story
* Title Spoken By Character

quinta-feira, maio 08, 2008


Encontro de culturas


Cristian Nemescu tinha 27 anos, a 24 de Agosto de 2006, quando, estava ele a terminar o seu primeiro filme, se meteu num táxi com o técnico de som: tiveram um acidente e morreram os dois. Califórnia Dreamin’, que ainda está em exibição no King às sextas, sábados e segundas-feiras à meia-noite*, é por isso uma primeira e última obra, e quem a vir perceberá bem a tragédia. Tem marcas de primeiro filme e de filme inacabado; umas e outras não impedem que valha muito a pena vê-lo.
Durante o bombardeamento da NATO à Sérvia na primavera de 1999, um comboio leva armamento militar americano, atravessando a Roménia. Um chefe de estação zeloso de procedimentos burocráticos (e pouco simpatizante dos americanos) manda parar a composição numa pequena vila; obriga a cinco ou seis dias de encontro de culturas, choque de percepções recíprocas, entre os habitantes romenos e as tropas americanas.
O tom é irónico, um pouco melancólico, auto-irónico, mas com passagens líricas (a actriz, Maria Dinulescu, não se presta a menos). Para o ouvido português, neste, como noutros filmes romenos, não passarão desapercebidas as enormes afinidades da língua. Para o olho português, talvez não passem, também, as afinidades de paisagem. Há momentos em que dá vontade de geminar os dois países. Pelo meio da melancolia, há um tom entusiasmante nesta primeira (e última) obra, e os Mamas & Papas cantando Califórnia Dreamin’, sobre o genérico final, devem ter contribuído para a espécie de alegria com que eu saí do filme.

* e no Nimas às sete, todos os dias.

segunda-feira, maio 05, 2008

Neste sentido


Comprei um macbook e confirmo que é bonito, neste sentido: é um computador e não é feio.

quarta-feira, abril 30, 2008

Ressaca moral


(clicar para ler).

quarta-feira, abril 02, 2008

Delinqüente

Nunca pensei envolver-me numa troca de argumentos sobre o acordo ortográfico. Há pessoas muito mais qualificadas do que eu para escrever sobre isso. Mas, uma vez interpelado pelo Frazão, não posso deixar de dizer que acho os argumentos dele surpreendentemente fraquinhos. Que sem «c» em ação e sem «p» em perceção deixamos de saber abrir a vogal anterior? E «inflacionário», como o pronunciará o Frazão? Que, perdendo a referência à origem etimológica, ficamos com situações incongruentes, como «espectador» e «espetáculo»? Há quanto tempo escrevemos «quatro» e «catorze»? Parecendo que não, já se fizeram reformas ortográficas antes, incluindo coisas tão estranhas como a supressão dos acentos nos advérbios de modo – e, ainda assim, sabiamente, toda a gente consegue ler isto. Claro que esta reforma não é perfeita: se fosse a meu gosto, recolocava o trema em «agüentar» e «delinqüente» (que, no entanto, ninguém lê da mesma forma que «quente»). Por fim, o Frazão invoca «as árvores». Suponho que se refira a dicionários e gramáticas que precisam de ser revistos (o resto vai sendo adaptado, e há prazos para isso). Eu também me preocupo com as árvores. Por isso é que praticamente deixei de comprar o Público.

Oblivion's swallowing sea

Não se apoquentem se não perceberem o título. O que conta é o som. Pode ser que seja eu que li pouco, mas achei este parágrafo, com que abre o obituário do Economist da semana passada, sobre o último sobrevivente francês que combateu na I Guerra Mundial, digno do começo de um grande romance. Do resto do texto também gostei muito.

THE business of memory is a solid and solemn thing. Plaques are unveiled on the wall; stone memorials are built in the square; the domed mausoleum rises brick by brick over the city. But the business of memory is also as elusive as water or mist. The yellowing photographs slide to the back of the drawer; the voices fade; and the last rememberers of the dead die in their turn, leaving only what Thomas Hardy called “oblivion's swallowing sea”.
[Continua.]

quarta-feira, março 26, 2008

A selva

Não conheço em pormenor as disposições do acordo ortográfico, de modo que o meu texto, mais do que seguir uma norma, faz uma apropriação um tanto selvagem daquilo que me interessa. A minha brasilofilia é conhecida, e há tempo que eu deixei de usar «p» em ótimo, e retiro com gosto o «c» em fato. A minha mistura de português de Portugal com português do Brasil não é mais que uma pequena utopia pessoal. Mas simpatizo com o acordo: não, como diz o ministro, porque possamos passar a ter «uma língua unificada» (vocês dêem um desconto), mas na medida em que ele adapte algumas coisas que está na hora de serem adaptadas.
Ah: e eu não duvido por um segundo da superioridade do português do Brasil.

terça-feira, março 25, 2008

Honestos falsificadores


Por razões que superam o meu entendimento, a crítica portuguesa (dos jornais que leio, de que de fato são poucos) reagiu com frieza a Os Falsificadores, a fita austríaca que este ano ganhou o Óscar de melhor filme estrangeiro. Trata-se de um filme muito acima da média, a história de um grupo de judeus no campo de concentração que são identificados pelos seus carcereiros como especialmente hábeis na contrafação: são capazes de imitar perfeitamente as notas de libra inglesa, e podem constituir um auxílio muito útil ao esforço de guerra. Em contrapartida, gozam de um tratamento de relativo privilégio, comparado com os outros presos, e têm a sobrevivência mais ou menos garantida. O alcance deste compromisso não é pequeno: se os nazis fossem capazes de falsificar o dólar, isso constituiria para eles, em 1945, uma fonte vital de oxigénio. O filme, que é servido por um ótimo ator (Karl Markovics) no papel do protagonista, coloca-nos pois no centro de um dilema moral: como espectadores, identificamo-nos naturalmente com ele, e por isso desejamos que sobreviva; mas um outro personagem lembra-nos constantemente a implicação disto, em termos de colaboração numa empreitada radicalmente imoral, que inclui o extermínio dos outros judeus. Estamos portanto perante um filme sobre o nazismo e os campos que, longe de nos colocar na posição relativamente confortável de contemplar o mal a partir de fora (com desprezo, com pena, com comiseração), nos coloca numa posição de desconforto moral, de julgamento difícil, de conflito entre instintos emocionais (a empatia com o protagonista) e escolhas racionais (do domínio da abstração).
Que seja ainda possível fazer um filme sobre o nazismo que nos surpreenda, que conte uma história que quase não conhecíamos e nos obrigue a enfrentar o assunto sob um prisma que quase nunca fomos chamados a contemplar, já é bastante bom. Que isso seja servido por uma realização esteticamente «limpa», sem grandes artifícios ou truques sentimentais, e ainda bons atores, é razão mais que suficiente para chamar a atenção. Em Lisboa, Os Falsificadores já só está no Corte Inglês.

terça-feira, março 18, 2008

Lúcida

Um fim-de-semana em cheio para o Irmão Lúcia: um boneco, um teste e uma teoria política.