quarta-feira, março 05, 2008
A política do ui, que medo!
Era uma vez a Hillary Clinton, o Barack Obama e um português. A Hillary acusava o Obama de não saber responder em momentos de crise, de não ter experiência para reagir se o telefone tocasse às três da manhã, enquanto as crianças americanas dormem. O Obama contestava que a Hillary também não tinha muita experiência, e a experiência do marido dela não era a experiência dela. Foram, então, perguntar ao português. Ele respondeu assim:
"Eu lembro-me de uma vez um governador do Banco de Portugal me ter telefonado às duas horas da manhã, para casa, estava eu a dormir perfeitamente, tranquilamente, a dizer: "Mário, é uma desgraça, é uma desgraça, amanhã isto vai quebrar, porque nós passámos à linha vermelha e agora já não temos dinheiro para pagar. Se há uma corrida aos bancos é a bancarrota." E eu respondi-lhe: "Olhe, ó meu caro amigo, o senhor governador faça favor, para a próxima vez, não me acorde às duas da manhã, porque se é a bancarrota eu tenho de estar lúcido amanhã de manhã e, portanto, preciso de dormir agora. Deixe-me lá dormir." Bem, não houve bancarrota. Mas estivemos muito próximo, realmente."
segunda-feira, fevereiro 25, 2008
domingo, fevereiro 17, 2008
Ensaios céticos

[Texto publicado anteontem no suplemento Ípsilon do Público.]
Sobre Eric Hobsbawm, Globalização, democracia e terrorismo, traduzido por Miguel Romeira para a ed. Presença.
Eric J. Hobsbawm é indiscutivelmente um dos maiores historiadores vivos e deve muito desse estatuto a uma tríade de obras de referência sobre o século XIX – Era das Revoluções (1789-1848), Era do Capital (1848-1875) e Era do Império (1875-1914). Já parcialmente retirado da vida académica, escreveu depois um volume sobre o século XX, que obteve também um reconhecimento enorme. Chamou-se Era dos Extremos (1914-1991), mas, apesar do título enganador, não era de forma nenhuma comparável aos livros anteriores: tratava-se agora de um comentário à história do século XX feito por quem o viveu (Hobsbawm nasceu em
Na própria página que abre Era dos Extremos está sublinhado que ninguém pode contar a história do seu tempo como a de séculos passados, e que Hobsbawm não é, nunca foi, um historiador do século XX, mas um especialista no século XIX. Por mais que na bizarra tradução portuguesa a Era dos Extremos tenha tido como subtítulo «breve história do século XX» (trata-se do «breve século XX», e são 600 páginas), o livro não é pois nenhuma síntese, mas uma interpretação do tempo da própria vida. E, quando mais tarde Hobsbawm publicou a sua autobiografia (Tempos Interessantes), fez questão de notar que se tratava do «reverso» de Era dos Extremos. O livro sobre o século XX podia também ser lido como memória, e a autobiografia como uma introdução ao século: foi o próprio Hobsbawm quem o sugeriu.
Se começo por falar de outros livros, e não da colectânea de ensaios que agora tenho em mãos, é que creio que este volume deve ser interpretado no quadro da autobiografia alargada que Hobsbawm tem vindo a escrever nos seus anos de senectude. Os temas que estruturam esta compilação são actuais: «Globalização, democracia e terrorismo» remete para os três grandes chavões do discurso político contemporâneo. Mas o olhar sobre eles é marcado pela experiência e pela nostalgia do século XX. Há um fio que vem de Era dos Extremos e se prolonga, o sentimento de perda de um mundo organizado pela Guerra Fria (um sistema internacional «estável», «ordeiro», «previsível»), uma nostalgia dos anos gloriosos de 1945-1975, em que, enfrentado pela alternativa comunista do Leste, o capitalismo se socializou.
Um dos pilares desta transformação é o declínio do Estado, hoje muitas vezes incapaz de controlar o que se passa no seu interior. A enorme disseminação de armamento ligeiro, que se iniciou com a Guerra Fria e prosseguiu desordenadamente depois do seu fim, é várias vezes mencionada como pondo em causa a ordem estadual. Outro pilar consiste no declínio da disponibilidade dos cidadãos para obedecer – quer no plano mais quotidiano da disposição para cumprir a lei, quer no sentido mais ambicioso, de dar a vida em defesa da pátria. A generalidade dos Estados deixou, segundo o autor, de poder contar com os seus cidadãos para este fim. O recrudescimento de massacres, limpezas étnicas e deslocações forçadas de populações numa escala nunca vista desde o final dos anos 1940 é outro tema recorrente, e que ilustra os inconvenientes trazidos pelo fim da Guerra Fria.
A estratégia do autor é a de encarar os fenómenos contemporâneos com olhos céticos informados pela história. Céticos num duplo sentido: porque a visão de Hobsbawm sobre a evolução do mundo é pessimista, e porque se trata de despir estes chavões da sua carga idealizada e fantasista. Há um capítulo (o terceiro) que discute as diferenças entre o imperialismo como classicamente concebido, no seu apogeu no século XIX, e a actual hegemonia norte-americana – é a parte mais interessante do livro, em que emerge o historiador do século XIX. Outros aspectos, porém, são apenas comentários algo banais à situação do mundo: não precisamos de um historiador para nos dizer que o sonho da exportação militar da democracia é perigoso, ou que a ameaça que o terrorismo islâmico coloca às sociedades ocidentais é relativamente pequena, comparada com os riscos do alarmismo. Concorde-se ou não com estas ideias, elas estão presentes no debate político, e Hobsbawm não acrescenta grande coisa ao que a esquerda geralmente diz sobre o assunto.
Além das saudades do século XX, há uma curiosa nota de conservadorismo moral. Hobsbawm sustenta que assistimos hoje a uma «reversão» do «processo de civilização» que Norbert Elias, num famoso livro de 1939, identificou como vindo desde a Idade Média: uma vasta transformação gradual dos padrões sociais relativos à sexualidade, à alimentação, à violência, à higiene íntima. (Até a forma abstracta como nos referimos a estas coisas demonstra a força da «civilização».) Tratou-se de impor «maneiras», etiqueta, regras de vergonha e de repugnância. Ora, para Hobsbawm, é tudo isto que está em causa com a actual «escalada da violência pública», que concebe em termos muito alargados, associando numa mesma análise fenómenos de violência social e de violência política, incluindo terrorismo, reabilitação da tortura, delinquência juvenil, quebra de regras tradicionais de respeito no interior da família e disseminação da linguagem obscena a todas as classes sociais, e mesmo às mulheres.
Nalguns aspectos deste diagnóstico de «reversão» do processo civilizacional, há um eco do «tudo o que é sagrado é profanado», que Karl Marx celebremente escreveu no Manifesto Comunista, referindo-se à forma como o capitalismo desintegra as velhas convenções sociais. Hobsbawm também faz uma articulação entre a evolução actual da globalização e o declínio do respeito; mas o que em Marx tinha uma tonalidade apesar de tudo positiva – o capitalismo era revolucionário, uma etapa na transição do obscurantismo para o progresso –, aqui não tem mais. Tendo-se perdido o destino último (o comunismo), estes fenómenos são vistos de maneira inteiramente negativa.
No conjunto, estes são ensaios políticos, mais opinativos do que históricos. São testemunho de uma cabeça que aos 90 anos mantém uma atenção assombrosa – e sem nenhum sectarismo ideológico – à bibliografia que vai saindo. A tradução é relativamente fluente, mas acontece tropeçar-se numa palavra absurda ou numa passagem ininteligível. Há erros graves, como chamar à doutrina militar americana «choque e terror», quando é evidente que na retórica antiterrorista «terror» seria sempre palavra banida (é «choque e pavor»). Há também erros divertidos: na p.36, Hobsbawm angustia-se por duas vezes com o destino da «corrida humana» e o perigo da sua extinção. Trata-se, como é evidente, de «human race», essa mesma espécie a que pertenço eu, você leitor e o tradutor do livro, mesmo que momentaneamente ele pareça ter sido tomado pelo espírito de um processador de texto.
domingo, fevereiro 10, 2008
O azulejo explica

O primeiro filme a sério de 2008 é o romeno 4 meses, três semanas e dois dias. Já só está no King (e no Corte Inglês na sessão das sete). Procurem vê-lo.
O filme é sobre o aborto ou sobre Ceasescu? O azulejo explica.
quinta-feira, janeiro 31, 2008
Actualidade política

Um ou outro jornalista tem a amabilidade de me telefonar a pedir que eu fale sobre o novo ministro da Cultura no plano pessoal – peculiaridades, idiossincracias, restaurantes onde gosta de almoçar, livros que lê. Mas há neste exercício uma dimensão sempre mítica, os livros e os filmes e as comidas que hão-de definir aquilo que a pessoa é. Ora, conheço demasiado bem a pessoa, realmente, para poder ter um discurso adequado ao exercício.
quinta-feira, janeiro 03, 2008
A minha passagem de ano
Muito generoso, inteligente e com grande sentido de humor. Basta dar uma volta pelos blogs para ver que toda a gente diz o mesmo sobre o Olímpio, e eu não sei acrescentar nada. Leiam, por exemplo, o José Mário Silva, que o encontrava nos mesmos sítios que eu.
Tive a notícia pelo jornal, duas ou três horas antes da mudança do ano, entre a crónica do Rui Tavares e o anúncio necrológico. Mesmo depois de os ler, demorou uma meia-hora até cair a ficha, perceber que o Olímpio era mesmo o Olímpio. Ao princípio, foi literalmente inconcebível; depois, admiti a ideia, e mais tarde ganhei coragem para falar dela. Houve uma coisa, no entanto, que ajudou a perceber que era ele mesmo: uma linha só, no anúncio do funeral, que sugeria ser ele, porque não se escrevem coisas assim para muita gente.
É banal dizer que é uma morte injusta. Neste caso, provavelmente só os que o tiverem conhecido saberão o que isto significa.
Stumbling and mumbling em Paranoid Park
Voltei a ver Paranoid Park, e ainda gostei mais à segunda. O filme assenta em grande medida sobre uma narração em voz-off, feita pelo protagonista. Acontece que o protagonista é adolescente e, como é comum entre os adolescentes, não tem uma dicção clara. Pelo contrário, as palavras tropeçam, numa mistura entrecortada de sons abruptos e murmúrios. Ler, de qualquer forma, é uma coisa difícil, e as pessoas comuns aprendem a ler bem relativamente tarde. Confiar a narração a um adolescente implica aceitar o risco destes stumbles and mubmles, desta coisa um pouco árida, às vezes um pouco estúpida. A estratégia de Gus van Sant foi levar essa opção até ao fim: na voz que nos apresenta a história e na própria história, que vai atrás e à frente, construindo-se sobre hiatos, à medida que o adolescente reconstrói o que se passou.
quarta-feira, janeiro 02, 2008
Dez filmes de 2007

O filme do ano, e quase me apetecia dizer o único filme do ano, foi Tarantino. Ele faz aquilo que mais ninguém faz. Acção e efeitos especiais lowtech, diálogos sem conteúdo e uma perseguição automóvel final que dura vinte minutos. Foi o mais enjoyable, o mais extremo, o mais divertido; o mais inteligente, chocante e surpreendente também. Tenho a impressão de que começámos a vê-lo como uma diversão de que se conhecem as regras, e depois, passo a passo, as regras vão sendo quebradas, as fronteiras superadas e a gente pergunta-se até onde é que aquilo pode ir. Na sala onde eu estive, o final foi saudado com uma gargalhada: acho que não foi só humor; foi também um riso de tensão, adrenalina libertada. Não houve nada que se chegasse, em 2007, a este filme de duplos e perseguições de automóvel.
Mas Gus van Sant é também um autor muito peculiar. Talvez não se dê suficiente atenção a isso. Digo-o independentemente de se gostar mais de uns filmes do que de outros, e eu sem dúvida gostei muito de Elephant e de Paranoid Park e calhou nem sequer ter visto, por exemplo, Last Days ou Drugstore Cowboy. Em Abril deste ano, completamente por acaso, deparei-me, numa exposição na Cinemateca francesa, com um filme de quarenta minutos, de Alan Clarke, sobre a violência na Irlanda do Norte, realizado no final da década de oitenta. O filme chama-se «Elephant» e a primeira coisa em que se repara, quando se começa a olhar para ele, é que é o «Elephant» de Gus van Sant (de 2003). Van Sant transpôs, não uma história, mas uma maneira de filmar, uma sequência de planos, para um cenário diferente, para um massacre num liceu americano no final dos anos noventa. Este é também o autor que, dez anos atrás, filmou Psico de Hitchcock, repetindo-o, cena por cena. Há um pouco disto tudo
Climas, o turco, talvez pudesse, talvez merecesse, ficar em segundo lugar. É quase cinema mudo.
Clint Eastwood teve uma excelente ideia com os dois filmes sobre a batalha de Iwo Jima. Não desprezando o aspecto visual de Cartas de Iwo Jima, eu acho que o filme a sério é As Bandeiras dos Nossos Pais, em que o realizador trabalha material que conhece e um meio em que sabe mexer-se. Todos os momentos de flashback em Cartas são pavorosos, e toda a construção das personagens japonesas, do ponto de vista das motivações e da sua lógica, é de papelão e inverosímil, o que não acontece com os soldados americanos das Bandeiras. Gostei dos dois, mas o melhor é este.
A fechar a lista um filme francês, uma boa surpresa: lento, demorado, Lady Chatterley mostra coisas quase impossíveis de filmar (a natureza, as borboletas, as flores, a chuva) e com dois grandes actores.
A minha lista de 2007 é então assim:
- Death Proof, de Quentin Tarantino
- Paranoid Park, de Gus Van Sant
- Climas, de Nuri Bilge Ceylan
- Flags of Our Fathers, de Clint Eastwood
- Lady Chatterley, de Pascale Ferran
2007 não dá para dez. Foi fraquinho.
Ainda assim, Torre Bela, o filme de Thomas Harlan sobre a ocupação de uma herdade no Ribatejo durante o PREC, caberia na lista se fosse um filme de 2007. Não é, embora tenha conhecido este ano uma espécie de estreia, com a exibição no cinema King. As razões para o incluir na lista seriam cinematográficas; a Medeia Filmes é que não fez justiça a isso, exibindo-o
Outro filme que podia estar na lista é Retour en Normandie, do realizador de Ser e Ter, em que Nicolas Philibert regressa, trinta anos depois, aos actores e aos lugares de Eu, Pierre Rivière, que degolei a minha mãe, a minha irmã e o meu irmão, feito em 1976 por René Allio, com o próprio Philibert como assistente. O filme não teve, nem terá, estreia comercial; vio-o no DocLisboa. Acho Philibert – um documentarista – um cineasta de mão-cheia, pela capacidade para filmar as pessoas e as ouvir. Se tivesse estreia comercial, seria sem dúvida um dos filmes do ano.
Menções honrosas ainda para As Cartas de Iwo Jima, pelas razões aduzidas, Il Caimano (que, não sendo do melhor Moretti, é ainda assim Moretti) e Rescue Dawn, de Werner Herzog, que é cinema para ver em ecrã grande. 2007 foi um dos raros anos em que, tendo-se estreado um filme de Woody Allen, ele não cabe em qualquer lista de melhores (escrevi sobre ele aqui).
O pior do ano, a uma grande distância de asco, foi A Ponte, um pseudo-documentário que mostra pessoas a saltarem para a morte da Golden Gate Bridge,
Menção
sábado, dezembro 22, 2007
Theo e companhia

Pim Fortuyn (retrato de Jean Thomassen)
[Recensão publicada ontem no suplemento Ípsilon do Público.]
Sobre Ian Buruma, A morte de Theo van Gogh e os limites da tolerância, traduzido por Dalila Coutinho para a ed. Presença.
A 2 de Novembro de 2004, o cineasta Theo Van Gogh foi assassinado a tiro em pleno dia, no meio da rua, por Mohammed Bouyeri, um jovem de 26 anos, filho de imigrantes marroquinos. Depois de o matar, Bouyeri aproximou-se do corpo, rasgou-lhe a garganta com um punhal e deixou-lhe espetada no peito, com uma segunda faca, uma carta aberta com destino a Ayaan Hirsi Ali. Van Gogh e Ali, deputada nascida na Somália, tinham feito pouco tempo antes um pequeno filme de onze minutos, «Submissão», em que excertos do Corão apareciam projectados sobre a pele nua de várias mulheres. Tinham-se tornado nos mais notórios adversários da religião islâmica na Holanda.
O cineasta, a deputada e o homicida são três dos protagonistas deste livro; o quarto é Pim Fortuyn, político ostensivamente gay e ostensivamente anti-imigração, assassinado em 2002 no auge de uma carreira fulgurante que se havia iniciado apenas três anos antes. A morte de Pim Fortuyn, às mãos de um fanático dos direitos dos animais, era precisamente o tema do filme que Van Gogh estava a terminar quando foi morto. Mas as ligações entre Fortuyn e Van Gogh eram anteriores: cada um à sua maneira – um vaidoso da aparência cuidada e kitsch, o outro cultivador do desmazelo – eram dois provocadores que agitavam a «política do consenso» que dominara a Holanda na segunda metade do século XX. Ambos eram estridentes. Ambos eram anti-islâmicos, especialmente por causa da liberdade das mulheres e dos homossexuais. Ambos eram paradoxais. Fortuyn, que desprezava os imigrantes muçulmanos, gabava-se de ter tido relações sexuais com jovens marroquinos; e «fornicadores de cabras» não era, ainda assim, o insulto mais violento que Theo Van Gogh reservava aos praticantes da religião islâmica. Pim Fortuyn era, além disso, católico. Numa entrevista de 1999, afirmou: «Não quero cometer blasfémia, mas devo dizer que nos quartos escuros das discotecas para homens me vem à cabeça a atmosfera da liturgia católica. O quarto escuro que eu frequento em Roterdão não é totalmente escuro. É atravessado por uma luz velada, como numa catedral antiga. Há qualquer coisa de religioso em ter relações sexuais num lugar assim. (…) Um quarto escuro é decididamente excitante do ponto de vista erótico. Mais excitante do que uma igreja? Bem, não me ouvirão dizer isso. Achei bastante excitante ser rapazinho de coro» (p.49). Este é o homem que em 2004 seria eleito «o maior holandês de sempre» (como o nosso Oliveira Salazar) num concurso de televisão.
A morte de Theo van Goghé um livro de retratos: um ensaio no sentido mais preciso do termo, uma tentativa de aproximação. Fragmentário, construído sobre pequenas biografias, com enquadramento histórico e atenção ao estilo literário, não é um livro de tese. Discute questões políticas e filosóficas à medida da reportagem, mas não procura enformar aquilo que conta dentro de uma tese política muito definida: as reportagens nunca são meras «ilustrações» das ideias. Um dos grandes recursos de Buruma é a sua aptidão para pintar um retrato sociológico, para fazer uma caracterização traçando rapidamente um meio e uma genealogia. Mostra como o fenómeno Pim Fortuyn nasceu da crise da «política do consenso»; esboça o enquadramento ideológico e familiar de Theo van Gogh; descreve os «gastarbeiter» marroquinos – berberes, oriundos das montanhas remotas do Rif, não árabes – que emigraram para a Holanda e entre os quais nasceu Mohammed Bouyeri; conta o fascínio de Hirsi Ali com à sua chegada à Holanda, e a subsequente desilusão com uma sociedade que ela acha que cobardemente não enfrenta o extremismo islâmico. Este é também um livro atento à especificidade concreta de um país, e que foge a grandes proclamações sobre o Ocidente, o Islão, as «civilizações».
Buruma trata com nuances as recentes deslocações de fronteiras entre esquerda e direita sobre as questões do relativismo. Políticos conservadores reclamam-se dos valores do Iluminismo, mas esta linhagem é problemática. A iconoclastia que era característica dos pioneiros do Iluminismo – um Voltaire, tanto quanto um Marquês de Sade – não se encontra nos seus herdeiros recentes. «Os ícones sagrados da sociedade holandesa foram derrubados na década de 60 do século XX, tal como um pouco por todo o mundo ocidental, quando as igrejas perderam o controlo sobre as vidas das pessoas, quando a autoridade governamental era algo a desafiar, não a obedecer, quando os tabus sexuais eram rompidos em público e em privado, e quando – muito em linha com o Iluminismo original – as pessoas abriram os seus olhos e ouvidos a civilizações fora do Ocidente. (…) O apelo conservador aos valores do Iluminismo é, em parte, uma revolta contra uma revolta. Para muitos conservadores, a tolerância foi longe demais» (pp.32-33).
Ian Buruma é uma espécie de holandês. Nasceu em Haia em 1951, viveu lá até 1975, mas tem raízes cosmopolitas: de mãe inglesa, é sobrinho do cineasta John Schlesinger (o realizador de Cowboy da Meia-Noite ou O Homem da Maratona), com quem publicou recentemente um livro de entrevistas. Em jovem, viveu no Japão, país sobre o qual escreveu muito. Buruma é um escritor, mas não predominantemente de romances (tem apenas uma obra de ficção publicada); dá aulas numa universidade norte-americana, mas não é exactamente um académico. Escreve sobre uma grande variedade de temas, incluindo cinema, nos jornais mais famosos do mundo. A qualidade deste pequeno livro de Buruma está na hibridez do estilo – aquilo a que chamamos jornalismo.
Tudo isto merecia uma capa mais bonita e um título menos estrepitoso, uma subtileza mais literária, do que os da edição portuguesa. No original, uma pequena bicicleta caída sobre o fundo branco da capa evoca a bicicleta de Theo Van Gogh tombada na neve. O título – Murder in Amsterdam – é genérico e literário. Na versão portuguesa transforma-se num volume com ar descartável, colado à actualidade, de capa feia e título ligeiramente sensacionalista.
A tradução, não sendo má, precisaria de uma revisão que lhe limpasse alguns erros. Não lembra ao diabo traduzir filosofias «New Age» como «Nova Era» (p.85), mas o que é mesmo grave é confundir o Partido Nacional-Socialista Holandês (NSB, a formação nazi dos anos 1930 e 1940) com o Partido Socialista (p.67).