sábado, dezembro 22, 2007

Theo e companhia


Pim Fortuyn (retrato de Jean Thomassen)

[Recensão publicada ontem no suplemento Ípsilon do Público.]

Sobre Ian Buruma, A morte de Theo van Gogh e os limites da tolerância, traduzido por Dalila Coutinho para a ed. Presença.


A 2 de Novembro de 2004, o cineasta Theo Van Gogh foi assassinado a tiro em pleno dia, no meio da rua, por Mohammed Bouyeri, um jovem de 26 anos, filho de imigrantes marroquinos. Depois de o matar, Bouyeri aproximou-se do corpo, rasgou-lhe a garganta com um punhal e deixou-lhe espetada no peito, com uma segunda faca, uma carta aberta com destino a Ayaan Hirsi Ali. Van Gogh e Ali, deputada nascida na Somália, tinham feito pouco tempo antes um pequeno filme de onze minutos, «Submissão», em que excertos do Corão apareciam projectados sobre a pele nua de várias mulheres. Tinham-se tornado nos mais notórios adversários da religião islâmica na Holanda.

O cineasta, a deputada e o homicida são três dos protagonistas deste livro; o quarto é Pim Fortuyn, político ostensivamente gay e ostensivamente anti-imigração, assassinado em 2002 no auge de uma carreira fulgurante que se havia iniciado apenas três anos antes. A morte de Pim Fortuyn, às mãos de um fanático dos direitos dos animais, era precisamente o tema do filme que Van Gogh estava a terminar quando foi morto. Mas as ligações entre Fortuyn e Van Gogh eram anteriores: cada um à sua maneira – um vaidoso da aparência cuidada e kitsch, o outro cultivador do desmazelo – eram dois provocadores que agitavam a «política do consenso» que dominara a Holanda na segunda metade do século XX. Ambos eram estridentes. Ambos eram anti-islâmicos, especialmente por causa da liberdade das mulheres e dos homossexuais. Ambos eram paradoxais. Fortuyn, que desprezava os imigrantes muçulmanos, gabava-se de ter tido relações sexuais com jovens marroquinos; e «fornicadores de cabras» não era, ainda assim, o insulto mais violento que Theo Van Gogh reservava aos praticantes da religião islâmica. Pim Fortuyn era, além disso, católico. Numa entrevista de 1999, afirmou: «Não quero cometer blasfémia, mas devo dizer que nos quartos escuros das discotecas para homens me vem à cabeça a atmosfera da liturgia católica. O quarto escuro que eu frequento em Roterdão não é totalmente escuro. É atravessado por uma luz velada, como numa catedral antiga. Há qualquer coisa de religioso em ter relações sexuais num lugar assim. (…) Um quarto escuro é decididamente excitante do ponto de vista erótico. Mais excitante do que uma igreja? Bem, não me ouvirão dizer isso. Achei bastante excitante ser rapazinho de coro» (p.49). Este é o homem que em 2004 seria eleito «o maior holandês de sempre» (como o nosso Oliveira Salazar) num concurso de televisão.

A morte de Theo van Goghé um livro de retratos: um ensaio no sentido mais preciso do termo, uma tentativa de aproximação. Fragmentário, construído sobre pequenas biografias, com enquadramento histórico e atenção ao estilo literário, não é um livro de tese. Discute questões políticas e filosóficas à medida da reportagem, mas não procura enformar aquilo que conta dentro de uma tese política muito definida: as reportagens nunca são meras «ilustrações» das ideias. Um dos grandes recursos de Buruma é a sua aptidão para pintar um retrato sociológico, para fazer uma caracterização traçando rapidamente um meio e uma genealogia. Mostra como o fenómeno Pim Fortuyn nasceu da crise da «política do consenso»; esboça o enquadramento ideológico e familiar de Theo van Gogh; descreve os «gastarbeiter» marroquinos – berberes, oriundos das montanhas remotas do Rif, não árabes – que emigraram para a Holanda e entre os quais nasceu Mohammed Bouyeri; conta o fascínio de Hirsi Ali com à sua chegada à Holanda, e a subsequente desilusão com uma sociedade que ela acha que cobardemente não enfrenta o extremismo islâmico. Este é também um livro atento à especificidade concreta de um país, e que foge a grandes proclamações sobre o Ocidente, o Islão, as «civilizações».

Buruma trata com nuances as recentes deslocações de fronteiras entre esquerda e direita sobre as questões do relativismo. Políticos conservadores reclamam-se dos valores do Iluminismo, mas esta linhagem é problemática. A iconoclastia que era característica dos pioneiros do Iluminismo – um Voltaire, tanto quanto um Marquês de Sade – não se encontra nos seus herdeiros recentes. «Os ícones sagrados da sociedade holandesa foram derrubados na década de 60 do século XX, tal como um pouco por todo o mundo ocidental, quando as igrejas perderam o controlo sobre as vidas das pessoas, quando a autoridade governamental era algo a desafiar, não a obedecer, quando os tabus sexuais eram rompidos em público e em privado, e quando – muito em linha com o Iluminismo original – as pessoas abriram os seus olhos e ouvidos a civilizações fora do Ocidente. (…) O apelo conservador aos valores do Iluminismo é, em parte, uma revolta contra uma revolta. Para muitos conservadores, a tolerância foi longe demais» (pp.32-33).

Ian Buruma é uma espécie de holandês. Nasceu em Haia em 1951, viveu lá até 1975, mas tem raízes cosmopolitas: de mãe inglesa, é sobrinho do cineasta John Schlesinger (o realizador de Cowboy da Meia-Noite ou O Homem da Maratona), com quem publicou recentemente um livro de entrevistas. Em jovem, viveu no Japão, país sobre o qual escreveu muito. Buruma é um escritor, mas não predominantemente de romances (tem apenas uma obra de ficção publicada); dá aulas numa universidade norte-americana, mas não é exactamente um académico. Escreve sobre uma grande variedade de temas, incluindo cinema, nos jornais mais famosos do mundo. A qualidade deste pequeno livro de Buruma está na hibridez do estilo – aquilo a que chamamos jornalismo.

Tudo isto merecia uma capa mais bonita e um título menos estrepitoso, uma subtileza mais literária, do que os da edição portuguesa. No original, uma pequena bicicleta caída sobre o fundo branco da capa evoca a bicicleta de Theo Van Gogh tombada na neve. O título – Murder in Amsterdam – é genérico e literário. Na versão portuguesa transforma-se num volume com ar descartável, colado à actualidade, de capa feia e título ligeiramente sensacionalista.

A tradução, não sendo má, precisaria de uma revisão que lhe limpasse alguns erros. Não lembra ao diabo traduzir filosofias «New Age» como «Nova Era» (p.85), mas o que é mesmo grave é confundir o Partido Nacional-Socialista Holandês (NSB, a formação nazi dos anos 1930 e 1940) com o Partido Socialista (p.67).

segunda-feira, dezembro 10, 2007

Qual foi o melhor livro que leu este ano?
Foi Assim, de Zita Seabra
Bilhete de Identidade, de Maria Filomena Monica
Eu, Carolina, de Carolina Salgado
pollcode.com free polls

sexta-feira, dezembro 07, 2007

Neil Jordan



Eu não gostei de Jogo de Lágrimas e também não gostei de A Estranha em Mim por aí além. Mas eu gostar ou não gostar interessa pouco. O que me parece é que A Estranha em Mim tem inscrito em letras grandes que é produto da mesma mão que fez Jogo de Lágrimas. São filmes não apenas cheios de implicações morais, mas de interpelações morais ao espectador. São filmes com uma tonalidade sentimental carregada (que é do que eu gosto menos, mas lhes é intrínseco). São ambos filmes violentos, intensos, cujo formato de base (se a memória não me falha quanto a Jogo de Lágrimas) é o thriller. São filmes em que os «inimigos» - os protagonistas, que se encontram em lados opostos de uma fronteira moral, que aliás lhes é vital - são inimigos íntimos: Terrence Howard e Jodie Foster, Stephen Rea e Forest Whitaker. (São filmes em que um dos protagonistas é preto.) O facto de serem protagonizados por inimigos íntimos intensifica e humaniza o conflito moral que está a desenrolar-se, porque os espectadores são colocados dos dois lados da fronteira: os próprios protagonistas são tão próximos um do outro que parecem poder mudar de lado (embora, insisto, abracem vitalmente o lado que é o seu).
E, enfim, também são filmes muito eficazes, bem feitos, dentro de uma concepção perfeitamente mainstream e hollywoodesca. A Estranha em Mim tem inclusivamente alguns achados narrativos, como colocar o polícia Terrence Howard sistematicamente atascado em engarrafamentos de trânsito.

domingo, novembro 25, 2007

Alvalade XXI


A sala de cinema Raj Mandir, em Jaipur, no Rajastão, com 1200 lugares, e um foyer que só visto

Talvez uma das razões para a exuberância e romantismo kitsch dos filmes de Bollywood seja que, na Índia, ir ao cinema ainda é uma actividade social e uma actividade de massas.
Ultimamente, uma grande parte dos filmes que estreiam por cá parecem sitcoms ou jogos de computador.

A juntar a todas as outras coisas boas que há no Estádio de Alvalade, o cinema tem agora uma «sala Bollywood».

Stanley Cavell

Sou a pessoa que eu conheço menos capaz de ver um filme em dvd do princípio ao fim. Deve ter alguma coisa que ver com isto:
One of the things about film is the gigantism of the images, which dwarf you, which infantilize you, which make you speechless.

quinta-feira, novembro 15, 2007

Ui! E como rimos!

A crónica das amenidades trocadas entre Ana Gomes e Miguel Portas nos corredores do Parlamento Europeu não tem a gentlemanship das aventuras de João Carlos Espada nos clubs de Oxford. Em contrapartida, há já nelas uma promessa de encanto plebeu que merece ser acarinhada:

Ontem, enquanto votavamos no plenário do PE, onde agora somos vizinhos, demarcando onde acaba o PSE e começa o GUE na nossa fila, o Miguel Portas avisou-me que se tinha “metido comigo” no blogue. Rimos quando lhe ripostei: “era o que tu querias, que eu te desse trela...”.

A graça! O chiste! Encore un effort!

quarta-feira, novembro 14, 2007

A biologia

«No caso do PCP, só a biologia impediu que tenha a mesma direcção de 1941.»
[Rui Ramos, na crónica de hoje no Público.]

quarta-feira, novembro 07, 2007

A linha

Tenho isto aqui há uma semana, à espera que alguém pergunte.
A 5ª frase completa da pág.161 do livro que tenho mais à mão.

«Internally, Germany has a good deal in common with a Socialist state.»


[O ensaio em questão é «The Lion and the Unicorn: Socialism and the English genius», de 1940. A Alemanha a que se refere é a Alemanha nazi].

Gostava de saber qual é o livro que neste preciso momento têm mais à mão Pedro Ornelas, Penélope Cruz, Quentin Tarantino, Medeiros Ferreira e Iga A. (esta vai sem link porque há crianças a ver).