quinta-feira, agosto 02, 2007

Bergman (2)


Foto AFP, publicada no International Herald Tribune

Deve ser extraordinariamente difícil escrever um bom obituário de Bergman. Li duas mãos-cheias, e as pequenas histórias revelam de menos, os detalhes são um tanto banais, e dois ou três adjectivos têm dificuldade em sintetizar um filme. Comecei por encarar com cepticismo o obituário do Economist (hoje online), que opta por um tom diferente, quase em espelho relativamente ao tom de Bergman. But it grows on you. Gostei deste parágrafo e resolvi traduzi-lo.

«No Inverno sueco, não havia sol. Uma luz cinzenta e baça surgia das nuvens, sem criar quaisquer sombras. As mudanças subtis de luz extasiavam Bergman, que decidiu que o filme inteiro devia ser iluminado assim. A luz forte, pelo contrário, era a dos seus pesadelos. Nos filmes, um súbito clarão pálido – de uma luz nua, de uma rua vazia – marcava habitualmente a entrada na psicose. (…) Bergman precisava de nuvens, de árvores e de cortinas de rede a velar a luz, a suavizá-la e a fazê-la mexer-se. Precisava de que a luz mudasse pouco e devagar: cintilando e desaparecendo num candeeiro de petróleo, ou escurecendo com extraordinária lentidão sobre um rosto (como escurecia sobre a cara de Liv Ullmann em Persona) até ficar apenas uma silhueta.» [continua.]

Passatempo de Verão

Estou a tentar fazer uma lista de dez filmes sobre o casamento. Como na blogosfera há muita gente que gosta de filmes, e que gosta de listas, resolvi pedir ajuda. O meu principal problema é que não conheço muitas coisas, inclusivamente entre aquelas que seriam, com toda a probabilidade, escolhas óbvias (Cukor, Lubitsch, Leo McCarey, Howard Hawks): preciso de conselhos. Além disso, há realizadores de que gosto muito e que talvez tenham alguma coisa adaptável - mas não me ocorre. Um Hitchcock? Um Rohmer? Mesmo um Ford? Conselhos são bem-vindos, para o email: teguivel@gmail.com.

Dez possíveis:

Family man, de Brett Ratner, 2000.

Eyes wide shut, de Stanley Kubrick, 1999.

Quatro casamentos e um funeral, de Mike Newell, 1994.

O inferno, de Claude Chabrol, 1994.

Maridos e mulheres, de Woody Allen, 1993.

Ata-me, de Pedro Almodóvar, 1990.

Cenas da vida conjugal, de Ingmar Bergman, 1973.

An affair to remember, de Leo McCarey, 1957.

O pecado mora ao lado, de Billy Wilder, 1955.

A Costela de Adão, de George Cukor, 1949.

Maridos e Mulheres, Eyes Wide Shut e O pecado mora ao lado (que no original se chama The seven year itch, uma certa comichão que aparece ao fim de sete anos de casamento) são indiscutíveis e não precisam de ser explicados. Cenas da Vida Conjugal suponho que também seja, embora nunca o tenha visto. Quatro casamentos e um funeral dificilmente ficará de fora, porque sempre gostei desse filme e, realmente, inaugurou uma espécie de género. (Há sobretudo a cena do funeral com poema de Auden e a cena final do não-casamento.) Também Ata-me não ficará de fora, o filme em que Antonio Banderas, depois de sair de um asilo de malucos, rapta uma actriz porno (Victoria Abril) e ata-a até que ela se decida a gostar dele – isto, para mim, é o filme sobre o casamento (e acaba bem). Temos seis.

Tenho alguma curiosidade sobre Family Man, com Nicolas Cage, em que ele é levado a contemplar duas versões da sua vida: se se tivesse casado, e se não se tivesse casado. Também nunca vi A Costela de Adão, e pode perfeitamente ser que outro filme de Cukor seja mais adequado (Philadelphia Story [1940]? A bill of divorcement [1932]? It should happen to you [1954]?). O mesmo se diga de Leo McCarey: tenho uma muito vaga ideia de An affair to remember (1957). Será preferível Lua sem mel [1942]? Ou Love affair [1939]? Se for uma comédia romântica + um Cukor + um Leo McCarey, ficamos com nove.

Vi e gostei do Inferno do Chabrol (com Emmanuelle Béart em todo o seu esplendor), mas não é indiscutível.

Outras hipóteses:

Casamento à italiana, Vittorio de Sica, 1964.

An ideal husband, Oliver Parker, 1999. Não conheço, mas sempre é uma adaptação de Oscar Wilde.

Crueldade Intolerável, que é divertido mas não está entre os melhores dos Coen, 2003.

A history of violence, David Cronenberg, que a minha irmã diz que é sobre o casamento (Maria Bello subitamente descobre que nada sabe sobre o cônjuge).

I love you to death, Lawrence Kasdan, 1990. Uma esposa e uma sogra italo-americanas encomendam a morte do marido, por conta das suas infidelidades. Muito divertido.

Bringing up baby (1938) ou A girl in every port (1928), de Howard Hawks.

The marriage circle (1924), de Lubitsch.

Salaam-e-ishq, Nikhil Advani, 2007. Uma espécie de Love Actually indiano, não é exactamente sobre o casamento. Óptimo nas coreografias e nas músicas.

segunda-feira, julho 30, 2007

Ingmar Bergman, 1918-2007


Verão com Mónica, 1952

Bergman morreu esta madrugada. Não pretendo aborrecer-vos com as minhas opiniões sobre o assunto, tanto mais que qualquer pessoa com um vago interesse por cinema conhece pelo menos um filme do realizador, e sentir-se-á autorizado ou talvez mesmo compelido a falar. O meu conhecimento é errático e superficial. Mas, mesmo a um olhar errático e superficial, uma coisa salta à vista. Os filmes de Bergman são diferentes dos de todos os outros génios, dos Chaplin, dos Hitchcock, dos Billy Wilder, dos Ford, mesmo dos alemães como Murnau ou dos nórdicos como Dreyer. Estão, por assim dizer, numa categoria à parte. Outro dia, na bilheteira da Cinemateca, uma senhora perguntava «quantos Bergmans ainda vão passar?» (no contexto do pequeno ciclo sobre Harriet Anderson) (por acaso, já tinham passado todos), e havia no tom (leigo) da pergunta um sinal deste reconhecimento. Bergman, de quem se falava em Lisboa na semana antes de ele morrer, estava também certamente (e ao acaso) noutras conversas de outras pessoas noutras partes do mundo, nesta semana como noutras, quaisquer semanas, como se ele estivesse (está) sempre presente por toda a parte.
Suponho que este carácter distintivo tem a ver com a forma como explora os indivíduos, como os filma, como «mostra» as suas implicações psicológicas sem as explicar. Talvez seja esta maneira de mostrar dimensões psicológicas - ao mesmo tempo tão próximas e tão insondáveis (que não são explicáveis por uma racionalidade abstracta, e ao mesmo tempo parece que as percebemos muito bem) -, talvez seja por isso que quis ver um tom especial na pergunta da senhora. «Quantos Bergmans ainda vão passar neste ciclo?» O olhar de Bergman tê-la-á implicado a ela especialmente, como me implicou a mim, e a gerações de permeio e daqui para a frente.
Vi alguns filmes, no final da adolescência, aí pelos dezoito anos: já não recordo bem quais, tenho disso uma lembrança difusa. Só dois filmes têm imagens muito claras na minha cabeça: Verão com Mónica (gosto mais deste título, o original, do que do explicativo Mónica e o Desejo das traduções) e Fanny e Alexander. Todos estivemos apaixonados pela Mónica, como dizia há dias o Bénard da Costa (certamente sem nenhuma originalidade), e estivemos apaixonados por ela de uma maneira diferente das outras paixões por actrizes/ personagens de cinema. Mas o mais forte, para mim o mais completo, é Fanny e Alexander, a história de família, o último antes de Bergman ter voltado a pegar na câmara, vinte anos depois, para fazer Saraband.

(E peço muita desculpa, que isto está cheio de opiniões.)

terça-feira, julho 24, 2007

Sábado, 19h30

windermere.jpg

Para quem esteja em Lisboa (e porquê sair, se este ano não há Verão) não é de perder, no Sábado, na Cinemateca (19h30, sala pequena), O Leque de Lady Windermere, adaptação de Oscar Wilde por Lubitsch. Quem não vir talvez não acredite que é possível adaptar em mudo o mestre do epigrama e não perder nada - da inteligência, do cepticismo, da empatia. (Costuma dizer-se do cinismo, mas não é justo. É uma história com uma heroína.)

sexta-feira, julho 20, 2007

Elogio de Manuel Monteiro

Está por prestar, parece-me, a justa homenagem a Manuel Monteiro, cidadão exemplar e até ímpar. Não me recordo de outro político de primeira linha (seis anos, salvo erro, seguidos à frente de um dos partidos históricos) que, caído na irrelevância, tenha prosseguido a sua actividade política como se nada fosse: campanha após campanha, semana após semana, petição após petição. Monteiro prossegue, com o mesmo tom e o mesmo sorriso, ainda que não tenha partido, nem apoiantes, nem dinheiro, nem propriamente uma causa ou ideias persistentes. Não se imagina o que ganhe; e no entanto persiste. Numa era de abstenção galopante e demissionismo cívico, é um modelo esquecido, o último ateniense entre os vivos.

Para dizer que

Hoje escreve no Público, na secção de livros, Luís Miguel Queirós, sobre os poemas ingleses de Fernando Pessoa. Como sempre, por si só justifica o €1,25 do preço de capa.

sexta-feira, julho 06, 2007

Cinema & pipocas


Começou esta semana na Cinemateca, e vai prolongar-se por todo o mês de Julho, um ciclo dedicado ao cinema de Bollywood («um país, um género: a Índia e o musical», às 15h30). Abriu com Aan - prestígio real, de 1951, filme que era acompanhado de uma folha enfática, entusiástica e, no geral, interessante de Antonio Rodrigues. Aan foi, ao que parece, um estrondoso sucesso comercial em Portugal à data de estreia: quatro meses seguidos em cartaz. O que a folha da Cinemateca não explica é por que razão este filme em particular obteve em Portugal tanto sucesso. Como se via Aan aqui nos anos cinquenta? Que ingredientes tinha o filme que encontraram eco no público português, de uma forma praticamente única em toda a história do cinema indiano?
De resto, o problema do contexto levanta outra pergunta. O cinema na Índia é uma actividade convivial, de grupo, com interrupções, entradas e saídas da sala, palmas, conversa, comida. Na Cinemateca sentamo-nos ordeiramente e sem intervalo. Vamos conseguir ver Bollywood assim?

Nem tudo é doce no maquiavelismo

[publicado no Monde Diplomatique – edição portuguesa, de Julho.]

Álvaro Cunhal e a dissidência da terceira via

Raimundo Narciso

Ed. Âmbar, Porto, 2007, 197 pp.

Quase duas décadas passadas, Raimundo Narciso conta a história do grupo que dissidiu do PCP em 1988-1991: é essa a «terceira via» a que o título se refere – confusamente, uma vez que, a partir de meados da década de noventa, Tony Blair popularizou a mesma designação num sentido totalmente distinto. O livro acrescenta alguma coisa do ponto de vista do detalhe histórico: a passagem mais viva é aquela em que Raimundo Narciso se descobre perseguido por espiões do próprio partido, numa noite de 1988, enquanto se dirigia a uma reunião «fraccionista». No que o livro é manifestamente insatisfatório é no plano da reflexão política. Por um lado (tal como o próprio grupo), apresenta a dissidência como tendo motivações «procedimentais» (falta de democracia interna, etc); mas, enquanto esteve de acordo com a linha política, Narciso (como ele próprio, honestamente, anota) nunca se incomodou com os procedimentos. Já quanto às razões políticas de fundo, elas são apresentadas sob a forma de uma desadequação da linha do partido à «realidade», evidência demonstrada na incompatibilidade com a «perestroika» (que dominava a URSS neste período, e até à sua extinção) e pela incapacidade do PCP, em Portugal, para influenciar directamente a esfera do poder político.
Sobre a cabeça dos militantes então «críticos» (depois dissidentes) pairava a acusação de aproximação ao PS – acusação que, no universo do PCP, se reveste de conotações que chegam a ser mais morais que políticas. O fantasma ainda paira sobre o livro, até porque Raimundo Narciso e outros (Pina Moura, Mário Lino, José Luís Judas, o falecido Barros Moura) efectivamente aderiram ao PS ao longo dos anos seguintes. Mas a resposta de Narciso é hoje a que era naquele tempo: que se trata de um processo de intenções, que o projecto não existia, etc. Em certa medida, tudo continua a colocar-se em termos de intenção, de dolo, de culpa. O que escapa ao seu discurso (como já então escapava) é saber que projecto político tinham os «críticos» que não fosse – rigorosamente – o mesmo que o PS já prosseguia. Que linha política propunham para o PCP que não fosse a adesão ao PS? Sobre esta questão o texto é omisso; e, se ela se punha na época, a passagem do tempo não fez senão reforçá-la. O que queriam os «críticos»? O que queria, ao menos, Raimundo Narciso?

Salva-se do livro a honestidade (às vezes, impressionante) do testemunho, o depoimento sobre a experiência da ruptura após uma vida de sacrifício pessoal (sacrifício que, com assinalável modéstia, Narciso nunca enfatiza), a documentação de alguns episódios e o sentido de humor.

«A análise da situação política trouxe as novidades do costume. A situação da economia piorou, a vida dos trabalhadores agravou-se, o isolamento do Governo cresceu e as análises políticas de Cunhal, ou do partido, confirmavam-se inteiramente como se ‘previra e prevenira’. Salvo nuances e as circunstâncias de cada momento a análise era esta desde que o PCP deixou de participar no Governo em 1976 e estava ‘correctíssima’. A situação económica do país, de acordo com as análises de Cunhal e Carlos Costa, baseadas no trabalho da Comissão de Actividades Económicas que Carlos Carvalhas condimentava ao gosto do sexto andar [direcção] antes de lhas transmitir, piorava sempre, sempre, dia após dia, mês após mês, ano após ano, sem intervalo, nem fôlego. Abismávamo-nos com os abismos em que já estaria o país, felizmente sem que os Portugueses tivessem dado por isso.» [p.81]

Não se salva a qualidade da edição – mal revista, mal pontuada, com fotografias de péssima impressão, e isto num livro que traz vinte euros como preço de capa. Lido com atenção, transpira nele uma certa ambivalência de Raimundo Narciso sobre os métodos de Cunhal e do PCP, entre a rejeição e a simpatia por uma certa eficácia, um certo maquiavelismo. Hélas, na ausência de uma linha política, a eficácia é sempre o único critério que resta.

quarta-feira, julho 04, 2007

Back in 2003

Aliás, foi ontem.

Brzezinski


Na Câmara Corporativa, o vídeo de uma apresentadora de televisão que se recusa – em directo – a abrir o noticiário com uma história sobre Paris Hilton. O programa é o informativo da manhã do canal MNSBC de 26 de Junho deste ano. Quando a produção volta a pôr-lhe nas mãos o mesmo texto, ela sai e vai destruí-lo numa daquelas máquinas de desfazer papel. Há uma curiosidade adicional: Mika Brzezinski, a jornalista, é filha do antigo Conselheiro Nacional de Segurança dos EUA (durante a presidência de Jimmy Carter) Zbigniew Brzezinski, que continua a ser um dos especialistas norte-americanos mais relevantes em política internacional do campo «Democrata».