terça-feira, junho 19, 2007

Tesourinhos deprimentes: «isto é uma mais-valia»


Helena Roseta a celebrar o Santo António, que já tinha celebrado ontem. Isto chegou-me por email.

Isto demora


Marina Hands, em quem toda a gente reparou

A adaptação francesa de O Amante de Lady Chatterley, que se estreou há dias, merece a atenção que se lhe tem estado a dar. A primeira coisa que me surpreendeu foi a forma como é filmada a natureza: flores, plantas, chuva, talvez insectos e bichos (não me lembro). É uma maneira muito incomum, porque geralmente tem-se demasiado medo de ser piroso. Mas a cineasta francesa capta com muita justeza a concepção «quase panteísta» (a expressão é do Mexia, no ípsilon de sexta) presente naquele amor, a forma como o deslumbramento amoroso dos dois é intrinsecamente sexual, portanto físico, portanto em comunhão com a natureza.

A segunda coisa é a relação entre os protagonistas, amantes, a forma como evolui. O filme é longo: tem mais de duas horas e meia. Mas é longo porque é lento, e é lento porque a lentidão faz falta ao desenvolvimento da relação entre as duas personagens: uma relação em que muitas coisas se passam sem serem ditas. Imagino que fosse possível fazer avançar a «acção» mais depressa se mais coisas fossem postas em palavras; mas, para que aquele amor funcionasse, era importante que as coisas fossem sobretudo mostradas, vistas, não-ditas. Se o filme é longo, é por uma boa razão: parece-me merecedor dos muitos elogios e prémios que tem recebido.

segunda-feira, junho 18, 2007

Uma forma de batota

Duas ou três semanas atrás, eu comprei o Público, como faço aos sábados e apenas aos sábados. Mas, nesse dia, o artigo mais interessante não era a crónica do Mexia nem o texto do Pacheco Pereira, como costuma ser, e sim uma entrevista no P2 com um psicólogo de Harvard sobre o mais improvável dos assuntos: a felicidade. Dava-se a circunstância de nessa mesma semana o dito psicólogo (Daniel Gilbert) vir a Lisboa, à Culturgest, falar sobre o tema, no âmbito de um seminário sobre A busca da felicidade. Registei na agenda.

E foi, de facto, um excelente seminário, bem organizado, com uma série de oradores de topo na matéria em questão. A conferência de Daniel Gilbert foi, muito simplesmente, a conferência mais estimulante, divertida, entretinente a que eu alguma vez assisti: uma hora como se fosse um concerto de música pop, e realmente havia qualquer coisa de pop na personagem. O livro, que encomendei na amazon, chegou hoje. Li até agora apenas o prefácio: todas as frases são divertidas, o que por outro lado, de certa maneira, até aborrece. Sinto-me incapaz de elaborar juízos críticos, literalmente subornado pelo sentido de humor.

Também já está à venda na fnac, no original, e até com uma tradução portuguesa.

quinta-feira, junho 14, 2007

Orquídea selvagem

[ou Let's start a magazine]

Gostei realmente muito do texto autobiográfico de Rorty, de tal forma que me apeteceu traduzi-lo. Mas seria preciso fundar uma revista para o publicar, e isso é que já dá mais trabalho.

I am sometimes told, by critics from both ends of the political spectrum, that my views are so weird as to be merely frivolous. They suspect that I will say anything to get a gasp, that I am just amusing myself by contradicting everybody else. This hurts. So I have tried, in what follows, to say something about how I got into my present position - how I got into philosophy, and then found myself unable to use philosophy for the purpose I had originally had in mind. Perhaps this bit of autobiography will make clear that, even if my views about the relation of philosophy and politics are odd, they were not adopted for frivolous reasons. [continua.]

quarta-feira, junho 13, 2007

Assim foi Gena Rowlands


Uma resposta sombria a E Deus Criou a Mulher. O que Deus faz, Deus desfaz.

Hollywood


Na versão de Hollywood do blog Estado Civil, Ryan Gosling fará o protagonista.

terça-feira, junho 12, 2007

Rorty, da ironia


Não foi pelos jornais, mas pelo Rui Tavares que me dei conta da morte de Richard Rorty, filósofo americano, pragmatista, aqui há dias. O Guardian traz hoje um excelente obituário.


Rorty certainly delighted in being provocative, even claiming that, despite George Orwell's famous "freedom is the freedom to say 2 + 2 = 4", the only real problem with Winston (in Nineteen Eighty-Four) coming to believe that 2 + 2 = 5 is that the belief is induced by torture, truth being irrelevant.


Também gostei muito de uma carta de um leitor que aparece no blog de Andrew Sullivan, estabelecendo afinidades entre Rorty (um social-democrata) e o conservadorismo de Oakeshott.


For most on the right, Rorty is merely a symbol of the country's slow slide into post-modernism and relativism. You avoid that stupid sticky brush, but still do not give him enough credit. Your political conclusions may have differed, but your underlying commitments are very much the same. Rorty was a progressive and a liberal, but he was your kind of liberal.


O texto do Los Angeles Times tem um tom amargo, mas inclui esta definição:

Rorty had an astonishing combination of cynicism and idealism, a quality he called «irony».

Pelo aspecto pessoal, vale a pena ler a nota de Habermas.

I received the news in an email almost exactly a year ago. As so often in recent years, Rorty voiced his resignation at the "war president" Bush, whose policies deeply aggrieved him, the patriot who had always sought to "achieve" his country. After three or four paragraphs of sarcastic analysis came the unexpected sentence: "Alas, I have come down with the same disease that killed Derrida." As if to attenuate the reader's shock, he added in jest that his daughter felt this kind of cancer must come from "reading too much Heidegger."

Que eu saiba, há dois livros de Rorty editados em Portugal. Um é A Filosofia e o espelho da natureza, o livro que, em 1979, o fez famoso. Diz Rorty que essa obra teve sucesso porque foi vista como uma espécie de sequela a A Estrutura das Revoluções Centíficas, de Thomas Kuhn (sem edição portuguesa) – e foi precisamente por essa ordem que me veio parar às mãos. Não sei se a tradução portuguesa é aceitável (não li), mas estava na semana passada à venda, com uma capa bonitinha, no pavilhão de saldos da Dom Quixote na feira do livro de Lisboa, por 5 euros. O outro livro é Contingência, Ironia e Solidariedade (1989), que faz a ligação entre as convicções de Rorty sobre a natureza do conhecimento e as suas convicções políticas, através do conceito de ironia. É também, ao mesmo tempo, uma defesa da ficção, da literatura, do cinema, e de uma concepção das Humanidades que não faz distinções entre disciplinas nem tem ambições «científicas». Infelizmente, a tradução portuguesa, da Presença, é mazinha, dá o seu trabalho a decifrar. É o género de tradução que se lê fazendo mentalmente o trabalho de tradução ao contrário: tentando descobrir o que é que o autor teria escrito no original, e que com a pata do tradutor resultou assim.

segunda-feira, junho 11, 2007

Justiça poética

No post anterior, sobre coisas descuidadas, mal-escritas, aparece, apropriadamente, uma gralha: «granjeado», e não «grangeado». Aliás, não é bem uma gralha, porque não foi lapso: eu não tinha era a mínima ideia.

Difícil amar a pátria

Numa das primeiras cenas de Zodiac, um policial neste momento em exibição nos cinemas, um personagem grita, segundo as legendas da versão portuguesa: «Fodão-se e morram!»

Em 1982, o historiador britânico Antony Beevor publicou uma História da Guerra Civil de Espanha, que teve tradução em português. Posteriormente, o mesmo autor publicou vários livros de história sobre batalhas decisivas da II Guerra Mundial, designadamente Estalinegrado e a queda de Berlim, que estão ambas traduzidas em Portugal. No ano passado, Beevor refez, com base no conhecimento hoje disponível dos arquivos soviéticos, a sua História da Guerra Civil de Espanha, que em consequência praticamente duplicou de tamanho. Esta obra foi considerada um dos livros do ano por diversas publicações internacionais. Aproveitando a ocasião, e o prestígio grangeado no mercado nacional pelos livros sobre Estalinegrado e Berlim, o editor português resolveu republicar a edição de 1982, sem nenhuma espécie de esclarecimento e sem nenhuma melhoria na tradução - ao que me dizem, péssima. Esta é portanto a única versão disponível em português, que é vendida, por um balúrdio, como se fosse nova. Podemos sempre ler a tradução espanhola (ao que se diz excelente) da edição refeita. Assim farei.

O livro de Raimundo Narciso sobre a dissidência do PCP em 1988-91, publicado pela Âmbar, é uma obra curta, dividida em três partes (contexto-crise-epílogo), a última das quais ocupa um total de dez páginas. O livro tem os seus méritos, de que falarei noutra altura, mas é também uma floresta desordenada de vírgulas, que só se consegue ler com esforço. Está ilustrado por várias fotografias, todas a preto e branco e todas, sem excepção nem para a capa, muitíssimo mal impressas. Está ao dispor nas livrarias contra a módica quantia de 20 (vinte) euros.

Audio edition

Quem vive na periferia tem a vantagem de passar muito tempo em comboios, barcos ou outros transportes públicos agradáveis, que oferecem condições perfeitas para ler. Quem, como eu, vive no centro da cidade não tem a mesma sorte, e pode acabar por ser difícil dar conta do Economist numa só semana. Conheço gente que aproveita as folgas para se meter em comboios, tentando ler alguma coisa de seguida. Deve ter sido a pensar nestes que o Economist se lembrou agora de criar uma edição audio. Eu ando muito a pé, com a revista a falar-me ao ouvido. Não é tão bom como ler. É talvez parecido com a experiência da leitura rápida, perde-se um bocado do prazer e uma parte do sentido. Mas a verdade é que, por via auricular, esta semana «li» muito mais coisas do que habitualmente. Estes foram os meus favoritos da semana.