segunda-feira, junho 11, 2007
Justiça poética
Difícil amar a pátria
Em 1982, o historiador britânico Antony Beevor publicou uma História da Guerra Civil de Espanha, que teve tradução em português. Posteriormente, o mesmo autor publicou vários livros de história sobre batalhas decisivas da II Guerra Mundial, designadamente Estalinegrado e a queda de Berlim, que estão ambas traduzidas em Portugal. No ano passado, Beevor refez, com base no conhecimento hoje disponível dos arquivos soviéticos, a sua História da Guerra Civil de Espanha, que em consequência praticamente duplicou de tamanho. Esta obra foi considerada um dos livros do ano por diversas publicações internacionais. Aproveitando a ocasião, e o prestígio grangeado no mercado nacional pelos livros sobre Estalinegrado e Berlim, o editor português resolveu republicar a edição de 1982, sem nenhuma espécie de esclarecimento e sem nenhuma melhoria na tradução - ao que me dizem, péssima. Esta é portanto a única versão disponível em português, que é vendida, por um balúrdio, como se fosse nova. Podemos sempre ler a tradução espanhola (ao que se diz excelente) da edição refeita. Assim farei.
O livro de Raimundo Narciso sobre a dissidência do PCP em 1988-91, publicado pela Âmbar, é uma obra curta, dividida em três partes (contexto-crise-epílogo), a última das quais ocupa um total de dez páginas. O livro tem os seus méritos, de que falarei noutra altura, mas é também uma floresta desordenada de vírgulas, que só se consegue ler com esforço. Está ilustrado por várias fotografias, todas a preto e branco e todas, sem excepção nem para a capa, muitíssimo mal impressas. Está ao dispor nas livrarias contra a módica quantia de 20 (vinte) euros.
Audio edition
quarta-feira, junho 06, 2007
Adoro o campo
A secção de cartas do Economist vale, só por si, o preço da revista.
SIR – Your special report on cities overlooked the environmental benefits they provide (May 5th). For instance, cities are more energy efficient to live in than the countryside. I spent seven years living in London, in which I drove an average of 5,714 miles a year mainly visiting family in Norfolk. Last year, to be closer to that family, I moved to a rural village close to Norwich. Since then, I have driven 10,000 miles in just one year. Villages and rural communities lack economies of scale and are incapable of delivering the same network effects as cities. They are inherently inefficient, evidenced by their under-used post offices, bus services, schools, branch railway lines and "cottage" hospitals.
The state should no longer subsidise the private pursuit of Arcadia through expensive public services for remote and sparsely populated areas. Instead, the countryside should be considered a luxury—reserved for wildlife, unmanned agricultural vehicles and electric coaches full of gawking tourists. We should abolish villages and make everyone live in towns of at least 25,000 people.
Huw Sayer
Norwich
domingo, junho 03, 2007
Como falar de livros sem os ler

O pacote de dezassete livros expedidos de Deli a 10 de Fevereiro, por mar (mas o mar não é em Deli), ao preço da chuva, chegou finalmente. No geral, em bom estado. A outros, aconselho que metam os livros num pacote de cartão, e não em sacos de plástico; o resultado será melhor. Por sobre o plástico, a embalagem de pano foi cosida à mão por um funcionário dos correios de Deli, e revelou-se bastante resistente. O trajecto que estes livros terão feito dava uma boa história: é olhar para o mapa e começar a imaginar. Livros sobre a Índia (os Naipaul, dois romances do Rushdie, Dalrymple, etc.) e livros que não têm nada que ver com a Índia mas eram baratos (os três volumes de história do século XIX de Hobsbawm, um livro de Julian Barnes sobre os franceses, etc.). E livros que comprei porque a livraria era boa, surpreendente, não muito barata para padrões indianos, mas alguma coisa havia que comprar. Foi o caso deste Sven Lindqvist, autor de Exterminem todas as bestas (Caminho), numa livraria pequena e maravilhosa em Deli.
O livro - e é o primeiro caso que eu conheço assim - não tem numeração de páginas. Tem entradas, um pouco menos de quatrocentas. Da entrada nº1 remete para a 163 (ou coisa parecida), depois para a 48, e por aí adiante, até chegar ao fim, até onde não há mais sequência de entradas, ou onde se regressa à entrada nº1. Pode ler-se por esta ordem (parece que é cronológica, se vi bem), mas também se pode ler sequencialmente pela numeração (de 1 para 2 para 3, etc.), e nesse caso a organização é temática ou «associativa». E, claro, também se pode ler por outra ordem qualquer, simplesmente experimentar entradas ao acaso, folhear. Até agora, foi o que fiz.
A minha referência sobre Lindqvist era um texto muito entusiástico de Mega Ferreira sobre esse outro livro publicado na Caminho. Na minha cabeça, A History of Bombing arrumou-se junto de On the Natural History of Destruction, de Sebald (que também não li).
O funcionário dos correios de Deli




Mas chegaram até aqui.
sábado, junho 02, 2007
Tardes de sábado

Pedro Lomba diz que a revista do NYT é «talvez a melhor revista do mundo». Cá está: a sempre arreliadora gralha. Quer dizer, a revista do Financial Times é certamente uma das melhores do mundo. Estou de acordo com ele. O FT magazine, que ainda não percebi há quanto tempo existe nem com que periodicidade sai, aparece de vez em quando com o jornal de sábado (não confundir com o suplemento How to spend it). Inclui muitas das secções do magnífico caderno de todos os sábados, Life&Arts, designadamente ótimas recensões, a entrevista ao almoço, a coluna Dear Economist, etc. Mas é em formato revista, é um magazine, como esses que ao domingo os jornais publicam, só que em bom, bem escrito e com boas ideias. «How to judge a book by its cover» é talvez a secção de que eu gosto mais: vejam, por exemplo, este texto sobre esta capa.
The cover of The Year of Magical Thinking is much like Didion's prose: austere, elegant and direct. On an ivory background, seven words appear in slender black capitals, arranged in five lines.
The font, Hoefler's version of Didot, adds to the sense of refinement.
Look again and a few of the letters emerge as blue, not black: the J in Joan, the O in Didion, the H and the N in thinking. The ghostly trace of Didion's beloved husband John Gregory Dunne - whose death and its aftermath are the subject of this memoir - haunts the cover as much as it does the pages that follow.
The designer, Carol Devine Carson, told me that this was her first and only concept («The JOHN letters were grey at first, but Joan wanted a bit of colour»). When I mentioned how miraculous it was that the letters of the name happen to fall in this order, she said: «I just saw the name unveil itself, like someone speaking to me.»
Graphic designers need great visual instincts, but they have to be word people too. Carson's cover is brilliant, yet risky. Many people don't see it.
As Carson said: «There are still a few people in this building who may have just found out the secret message. Subtle, yes. But I think that fits the book, really.»
sexta-feira, junho 01, 2007
Morrer por morrer
sexta-feira, maio 25, 2007
Assuntos judaicos
Trabalho não-remunerado
Na ocasião, Mucznick acusar-me-á de não sentir suficientemente a dor pelo desaparecimento de Madeleine McCann e de me identificar com o ponto de vista dos raptores. A discussão tornar-se-á azeda, e o que tudo isto faz pensar é como as pessoas são mesquinhas, incapazes de dar as mãos e ultrapassar as suas pequenas quezílias, mesmo quando acontecem coisas que deviam tocar-nos a todos por igual, como o desaparecimento da pequena Maddie.
O Rádio Clube Português tem cobertura nacional. Em Lisboa, pode ser sintonizado em 104.3 ou ouvido directamente online em http://radioclube.clix.pt/.