domingo, junho 03, 2007

Como falar de livros sem os ler

[ou: Como não falar de livros sem os ler?]



O pacote de dezassete livros expedidos de Deli a 10 de Fevereiro, por mar (mas o mar não é em Deli), ao preço da chuva, chegou finalmente. No geral, em bom estado. A outros, aconselho que metam os livros num pacote de cartão, e não em sacos de plástico; o resultado será melhor. Por sobre o plástico, a embalagem de pano foi cosida à mão por um funcionário dos correios de Deli, e revelou-se bastante resistente. O trajecto que estes livros terão feito dava uma boa história: é olhar para o mapa e começar a imaginar. Livros sobre a Índia (os Naipaul, dois romances do Rushdie, Dalrymple, etc.) e livros que não têm nada que ver com a Índia mas eram baratos (os três volumes de história do século XIX de Hobsbawm, um livro de Julian Barnes sobre os franceses, etc.). E livros que comprei porque a livraria era boa, surpreendente, não muito barata para padrões indianos, mas alguma coisa havia que comprar. Foi o caso deste Sven Lindqvist, autor de Exterminem todas as bestas (Caminho), numa livraria pequena e maravilhosa em Deli.
O livro - e é o primeiro caso que eu conheço assim - não tem numeração de páginas. Tem entradas, um pouco menos de quatrocentas. Da entrada nº1 remete para a 163 (ou coisa parecida), depois para a 48, e por aí adiante, até chegar ao fim, até onde não há mais sequência de entradas, ou onde se regressa à entrada nº1. Pode ler-se por esta ordem (parece que é cronológica, se vi bem), mas também se pode ler sequencialmente pela numeração (de 1 para 2 para 3, etc.), e nesse caso a organização é temática ou «associativa». E, claro, também se pode ler por outra ordem qualquer, simplesmente experimentar entradas ao acaso, folhear. Até agora, foi o que fiz.

A minha referência sobre Lindqvist era um texto muito entusiástico de Mega Ferreira sobre esse outro livro publicado na Caminho. Na minha cabeça, A History of Bombing arrumou-se junto de On the Natural History of Destruction, de Sebald (que também não li).

O funcionário dos correios de Deli

Esperámos uma hora e meia de uma manhã de chuva, na estação dos Correios, pelo funcionário que viria preparar a embalagem. Era o único competente para desempenhar a missão. Cortou e coseu durante meia hora. Despedi-me dos livros como se estivesse a pagar para os deitar para o lixo.








Mas chegaram até aqui.

sábado, junho 02, 2007

Tardes de sábado



Pedro Lomba diz que a revista do NYT é «talvez a melhor revista do mundo». Cá está: a sempre arreliadora gralha. Quer dizer, a revista do Financial Times é certamente uma das melhores do mundo. Estou de acordo com ele. O FT magazine, que ainda não percebi há quanto tempo existe nem com que periodicidade sai, aparece de vez em quando com o jornal de sábado (não confundir com o suplemento How to spend it). Inclui muitas das secções do magnífico caderno de todos os sábados, Life&Arts, designadamente ótimas recensões, a entrevista ao almoço, a coluna Dear Economist, etc. Mas é em formato revista, é um magazine, como esses que ao domingo os jornais publicam, só que em bom, bem escrito e com boas ideias. «How to judge a book by its cover» é talvez a secção de que eu gosto mais: vejam, por exemplo, este texto sobre esta capa.

The cover of The Year of Magical Thinking is much like Didion's prose: austere, elegant and direct. On an ivory background, seven words appear in slender black capitals, arranged in five lines.
The font, Hoefler's version of Didot, adds to the sense of refinement.
Look again and a few of the letters emerge as blue, not black: the J in Joan, the O in Didion, the H and the N in thinking. The ghostly trace of Didion's beloved husband John Gregory Dunne - whose death and its aftermath are the subject of this memoir - haunts the cover as much as it does the pages that follow.
The designer, Carol Devine Carson, told me that this was her first and only concept («The JOHN letters were grey at first, but Joan wanted a bit of colour»). When I mentioned how miraculous it was that the letters of the name happen to fall in this order, she said: «I just saw the name unveil itself, like someone speaking to me.»
Graphic designers need great visual instincts, but they have to be word people too. Carson's cover is brilliant, yet risky. Many people don't see it.
As Carson said: «There are still a few people in this building who may have just found out the secret message. Subtle, yes. But I think that fits the book, really.»

sexta-feira, junho 01, 2007

Morrer por morrer

Nas caixas de comentários dos posts de O Céu sobre Lisboa sobre São Paulo e o Rio de Janeiro (que me deixam com um nó na garganta), discute-se a segurança, vexata questio. «Não é uma cidade segura», diz um. «É tão inseguro como andar à noite no Bairro Alto», diz outro. «Aliás, no outro dia eu ia morrendo no Bairro Alto.» Pouco sei da insegurança no Rio (e mesmo no Bairro Alto). Mas impressionou-me esta imagem: morrendo no Bairro Alto. Desculpe: no Bairro Alto? Metam-me num avião para Copacabana. Entre morrer no Rio ou no Bairro Alto, eu não hesito.

sexta-feira, maio 25, 2007

Assuntos judaicos

A má-língua habitual sugere que Esther Mucznick seria agente da Mossad. Quem diz isso não sabe o que está a dizer. Esther Mucznick é investigadora em assuntos judaicos. O que a Mossad investiga são os assuntos dos outros.

Trabalho não-remunerado

No domingo, das onze da manhã ao meio-dia, começa no Rádio Clube Português um novo programa de debates coordenado por Nuno Costa Santos. A matéria é sempre um exercício de História virtual: e se isto ou aquilo não tivesse acontecido? Na primeira emissão, este domingo, Esther Mucznick e eu debateremos o tema: «E se a pequena Maddie não tivesse desaparecido?»
Na ocasião, Mucznick acusar-me-á de não sentir suficientemente a dor pelo desaparecimento de Madeleine McCann e de me identificar com o ponto de vista dos raptores. A discussão tornar-se-á azeda, e o que tudo isto faz pensar é como as pessoas são mesquinhas, incapazes de dar as mãos e ultrapassar as suas pequenas quezílias, mesmo quando acontecem coisas que deviam tocar-nos a todos por igual, como o desaparecimento da pequena Maddie.

O Rádio Clube Português tem cobertura nacional. Em Lisboa, pode ser sintonizado em 104.3 ou ouvido directamente online em http://radioclube.clix.pt/.

quarta-feira, maio 23, 2007

Pequeno manifesto sobre Lisboa

Detesto a Roseta! Detesto o Alegre! Detesto os «cidadãos»!

[Post, em boa verdade, roubado a uma não-blogger.]

terça-feira, maio 22, 2007

A disposição do espírito

Dizia Oakeshott que o conservadorismo é em primeiro lugar uma disposição do espírito. (Quer dizer: dizia mais ou menos isto. Mas sinto-me demasiado conservador para ir agora verificar a citação.) É por isso mesmo que ultimamente comecei a pensar em talvez votar no candidato comunista para a Câmara de Lisboa.

sexta-feira, maio 18, 2007

Dores de simpatia



Tenerife: Playa de las Américas, 1993

Através do livro que reúne as crónicas de João Pereira Coutinho na Folha de São Paulo (que foi distribuído com a revista Sábado na semana passada), chego a um conjunto de fotografias do inglês Martin Parr, organizadas sob o título genérico Bored Couples. O aborrecimento, o tédio, dizem-me, é o grande assassino do amor. Digo «dizem-me» porque falam assim todas as pessoas que sabem do assunto, e eu, embora tenha participado já de mais de uma mão-cheia de parelhas, sempre vi doenças mais fulminantes do que o tédio destruirem tudo. Sob essa vasta palavra do tédio, nestas fotos, a primeira coisa que me salta à vista é a violência contida. Aliás, esta violência é contida porque não se dirige principalmente ao outro. Vejamos o casal velho de Tenerife: sabemos que eles estão aborrecidos sem sequer lhes vermos as caras. Talvez por isso esta seja talvez a minha foto preferida. O que é aborrecido na foto? As roupas, o cenário? Sem dúvida que as roupas pobres e a paisagem árida não ajudam; mas o que está aborrecido aqui é mesmo o casal. Sobretudo ele. Naquele pescoço meio voltado para o outro lado – de todos os lados possíveis, de todos os lados igualmente desinteressantes – o homem voltou-se para o outro lado; aliás, chegou-se três passos à frente da mulher, nas suas pernas finas, com fracas forças, ridículas, e inclinou o pescoço para a direita. Conquistou talvez um horizonte de liberdade, um espaço para onde pudesse olhar e pensar sobre o que lhe estava acontecendo, como se ninguém mais estivesse ali: pensar sobre a raiva, sobre as suas origens, possíveis saídas. Aborrecido? O homem está zangado, encurralado, talvez zangado também por estar zangado. Está de férias em Tenerife, veste as roupas que é suposto vestir, aquelas que ele escolheu (ou escolheram para ele) com o seu dinheiro, com a mulher que ele escolheu, e é aquilo. A mulher feita barata tonta olha na direcção dele: a tentar segurar as pontas, apanhar os cacos. Muitas das vezes uma parte está só a tentar apanhar os cacos. Ela não tem culpa.


Windsor Safari Park, 1990


Maiorca, 1993


Maiorca, 1993

O aborrecimento? Não é o aborrecimento. O homem no fast-food olha para a esquerda. Sente-se «cabreado», fodido-e-mal-pago, atraiçoado, encornado. O homem no bar, perante um monte de cervejas vazias, olha para o lado mais distante possível. Tudo nele transmite agressividade. O homem no restaurante de praia está positivamente violento; mas a luta não deve ser com a mulher, ele está de olhos fechados, talvez nem se tenha dado bem conta, se lhe tirassem outra foto, com pose, talvez estivesse a sorrir. Ela não está em posição de combate e simplesmente procura pontos de apoio algures na perspectiva. O casalinho da Finlândia que foi sair pela primeira vez num sábado à tarde está encornado: também perdido, sem referências, sem conhecer as regras, sem poder adequar-se ao jogo que lhes foi proposto como sendo desejável. Fodido.


Kotka, Finlândia, 1991

Mas é este o meu ponto: estes casais, aborrecidos, tediosos na aparência, ridículos, estão todos constrangidos numa situação que não aceitam. Não estão só aborrecidos: estão chateados, no duplo sentido que a expressão tem em português. O que os define é o seu carácter ausente: mas, se não estão aqui, estão noutro lado. Nenhuma destas pessoas aceita o destino em que vive, mesmo que não tenha encontrado a chave para sair disso. Não direi que são heróis; não direi sequer, com optimismo, que encontrarão a chave, que haverá outro lado. Não direi que são boas pessoas, respeitadoras, conformes com a dignidade dos outros e dos votos que fizeram. Direi apenas que não são conformados, nem aborrecidos, mas rebeldes, gente à procura de outra coisa, alguns deles positivamente desesperados nisso, muitos talvez sem pensarem nas coisas assim. O que me inspiram não é comiseração, mas simpatia, como afeição e como semelhança.


Maiorca, 1993


No barco chamado «do amor» (eu já estive aqui) que faz a viagem de noite entre Estocolmo e Helsínquia, 1991

Ah, e as crónicas do Coutinho? Vocês sabem: exibicionismo de nomes e na pontuação, nas fórmulas gastas e na insistência piadética. Mas - não há por que hesitar - escrita fluente e, uma vez por outra, com um achado:

«Esclarecimento: a Nova York que vocês imaginam que existe, na verdade, não existe. Só nos filmes de Woody, que praticamente sublimou a cidade --uma cidade invulgarmente desumana e agressiva-- a golpes de ternura.»

Em uma ou outra em até encontrei uma sensibilidade próxima da minha:

Aqui.

Embora não, por exemplo, no texto sobre as fotos de Parr. Alguém disse uma vez que o João Pereira Coutinho era «um rapazinho», e eu não quis aceitar, pensando que ele fosse muito pior do que isso. Mas era verdade: não se justifica tanta hostilidade, porque aquilo que João Pereira Coutinho é, é um rapazinho. Nalguns momentos, até, um bom rapazinho.

Stasi

Não gostei nada de A Vida dos Outros, a fita alemã sobre a Stasi que este ano ganhou o Óscar de melhor filme estrangeiro - mas muita gente gostou muito. Para uns e para outros, vale a pena ler o texto que Timothy Garton Ash escreve na New York Review of Books a propósito do filme.