quarta-feira, maio 23, 2007

Pequeno manifesto sobre Lisboa

Detesto a Roseta! Detesto o Alegre! Detesto os «cidadãos»!

[Post, em boa verdade, roubado a uma não-blogger.]

terça-feira, maio 22, 2007

A disposição do espírito

Dizia Oakeshott que o conservadorismo é em primeiro lugar uma disposição do espírito. (Quer dizer: dizia mais ou menos isto. Mas sinto-me demasiado conservador para ir agora verificar a citação.) É por isso mesmo que ultimamente comecei a pensar em talvez votar no candidato comunista para a Câmara de Lisboa.

sexta-feira, maio 18, 2007

Dores de simpatia



Tenerife: Playa de las Américas, 1993

Através do livro que reúne as crónicas de João Pereira Coutinho na Folha de São Paulo (que foi distribuído com a revista Sábado na semana passada), chego a um conjunto de fotografias do inglês Martin Parr, organizadas sob o título genérico Bored Couples. O aborrecimento, o tédio, dizem-me, é o grande assassino do amor. Digo «dizem-me» porque falam assim todas as pessoas que sabem do assunto, e eu, embora tenha participado já de mais de uma mão-cheia de parelhas, sempre vi doenças mais fulminantes do que o tédio destruirem tudo. Sob essa vasta palavra do tédio, nestas fotos, a primeira coisa que me salta à vista é a violência contida. Aliás, esta violência é contida porque não se dirige principalmente ao outro. Vejamos o casal velho de Tenerife: sabemos que eles estão aborrecidos sem sequer lhes vermos as caras. Talvez por isso esta seja talvez a minha foto preferida. O que é aborrecido na foto? As roupas, o cenário? Sem dúvida que as roupas pobres e a paisagem árida não ajudam; mas o que está aborrecido aqui é mesmo o casal. Sobretudo ele. Naquele pescoço meio voltado para o outro lado – de todos os lados possíveis, de todos os lados igualmente desinteressantes – o homem voltou-se para o outro lado; aliás, chegou-se três passos à frente da mulher, nas suas pernas finas, com fracas forças, ridículas, e inclinou o pescoço para a direita. Conquistou talvez um horizonte de liberdade, um espaço para onde pudesse olhar e pensar sobre o que lhe estava acontecendo, como se ninguém mais estivesse ali: pensar sobre a raiva, sobre as suas origens, possíveis saídas. Aborrecido? O homem está zangado, encurralado, talvez zangado também por estar zangado. Está de férias em Tenerife, veste as roupas que é suposto vestir, aquelas que ele escolheu (ou escolheram para ele) com o seu dinheiro, com a mulher que ele escolheu, e é aquilo. A mulher feita barata tonta olha na direcção dele: a tentar segurar as pontas, apanhar os cacos. Muitas das vezes uma parte está só a tentar apanhar os cacos. Ela não tem culpa.


Windsor Safari Park, 1990


Maiorca, 1993


Maiorca, 1993

O aborrecimento? Não é o aborrecimento. O homem no fast-food olha para a esquerda. Sente-se «cabreado», fodido-e-mal-pago, atraiçoado, encornado. O homem no bar, perante um monte de cervejas vazias, olha para o lado mais distante possível. Tudo nele transmite agressividade. O homem no restaurante de praia está positivamente violento; mas a luta não deve ser com a mulher, ele está de olhos fechados, talvez nem se tenha dado bem conta, se lhe tirassem outra foto, com pose, talvez estivesse a sorrir. Ela não está em posição de combate e simplesmente procura pontos de apoio algures na perspectiva. O casalinho da Finlândia que foi sair pela primeira vez num sábado à tarde está encornado: também perdido, sem referências, sem conhecer as regras, sem poder adequar-se ao jogo que lhes foi proposto como sendo desejável. Fodido.


Kotka, Finlândia, 1991

Mas é este o meu ponto: estes casais, aborrecidos, tediosos na aparência, ridículos, estão todos constrangidos numa situação que não aceitam. Não estão só aborrecidos: estão chateados, no duplo sentido que a expressão tem em português. O que os define é o seu carácter ausente: mas, se não estão aqui, estão noutro lado. Nenhuma destas pessoas aceita o destino em que vive, mesmo que não tenha encontrado a chave para sair disso. Não direi que são heróis; não direi sequer, com optimismo, que encontrarão a chave, que haverá outro lado. Não direi que são boas pessoas, respeitadoras, conformes com a dignidade dos outros e dos votos que fizeram. Direi apenas que não são conformados, nem aborrecidos, mas rebeldes, gente à procura de outra coisa, alguns deles positivamente desesperados nisso, muitos talvez sem pensarem nas coisas assim. O que me inspiram não é comiseração, mas simpatia, como afeição e como semelhança.


Maiorca, 1993


No barco chamado «do amor» (eu já estive aqui) que faz a viagem de noite entre Estocolmo e Helsínquia, 1991

Ah, e as crónicas do Coutinho? Vocês sabem: exibicionismo de nomes e na pontuação, nas fórmulas gastas e na insistência piadética. Mas - não há por que hesitar - escrita fluente e, uma vez por outra, com um achado:

«Esclarecimento: a Nova York que vocês imaginam que existe, na verdade, não existe. Só nos filmes de Woody, que praticamente sublimou a cidade --uma cidade invulgarmente desumana e agressiva-- a golpes de ternura.»

Em uma ou outra em até encontrei uma sensibilidade próxima da minha:

Aqui.

Embora não, por exemplo, no texto sobre as fotos de Parr. Alguém disse uma vez que o João Pereira Coutinho era «um rapazinho», e eu não quis aceitar, pensando que ele fosse muito pior do que isso. Mas era verdade: não se justifica tanta hostilidade, porque aquilo que João Pereira Coutinho é, é um rapazinho. Nalguns momentos, até, um bom rapazinho.

Stasi

Não gostei nada de A Vida dos Outros, a fita alemã sobre a Stasi que este ano ganhou o Óscar de melhor filme estrangeiro - mas muita gente gostou muito. Para uns e para outros, vale a pena ler o texto que Timothy Garton Ash escreve na New York Review of Books a propósito do filme.

Saudosos anos 90


Através do blog do Economist, chego ao video do Barbie Girl no you tube. Acho difícil que nos últimos dez anos a cultura pop tenha produzido alguma coisa melhor do que isto.

I'm a Barbie girl in the Barbie world
Life in plastic, it's fantastic
You can brush my hair, undress me everywhere
Imagination, life is your creation
- Come on Barbie, let's go party

- I'm a blonde bimbo girl in the fantasy world
Dress me up, make it tight, I'm your dollie
- You're my doll, rock'n'roll, feel the glamour in pink
Kiss me here, touch me there, hanky-panky

- You can touch, you can play
if you say I'm always yours

terça-feira, maio 15, 2007

Epifania



A capa deste livro mudou a minha vida. Lembro-me de quando a vi, há dez anos ou mais, na montra da Buchholz. Foi nessa altura que deixei a política.
Isto de fechar o blog parece-se demasiado com fazer-se de morto para poder assistir ao próprio funeral. Mas enfim: conheço casos mais literais do que o meu.

quinta-feira, maio 03, 2007

A educação pelo olhar


[Este texto sai no número de Maio do Monde Diplomatique, edição portuguesa.]

O que Sócrates diria a Woody Allen
Juan Antonio Rivera

Ed. Tenacitas, Coimbra, 2006, 340 pp.


Num capítulo sobre Há Lodo no Cais, Juan Antonio Rivera segue o tema do que chama «a educação pelo olhar»: Eva Marie Saint, depositando as expectativas que tem sobre Marlon Brando, impele-o a agir de forma moral, mesmo sem lhe dizer uma palavra. A questão que Rivera está a tratar é a das «metapreferências»: a importância da imagem que fazemos de nós mesmos, dos objectivos que nos propomos alcançar, daquilo que desejamos ser. O assunto é um dos fios condutores de um livro que se dedica sobretudo a problemas de filosofia ética: estas metapreferências devem ser inalteráveis? Se, a meio do caminho, queremos outra coisa, isso é bom ou mau? Ulisses seduzido pelas sereias; Frank Sinatra, em O homem do braço de ouro, tentado a regressar ao vício da droga e do jogo. Mas o livro também discute a rigidez excessiva das metapreferências, a incapacidade para aprender ao longo da vida, a ilusão racionalista e controladora da vida como um «projecto».

Uma educação filosófica pelo olhar é a empresa a que Juan Antonio Rivera, professor de filosofia na Universidade de Barcelona, se dedica em O que Sócrates diria a Woody Allen. Aproximadamente, cada capítulo do livro corresponde a um filme e a um tema. Dois Destinos, uma comédia romântica com Nicolas Cage, introduz a questão do acaso, das ramificações possíveis (e imprevisíveis) de um percurso: depois de ver a vida como poderia ter sido, Nicolas Cage ainda é capaz de dizer que as opções que tomou foram sempre as melhores? Sapatos Vermelhos, de Michael Powell e Emeric Pressburger, serve para discutir o problema do ponto de vista inverso: o «apetite fáustico», a tentação de querer experimentar todos os caminhos possíveis. Há temas que regressam em vários capítulos, e há capítulos que tratam de mais do que um filme. Nos casos mais felizes, uma película suscita uma variedade de sugestões, de reflexões, de incitamentos: sem ter uma tese filosófica explícita, convida a encarar o mundo sob prismas diversos. É curioso notar que fitas com uma mensagem filosófica muito explícita (como Laranja Mecânica) se prestam a um tratamento relativamente pobre; são obras menos directamente centradas na questão filosófica que mais estimulam a exploração do autor.

O livro dirige-se a uma plateia de leigos, mas não é uma iniciação à história ou aos temas da filosofia, ao estilo de O Mundo de Sofia; é uma selecção de um conjunto de problemas, escolhidos de forma relativamente arbitrária ao gosto do autor, discutidos por referência a um conjunto de filmes. O «Sócrates» e o «Woody Allen» do título são metonímias: simbolizam a filosofia e o cinema em diálogo. Sócrates e Woody Allen, concretamente, aparecem aqui em papéis relativamente secundários. Uma medida das virtudes deste livro é que dá vontade de ler outros livros. Outra, melhor ainda, é que, graças às magníficas capacidades narrativas de Juan Antonio Rivera e à sua paixão cinéfila, dá vontade de ver os filmes.

A edição portuguesa é, genericamente, cuidada, mas tem as suas bizarrias: na p.167 surge a voz do editor, em nota de rodapé, para corrigir o texto e dizer que o entendimento de Rivera sobre o conceito de virtude no cristianismo está errado. Suponho que se trate de uma instância da «tentação do bem» – tema que, de resto, o livro também discute.

terça-feira, maio 01, 2007

Astrologia sumária

Os nativos de carneiro têm muita personalidade.
Os nativos de touro sofrem de prisão de ventre.
Os nativos de gémeos não são confiáveis.
Os nativos de caranguejo fazem anos em julho.
Os nativos de leão são pessoas difíceis.
Os nativos de virgem fazem anos em setembro.
Os nativos de balança são equilibrados.
Os nativos de escorpião fazem mais mal a si mesmos do que aos outros.
Os nativos de sagitário são de novembro e dezembro.
Nativos de capricórnio nunca conheci.
Nativos de aquário são mulheres.
As nativas de peixes são muito atraentes.

quinta-feira, abril 26, 2007

Littell: o silêncio e a escrita

O Le Monde de sábado trazia um texto de Jonathan Littell (o escritor franco-americano que este ano ganhou o prémio Goncourt) sobre o massacre na universidade no estado de Virginia. É um artigo interessante, que resolvi traduzir, com o auxílio da minha mãe, do André Belo e do Paulo Varela Gomes, que foi de resto quem me chamou a atenção para ele.


Cho Seung-hui, ou a escrita do pesadelo
Jonathan Littell
Le Monde, 21. Abril. 2007

Antes de abater friamente 32 pessoas e de virar a arma para si mesmo, Cho Seung-hui, o assassino de Virginia Tech, escrevia, fica-se agora a saber, peças de teatro; duas delas estão hoje disponíveis na internet, cortesia de um dos seus antigos colegas.
Lendo-as, ninguém poderá dizer que Cho Seung-hui tinha talento; contudo, essas breves peças, desajeitadas e juvenis, dizem-nos cruamente, muito melhor do que muitas obras publicadas, a verdade de uma raiva sem fundo; e, se quisermos adoptar para nós a definição de literatura proposta por Georges Bataille, a de textos aos quais «o seu autor foi visivelmente constrangido», então devemos reconhecer que, de uma certa maneira, aqui há literatura, uma forma de literatura: qualquer coisa que se diz.
O que me impressiona são as reacções imediatas dos seus colegas de turma: um deles escreve na net que as suas peças «pareciam saídas de um pesadelo», e que ao lê-las os estudantes se perguntavam entre si se ele iria tornar-se um novo «assassino escolar» (“a school killer”). «Quando os estudantes criticaram a sua peça na aula, nós escolhemos as palavras com cuidado, para o caso de ele ter decidido passar-se dos carretos.» Haveria muito a dizer sobre a visão do mundo veiculada por esta palavra: «decidido». Não foram só os estudantes que ficaram apavorados com os textos de Cho Seung-hui: a professora de escrita, uma poeta conhecida, «intimidada» pelos seus poemas «obscenos e violentos» e pelas suas maneiras, expulsou-o da turma; a directora do departamento de inglês da universidade, ao ler as suas peças, ficou de tal forma perturbada que deu conta disso aos seus superiores e à polícia, que responderam, para desespero dela, que «não podiam fazer nada».
Ora Cho Seung-hui, com os seus recursos insignificantes, inábeis, dizia muito naquelas poucas páginas: o terror abjecto do adolescente de contornos imprecisos, terror que assalta o corpo vindo de todos os lados, que regressa como merda, velhice, obesidade, obsessão da sodomia, que é figurada sob a forma de comida que empanturra (uma barra de cereais com sabor a banana enfiada na boca do padrasto odiado, bela metonímia), do interdito oposto ao jogo (três fugitivos, menores, encontram-se num casino de onde serão expulsos depois de terem ganho), de uma mãe passiva e violada, da angústia do incesto (que claramente se apresenta aqui como fantasma devastador do adolescente, que procura por todas as formas provocar o gesto assassino que o matará).
Já é muito, mesmo que num outro plano seja pouco, e apesar de ter tanto que ver com a psicopatologia como com a literatura: alguma coisa começa a falar, que é precisamente aquilo que Cho Seung-hui não sabia fazer («Respondia por monossílabos», «Nunca procurava ter uma conversa», «Creio que nem nunca lhe ouvi a voz»). E no entanto ninguém, nem colegas, nem professores, aceitou ver aqui textos: para eles, não houve senão ameaça, um grito no limite da inarticulação.

PASSAGEM AO ACTO
Eles dizem-no explicitamente: a partir do momento em que o lemos, soubemos (supusémos) que se tratava de um assassino (potencial); a ninguém ocorre que talvez se tenha tornado num assassino porque ninguém o soube ler. Não podemos especular, com tão poucos elementos, sobre aquilo que habitava Cho Seung-hui, sobre o que veio a interpor uma barreira entre ele e o mundo. Mas este dado parece-me importante: antes de comprar as armas, Cho Seung-hui tentou escrever, encenar, perante os seus pares, elementos da sua desordem.
Concluiu-se, conclui-se sempre, que essa tentativa era um assunto da ordem da psiquiatria, ou mesmo um caso de polícia, e não de literatura – que, no entanto, desde que existe, não faz outra coisa senão dizer o que não pode ser dito de outra forma. Só quando ela lhe foi recusada (e quando ela, também, se lhe recusou; e ele próprio se submeteu a essa recusa) é que ele passou ao acto.
E, quando se pôs a matar, fê-lo em silêncio.