terça-feira, maio 22, 2007
A disposição do espírito
sexta-feira, maio 18, 2007
Dores de simpatia

Tenerife: Playa de las Américas, 1993
Através do livro que reúne as crónicas de João Pereira Coutinho na Folha de São Paulo (que foi distribuído com a revista Sábado na semana passada), chego a um conjunto de fotografias do inglês Martin Parr, organizadas sob o título genérico Bored Couples. O aborrecimento, o tédio, dizem-me, é o grande assassino do amor. Digo «dizem-me» porque falam assim todas as pessoas que sabem do assunto, e eu, embora tenha participado já de mais de uma mão-cheia de parelhas, sempre vi doenças mais fulminantes do que o tédio destruirem tudo. Sob essa vasta palavra do tédio, nestas fotos, a primeira coisa que me salta à vista é a violência contida. Aliás, esta violência é contida porque não se dirige principalmente ao outro. Vejamos o casal velho de Tenerife: sabemos que eles estão aborrecidos sem sequer lhes vermos as caras. Talvez por isso esta seja – talvez – a minha foto preferida. O que é aborrecido na foto? As roupas, o cenário? Sem dúvida que as roupas pobres e a paisagem árida não ajudam; mas o que está aborrecido aqui é mesmo o casal. Sobretudo ele. Naquele pescoço meio voltado para o outro lado – de todos os lados possíveis, de todos os lados igualmente desinteressantes – o homem voltou-se para o outro lado; aliás, chegou-se três passos à frente da mulher, nas suas pernas finas, com fracas forças, ridículas, e inclinou o pescoço para a direita. Conquistou talvez um horizonte de liberdade, um espaço para onde pudesse olhar e pensar sobre o que lhe estava acontecendo, como se ninguém mais estivesse ali: pensar sobre a raiva, sobre as suas origens, possíveis saídas. Aborrecido? O homem está zangado, encurralado, talvez zangado também por estar zangado. Está de férias em Tenerife, veste as roupas que é suposto vestir, aquelas que ele escolheu (ou escolheram para ele) com o seu dinheiro, com a mulher que ele escolheu, e é aquilo. A mulher feita barata tonta olha na direcção dele: a tentar segurar as pontas, apanhar os cacos. Muitas das vezes uma parte está só a tentar apanhar os cacos. Ela não tem culpa.
O aborrecimento? Não é o aborrecimento. O homem no fast-food olha para a esquerda. Sente-se «cabreado», fodido-e-mal-pago, atraiçoado, encornado. O homem no bar, perante um monte de cervejas vazias, olha para o lado mais distante possível. Tudo nele transmite agressividade. O homem no restaurante de praia está positivamente violento; mas a luta não deve ser com a mulher, ele está de olhos fechados, talvez nem se tenha dado bem conta, se lhe tirassem outra foto, com pose, talvez estivesse a sorrir. Ela não está em posição de combate e simplesmente procura pontos de apoio algures na perspectiva. O casalinho da Finlândia que foi sair pela primeira vez num sábado à tarde está encornado: também perdido, sem referências, sem conhecer as regras, sem poder adequar-se ao jogo que lhes foi proposto como sendo desejável. Fodido.
Mas é este o meu ponto: estes casais, aborrecidos, tediosos na aparência, ridículos, estão todos constrangidos numa situação que não aceitam. Não estão só aborrecidos: estão chateados, no duplo sentido que a expressão tem em português. O que os define é o seu carácter ausente: mas, se não estão aqui, estão noutro lado. Nenhuma destas pessoas aceita o destino em que vive, mesmo que não tenha encontrado a chave para sair disso. Não direi que são heróis; não direi sequer, com optimismo, que encontrarão a chave, que haverá outro lado. Não direi que são boas pessoas, respeitadoras, conformes com a dignidade dos outros e dos votos que fizeram. Direi apenas que não são conformados, nem aborrecidos, mas rebeldes, gente à procura de outra coisa, alguns deles positivamente desesperados nisso, muitos talvez sem pensarem nas coisas assim. O que me inspiram não é comiseração, mas simpatia, como afeição e como semelhança.

Maiorca, 1993
No barco chamado «do amor» (eu já estive aqui) que faz a viagem de noite entre Estocolmo e Helsínquia, 1991
Ah, e as crónicas do Coutinho? Vocês sabem: exibicionismo de nomes e na pontuação, nas fórmulas gastas e na insistência piadética. Mas - não há por que hesitar - escrita fluente e, uma vez por outra, com um achado:
Em uma ou outra em até encontrei uma sensibilidade próxima da minha:
Embora não, por exemplo, no texto sobre as fotos de Parr. Alguém disse uma vez que o João Pereira Coutinho era «um rapazinho», e eu não quis aceitar, pensando que ele fosse muito pior do que isso. Mas era verdade: não se justifica tanta hostilidade, porque aquilo que João Pereira Coutinho é, é um rapazinho. Nalguns momentos, até, um bom rapazinho.
Stasi
Saudosos anos 90
Através do blog do Economist, chego ao video do Barbie Girl no you tube. Acho difícil que nos últimos dez anos a cultura pop tenha produzido alguma coisa melhor do que isto.
I'm a Barbie girl in the Barbie world
Life in plastic, it's fantastic
You can brush my hair, undress me everywhere
Imagination, life is your creation
- Come on Barbie, let's go party
- I'm a blonde bimbo girl in the fantasy world
Dress me up, make it tight, I'm your dollie
- You're my doll, rock'n'roll, feel the glamour in pink
Kiss me here, touch me there, hanky-panky
- You can touch, you can play
if you say I'm always yours
terça-feira, maio 15, 2007
Epifania
quinta-feira, maio 03, 2007
A educação pelo olhar

[Este texto sai no número de Maio do Monde Diplomatique, edição portuguesa.]
O que Sócrates diria a Woody Allen
Juan Antonio Rivera
Ed. Tenacitas, Coimbra, 2006, 340 pp.
Num capítulo sobre Há Lodo no Cais, Juan Antonio Rivera segue o tema do que chama «a educação pelo olhar»: Eva Marie Saint, depositando as expectativas que tem sobre Marlon Brando, impele-o a agir de forma moral, mesmo sem lhe dizer uma palavra. A questão que Rivera está a tratar é a das «metapreferências»: a importância da imagem que fazemos de nós mesmos, dos objectivos que nos propomos alcançar, daquilo que desejamos ser. O assunto é um dos fios condutores de um livro que se dedica sobretudo a problemas de filosofia ética: estas metapreferências devem ser inalteráveis? Se, a meio do caminho, queremos outra coisa, isso é bom ou mau? Ulisses seduzido pelas sereias; Frank Sinatra, em O homem do braço de ouro, tentado a regressar ao vício da droga e do jogo. Mas o livro também discute a rigidez excessiva das metapreferências, a incapacidade para aprender ao longo da vida, a ilusão racionalista e controladora da vida como um «projecto».
Uma educação filosófica pelo olhar é a empresa a que Juan Antonio Rivera, professor de filosofia na Universidade de Barcelona, se dedica em O que Sócrates diria a Woody Allen. Aproximadamente, cada capítulo do livro corresponde a um filme e a um tema. Dois Destinos, uma comédia romântica com Nicolas Cage, introduz a questão do acaso, das ramificações possíveis (e imprevisíveis) de um percurso: depois de ver a vida como poderia ter sido, Nicolas Cage ainda é capaz de dizer que as opções que tomou foram sempre as melhores? Sapatos Vermelhos, de Michael Powell e Emeric Pressburger, serve para discutir o problema do ponto de vista inverso: o «apetite fáustico», a tentação de querer experimentar todos os caminhos possíveis. Há temas que regressam em vários capítulos, e há capítulos que tratam de mais do que um filme. Nos casos mais felizes, uma película suscita uma variedade de sugestões, de reflexões, de incitamentos: sem ter uma tese filosófica explícita, convida a encarar o mundo sob prismas diversos. É curioso notar que fitas com uma mensagem filosófica muito explícita (como Laranja Mecânica) se prestam a um tratamento relativamente pobre; são obras menos directamente centradas na questão filosófica que mais estimulam a exploração do autor.
O livro dirige-se a uma plateia de leigos, mas não é uma iniciação à história ou aos temas da filosofia, ao estilo de O Mundo de Sofia; é uma selecção de um conjunto de problemas, escolhidos de forma relativamente arbitrária ao gosto do autor, discutidos por referência a um conjunto de filmes. O «Sócrates» e o «Woody Allen» do título são metonímias: simbolizam a filosofia e o cinema em diálogo. Sócrates e Woody Allen, concretamente, aparecem aqui em papéis relativamente secundários. Uma medida das virtudes deste livro é que dá vontade de ler outros livros. Outra, melhor ainda, é que, graças às magníficas capacidades narrativas de Juan Antonio Rivera e à sua paixão cinéfila, dá vontade de ver os filmes.
terça-feira, maio 01, 2007
Astrologia sumária
Os nativos de touro sofrem de prisão de ventre.
Os nativos de gémeos não são confiáveis.
Os nativos de caranguejo fazem anos em julho.
Os nativos de leão são pessoas difíceis.
Os nativos de virgem fazem anos em setembro.
Os nativos de balança são equilibrados.
Os nativos de escorpião fazem mais mal a si mesmos do que aos outros.
Os nativos de sagitário são de novembro e dezembro.
Nativos de capricórnio nunca conheci.
Nativos de aquário são mulheres.
As nativas de peixes são muito atraentes.
quinta-feira, abril 26, 2007
Littell: o silêncio e a escrita
O Le Monde de sábado trazia um texto de Jonathan Littell (o escritor franco-americano que este ano ganhou o prémio Goncourt) sobre o massacre na universidade no estado de Virginia. É um artigo interessante, que resolvi traduzir, com o auxílio da minha mãe, do André Belo e do Paulo Varela Gomes, que foi de resto quem me chamou a atenção para ele.
Cho Seung-hui, ou a escrita do pesadelo
Jonathan Littell
Le Monde, 21. Abril. 2007
Antes de abater friamente 32 pessoas e de virar a arma para si mesmo, Cho Seung-hui, o assassino de Virginia Tech, escrevia, fica-se agora a saber, peças de teatro; duas delas estão hoje disponíveis na internet, cortesia de um dos seus antigos colegas.
Lendo-as, ninguém poderá dizer que Cho Seung-hui tinha talento; contudo, essas breves peças, desajeitadas e juvenis, dizem-nos cruamente, muito melhor do que muitas obras publicadas, a verdade de uma raiva sem fundo; e, se quisermos adoptar para nós a definição de literatura proposta por Georges Bataille, a de textos aos quais «o seu autor foi visivelmente constrangido», então devemos reconhecer que, de uma certa maneira, aqui há literatura, uma forma de literatura: qualquer coisa que se diz.
O que me impressiona são as reacções imediatas dos seus colegas de turma: um deles escreve na net que as suas peças «pareciam saídas de um pesadelo», e que ao lê-las os estudantes se perguntavam entre si se ele iria tornar-se um novo «assassino escolar» (“a school killer”). «Quando os estudantes criticaram a sua peça na aula, nós escolhemos as palavras com cuidado, para o caso de ele ter decidido passar-se dos carretos.» Haveria muito a dizer sobre a visão do mundo veiculada por esta palavra: «decidido». Não foram só os estudantes que ficaram apavorados com os textos de Cho Seung-hui: a professora de escrita, uma poeta conhecida, «intimidada» pelos seus poemas «obscenos e violentos» e pelas suas maneiras, expulsou-o da turma; a directora do departamento de inglês da universidade, ao ler as suas peças, ficou de tal forma perturbada que deu conta disso aos seus superiores e à polícia, que responderam, para desespero dela, que «não podiam fazer nada».
Ora Cho Seung-hui, com os seus recursos insignificantes, inábeis, dizia muito naquelas poucas páginas: o terror abjecto do adolescente de contornos imprecisos, terror que assalta o corpo vindo de todos os lados, que regressa como merda, velhice, obesidade, obsessão da sodomia, que é figurada sob a forma de comida que empanturra (uma barra de cereais com sabor a banana enfiada na boca do padrasto odiado, bela metonímia), do interdito oposto ao jogo (três fugitivos, menores, encontram-se num casino de onde serão expulsos depois de terem ganho), de uma mãe passiva e violada, da angústia do incesto (que claramente se apresenta aqui como fantasma devastador do adolescente, que procura por todas as formas provocar o gesto assassino que o matará).
Já é muito, mesmo que num outro plano seja pouco, e apesar de ter tanto que ver com a psicopatologia como com a literatura: alguma coisa começa a falar, que é precisamente aquilo que Cho Seung-hui não sabia fazer («Respondia por monossílabos», «Nunca procurava ter uma conversa», «Creio que nem nunca lhe ouvi a voz»). E no entanto ninguém, nem colegas, nem professores, aceitou ver aqui textos: para eles, não houve senão ameaça, um grito no limite da inarticulação.
PASSAGEM AO ACTO
Eles dizem-no explicitamente: a partir do momento em que o lemos, soubemos (supusémos) que se tratava de um assassino (potencial); a ninguém ocorre que talvez se tenha tornado num assassino porque ninguém o soube ler. Não podemos especular, com tão poucos elementos, sobre aquilo que habitava Cho Seung-hui, sobre o que veio a interpor uma barreira entre ele e o mundo. Mas este dado parece-me importante: antes de comprar as armas, Cho Seung-hui tentou escrever, encenar, perante os seus pares, elementos da sua desordem.
Concluiu-se, conclui-se sempre, que essa tentativa era um assunto da ordem da psiquiatria, ou mesmo um caso de polícia, e não de literatura – que, no entanto, desde que existe, não faz outra coisa senão dizer o que não pode ser dito de outra forma. Só quando ela lhe foi recusada (e quando ela, também, se lhe recusou; e ele próprio se submeteu a essa recusa) é que ele passou ao acto.
E, quando se pôs a matar, fê-lo em silêncio.
Sonhar com piratas
Este foi o belíssimo texto do Paulo Varela Gomes que saiu no Público do último domingo, com uma «chamada» parva sobre o «politicamente correcto».
A fama, a morte e as vidas de Emílio Salgari
Paulo Varela Gomes
Público, 22 de Abril de 2007
Quando o conhecido intelectual italiano Umberto Eco foi à Índia pela primeira vez, em 2005, com 73 anos de idade, respondeu assim à pergunta de Devika Sequeira, uma jornalista goesa do “Deccan Herald” surpreendida com essa descoberta tão tardia: “Houve pelo menos quatro gerações de italianos que cresceram a ler os livros de Emílio Salgari, o romancista do século XIX que também era muito popular no mundo de língua espanhola. Escreveu livros de aventuras passadas por toda a parte: na África, nas Caraíbas. Mas os mais importantes eram na Índia. Todos os italianos da minha geração e da geração do meu pai conhecem a Índia perfeitamente porque Salgari explicava tudo desde as árvores “banian”, até aos rios, às pessoas, aos costumes…”.
Eco estava a ser simpático para a jornalista porque Emílio Salgari não escreveu muitos livros sobre a Índia, mas é significativo que lhe tenha ocorrido invocá-lo.
De facto, Salgari foi muito provavelmente o escritor mais lido pelos rapazes europeus e latino-americanos (os rapazes, não as raparigas) entre o início do século XX e a década de 1970. Deve ser muito difícil encontrar um italiano, um espanhol, um francês, um português, um mexicano ou um argentino, com mais de 45 anos de idade, que não tenha lido os livros de Salgari no início da adolescência.
Em Portugal, esses livros foram publicados pelas edições Romano Torres logo no início do século. Na década de 1960, cada título da famosa “Colecção Salgari”, desde o nº 1, “A Montanha da Luz”, ao nº 152, “Sandokan e a Pantera de Sunderbunds”, custava 15 escudos. Eram livrinhos com umas 120 páginas em média, de formato 12 por 19, e belas capas com desenhos de origem italiana mostrando personagens de cores vivas e gestos violentos. Nunca comprei nenhum mas li-os todos. Os meus pais estavam ausentes em Peniche ou Caxias e o meu avô e tios, que cuidavam de mim, do meu irmão e das minhas irmãs, não tinham dinheiro para luxos. Mas também não era preciso. Na minha terra, Cascais, havia a biblioteca da casa Conde de Castro Guimarães. Para mim, foi durante dois ou três anos a biblioteca dos livros de Salgari. Ia lá na manhã do dia da semana em que não tinha aulas. Só podia requisitar três livros de cada vez. Os poucos leitores, deslizando silenciosamente entre as batidas solenes de um grande relógio dourado, iam buscar os livros às estantes de uma sala iluminada por uma única janela, rasgada ao fundo no paredão sobre a praia de Santa Marta. Ouvia-se o marulhar simpático do mar. Os livros tinham, sobre as capas originais, uma encadernação dura de cartolina vermelha ou verde. Encostava-me à estante folheando ora um, ora outro, hesitando na escolha, hesitando sobre para onde ir: se para junto de Sandokan, o “Tigre da Malásia”, e os seus corsários em luta contra os ingleses nos arquipélagos do sudeste asiático do século XIX; se para as Caraíbas com o “Corsário Negro”, a sua filha e os bandos de piratas que se batiam contra os espanhóis e os ingleses; se para o Brasil dos Tupis que disputavam a floresta aos colonos portugueses; se para a ilha de Madagáscar com os seus escravos revoltados; se para os “casbahs” de areia ardente dos salteadores do deserto do Saará.
Na contra-capa de “O Leão de Damasco”, nº 26 da Colecção Salgari (”Capitan Tempesta” no original italiano), um altivo castelo de tinta da china sobre azul erguia-se contra a lua e o mar. Ao olhar para o desenho e ao ler a palavra Damasco, ao pensar naquilo que aprendia nas aulas da história e geografia no Liceu de Oeiras e nos outros livros que por vezes requisitava por entre os Salgaris, quase sentia o ranger do cordame dos navios turcos do Mediterrâneo e o som da brisa nas palmeiras do deserto.
Entrei na adolescência e abandonei Emílio Salgari em favor de livros sem espadas e sem mosquetes, sem abordagens e selvas húmidas, sem animais de nomes estranhos e heróis de olhos em brasa, sem mulheres combativas e noites de tempestade. Depois reparei que todos tinham feito o mesmo: dos meus colegas e amigos, já ninguém lia Salgari, embora muitos - muitíssimos - mantivessem em casa, e num luminoso canto do coração, os livros da Romano Torres. Pior: reparámos que tão pouco os miúdos liam Salgari. No início da década de 1970, Emílio Salgari morreu. Em Portugal e por toda a parte.
Ressuscitou precisamente - e precariamente - em 1976 por via da televisão, do realizador italiano Sergio Sollima, do actor indiano Kabir Bedi. Foi uma série de dois episódios, de produção franco-italiana, intitulada “Sandokan”. Kebir Bedi encarnou o “Tigre da Malásia”. À série seguiram-se filmes, livros de banda desenhada, cromos, uma segunda vida para os velhos romances, agora na era da televisão. Parece que foi há trinta anos. E foi. Trinta anos que equivalem a trinta séculos de distância cultural. Com excepção dos cromos, que continuam a ser coleccionados e trocados, o “revival” Salgariano desvaneceu-se meia dúzia de anos depois, tão depressa como tinha surgido.
Os livros de Salgari não “pegaram” no nosso tempo, nem sequer com a série televisiva e o que se lhe seguiu, porque os seus livros assentam sobre os três pilares do ensino moderno burguês consolidado no século XIX: a história, a geografia, as ciências naturais, e hoje a divulgação e o ensino destas áreas do saber já não tem nada que ver com os livros, e menos ainda com a novela ou o romance que já não servem a informação ou a formação, mas o entretenimento. É um pouco por isso que as aventuras dos livros de aventuras se passam agora em sítio incerto ou lendário, em cronologia errática, em cenário minuciosamente artificial. A verificação não se faz noutros livros, faz-se nos outros produtos da indústria do entretenimento sem a constelação dos quais os livros não sobrevivem: os materiais feitos para a Internet e os brinquedos.
É provável que continue a haver muitos miúdos que lêem histórias, mas fazem-no não para saberem coisas ou para conhecerem esses “países estrangeiros” que são o passado, os outros… e os países estrangeiros. Fazem-no para se divertirem. Os livros de Salgari como, em geral, a novela e o romance, pertencem à cultura do livro que agoniza na arena pública há 50 anos perante o pasmo, a incompreensão, o desconforto e o ressentimento de educadores e intelectuais que não conseguem aceitar que tal cultura esteja a ser confinada rapidamente a uma elite, enquanto outras “coisas”, outras culturas, de perfil ainda pouco claro, tomam conta dos media, da esmagadora maioria das universidades, do espaço público.
É provável que qualquer miúdo saiba hoje o que é um “pecari” através de um canal como o National Geographic ou de uma simples pesquisa na Internet. Eu aprendi a páginas não-sei-das-quantas do “Corsário Negro” ou do “Corsário Vermelho” de Emílio Salgari. O “pecari” é um mamífero parecido com um pequeno javali que existe essencialmente na América do Sul e Central e cujos hábitos e aspecto Salgari descreveu entusiasticamente, a partir de enciclopédias e livros de viagens, como descrevia as plantas e a fauna “exóticas” de toda a parte.
Muitos anos depois de ter sepultado os seus livros no canto da memória onde também estão as batidas solenes do relógio dourado e a luz do sol da manhã sobre a praia de Santa Marta para lá da janela da biblioteca, lembrei-me muitas vezes de Salgari quando passei a ter a incrível sorte - que todos os dias agradeço aos deuses - de poder ir a alguns sítios onde nem toda a gente vai, não em turismo mas para ver o que se lá passa ou passou. Alguns desses sítios tinham já sido visitados por mim pela mão de Emílio Salgari e como ele os visitou: através da imaginação e da leitura. Foi assim ao olhar, no litoral do Brasil, para um manguezal, as árvores que mudam de raízes de modo a poderem deslocar-se, e que o escritor italiano descreveu como “árvores que andam”. Ou quando vi na Índia a minha primeira grande árvore “banian” cujo nome, como recordou Umberto Eco, aprendemos todos com Salgari. Senti-me o Visconde de La Hussiére do “Leão de Damasco” quando, na floresta de Ceilão, sacudi das pernas as sanguessugas que se preparavam para se alimentar de mim. A vida imitava a literatura. Era o que costumava fazer antigamente.
O cinema, essencialmente italiano, apoderou-se dos livros de Emílio Salgari desde o tempo do mudo no início do século XIX. Nas décadas de 1940 e 1950 fizeram-se filmes de argumento Salgariano no México e em produções italo-francesas. Nunca adiantou nem atrasou grande coisa. Emílio Salgari era para ler e foi através da leitura que chegou a toda a parte.
A toda não. Houve um canto do mundo dito ocidental no qual os romances Salgarianos só começaram a ser conhecidos no ano de 2003: trata-se de um canto importante, o mundo anglo-saxónico. É incrível mas é verdade. A primeira tradução para inglês de livros de Emílio Salgari ocorreu há quatro anos apenas! Tratou-se de “The Tigers of Mompracem” e “The Pirates of Malaysia” publicados por uma editora norte-americana.
Não sou muito de teorias da conspiração. Mas sou bastante de teorias do poder (às vezes é a mesma coisa). Penso que, durante todo o século XX, os editores ingleses fizeram deliberadamente de conta que Emílio Salgari não existia e contagiaram com esse silêncio os “primos” de além-Atlântico. A hostilidade britânica há-de dever-se a várias razões: talvez a snobeira de quem pensa ter melhores romances de aventuras, (com muita razão, acrescente-se); provavelmente o facto de o “mal” aparecer frequentemente identificado, nos livros de Emílio Salgari, com o império britânico. Os leitores Salgarianos não esquecerão nunca o arqui-inimigo de Sandokan, o infame “Rajah branco” da Malásia James Brooke, senhor de Sarawak, os opressores britânicos da Índia ou os governadores ingleses da Jamaica, personificação da maldade imperialista.
A última ressurreição de Emílio Salgari, que está a ocorrer nos nossos dias por “sites” da Internet e congressos académicos (e coincide - embora não por coincidência - com a sua penetração no mercado livreiro norte-americano), deriva do facto de o romancista ter sido “descoberto” como um autor anti-imperialista e anti-colonialista pela cultura pós-colonial dos círculos políticos e universitários da Europa e da América Latina.
Ou melhor: redescoberto. De facto, Emílio Salgari foi admirado entusiasticamente por personagens e autores como Che Guevara, Isabel Allende, Pablo Neruda e Gabriel Garcia Marquez. O Che, por exemplo, terá colhido dos romances do italiano alguma da inspiração para as viagens da sua juventude aventurosa. O anti-imperialismo da sua vida militante ter-se-á inspirado em personagens Salgarianos como o bengali Tremal Naik, o marata Kammamuri, o escravo negro Maiunga, que, entre muitos indianos, africanos, índios, imaginados por Salgari, demonstram uma singular ausência de racismo e um ponto de vista surpreendentemente cosmopolita. É muito grande o contraste entre os heróis de Salgari e os brancos de nariz levantado dos romances de outro grande contador de histórias de aventuras, o britânico Rider Haggard (1856-1925), autor de “As minas de Salomão” de 1885, livro que Eça de Queirós adaptou em 1891, um escritor muito estimado nos “clubs” de súbditos Sua Majestade britânica no século da rainha Vitória.
Em 2003, no início da recuperação pós-colonial de Emílio Salgari, podia ler-se no “site” da Biblioteca Nacional de Lisboa a propósito da Exposição “200 anos do romance de aventuras em Portugal”, que há um “fundo libertário na visão Salgariana de um mundo então eurocêntrico, racista e imperialista”.
Esqueceram-se do “sexista”. Uma pesquisa muito sumária na Internet com um ou dois motores de busca mais conhecidos chegará para demonstrar que os “women studies” ainda não descobriram Salgari. Mas não deve tardar porque abundam na galáxia Salgariana as estrelas femininas que não se limitaram a desempenhar o papel que o século XIX e o século XX burgueses lhes destinavam: o de vítimas ou de amantes. Há heroínas para vários gostos e há muitos romances centrados em personagens femininos de espada ou pistola na mão.
E também há portugueses, colocados por Salgari não do lado dos “europeus”, dos “racistas” e “imperialistas” mas, pelo contrário, do lado dos indianos, dos malaios, dos africanos, dos índios, dos piratas. Desde logo, é português o braço direito de Sandokan, o herói maior de Salgari: Yanez de Gomera (é verdade que é um nome castelhano mas não se pode ter tudo). Há portugueses no arquipélago malaio, nas florestas da Índia, no Mediterrâneo turco e veneziano, nas Caraíbas. São uma espécie de expatriados românticos. Poucos escritores não-portugueses terão tratado tão bem os portugueses.
Na época em que eu lia os livros de Emílio Salgari uns atrás dos outros como se a biblioteca do Conde de Castro Guimarães estivesse para desaparecer nos próximos dias, o meu avô mandava-me fechar o livro e apagar a luz relativamente cedo. À mesma hora, em milhares e milhares de casas, por toda a Europa, e, algumas horas mais tarde, por toda a América do Sul, milhares e milhares de rapazes e muitas raparigas fechavam os romances de Emílio Salgari e adormeciam nos mares do sul, nos refúgios dos piratas, nas areias do Saará, no vale do Ganges. Acho que adormecíamos todos e todas a sorrir: a Terra e a História eram nossas.





