quinta-feira, março 29, 2007

É sempre tempo de fazer uma comédia

In this heady mix, Berlusconi is the MacGuffin.

O novo filme de Moretti é complicado. Possivelmente, complicado demais. Um produtor fracassado de filmes de série B (Silvio Orlando/ Bruno Bonomo) tenta desesperadamente voltar a trabalhar. Mas o filme que procura agora fazer – porque é o único que lhe foi parar às mãos – é um filme político sobre Berlusconi, cinema «sério», «intelectual», «engajado», o oposto do que ele sempre fez. Ao mesmo tempo, Bonomo tenta salvar um casamento naufragado, toda a vida familiar com os seus dois filhos. «Il Caimano» (o filme de Moretti) inclui fragmentos de anteriores «filmes» de Bonomo e fragmentos de três versões diferentes do «filme» sobre Berlusconi. Acresce que a estética de série B dos filmes anteriores não tem nada que ver com a estética dos filmes de Moretti, pelo que a confusão narrativa também é confusão visual – e «Il Caimano» entra, por assim dizer, logo por uma cena de um destes filmes de série B.

É verdade que é confuso. O que é difícil imaginar é que «Il Caimano» seja um filme sobre Berlusconi – ou sobre «a Itália contemporânea», como alguns críticos procuraram atalhar, dizendo a mesma coisa de uma maneira ínvia (como se diz no filme, «a Itália contemporânea é Berlusconi»). Podia ser, quando muito, um filme sobre as tentativas para fazer um filme sobre Berlusconi e sobre as razões – expostas no próprio filme por uma personagem encarnada por Moretti – pelas quais não se pode fazer um filme sobre Berlusconi. Outros críticos tentaram decifrar a confusão esclarecendo que se trata de duas narrativas paralelas, dois filmes: um filme «familiar», a história do naufrágio do casamento do Bonomo, e um filme político - e, nessa circunstância, os ditos críticos preferiram, invariavelmente, a história familiar. Desagradou-lhes em especial a última cena do filme, por «política» e apocalíptica.

Parece-me que nem uns nem outros têm razão: nem são duas histórias separadas, nem a cena familiar é alguma espécie de metáfora da dimensão política. Aquilo que eu vejo no filme de Moretti - isto é, aquilo que eu vejo como sendo a ideia central do filme de Moretti - é a dificuldade, ou impossibilidade, de destrinçar a dimensão pessoal e a dimensão política, embora elas sejam, no plano lógico, duas coisas perfeitamente separadas. Mas o mal-estar que Moretti sente perante Berlusconi é puramente político, ou tem que ver com um sentimento de inadequação pessoal à Itália contemporânea? E o naufrágio individual, a depressão, a tristeza, é estritamente individual, ou social, geracional e política?

Estes temas, de resto, não são novos em Moretti. Aprile era o filme do nascimento do filho, e era também um filme assombrado por Berlusconi, o filme de

D’Alema, diz alguma coisa de esquerda!… Diz alguma coisa mesmo que não seja de esquerda, alguma coisa de cívico! D’Alema, diz uma coisa, diz qualquer coisa! Reage!

Palombella Rossa, o filme do fim do comunismo, passado num jogo de pólo aquático, não era apenas um filme sobre o fim do comunismo, mas um filme sobre Moretti no fim do comunismo e do PCI. Il Caimano é mais sombrio, mais deprimente, mais deprimido, de final apocalíptico - nada que quem conheça gente de esquerda mais ou menos da geração de Moretti não tenha notado: a desilusão, a um tempo pessoal e política. Enquanto foi sonho, foi fantasia pessoal e política; enquanto frustração, também o é.

O que não impede que Moretti continue a encontrar no cinema uma compensação para isso, que o filme - mesmo deprimente, mesmo apocalíptico - não seja uma certa forma de se reconciliar com as coisas. Gostar muito de cinema traduz sempre uma relação conflitual com a realidade exterior? Por isso mesmo é que «quem gosta da vida vai ao cinema», como dizia há muito tempo João Mário Grilo?

[Apesar da confusão, e de talvez ligeiramente longo demais, Moretti ****].

quinta-feira, março 15, 2007

Honra a Riga

riga_old.jpg
Riga num postal por volta de 1900

Não: Munique 1938 não foi igual ao Pacto nazi-soviético. Nem, quer-me parecer, equivalente. Em Munique, a França de Daladier e a Grã-Bretanha de Chamberlain não se apropriaram do território de nenhum Estado europeu em troca da paz com Hitler. Em Munique, as potências democráticas não repartiram com os nazis um pedaço da Europa central, um bocado para cada; a URSS com a Alemanha nazi, sim.

É natural que o António Figueira não tenha reparado nisso, porque a quota que coube aos soviéticos parece, aos olhos dele, uma parte natural do império russo – e o desprezo que ele tem pelas nações ex-soviéticas do Báltico, depois do último post, deixou de ser segredo. Mas também não é verdade que Isaiah Berlin, judeu que nasceu em Riga, pudesse ter nascido em Tallin (então Reval). Riga era, já desde antes da primeira guerra mundial, uma das maiores metrópoles da Europa Central e de Leste. Tinha – como ainda se pode ver se se lá for – uma industrialização iniciada, uma burguesia local desenvolvida, avenidas largas, prédios de arte-nova, uma vida cosmopolita. E era uma das cidades com mais judeus na Europa, judeus que foram dizimados da noite para a manhã (como diz o Figueira – nesse aspecto com razão) com a cumplicidade activa da população local. Mas nisso, no facto de ter judeus, como no facto de ter burguesia local, industrialização, avenidas largas, prédios de arte-nova e ser uma cidade cosmopolita – em tudo isso se distingue da Estónia e em particular de Tallin, como se pode ver até hoje. A Estónia, quando foi ocupada pelos nazis em 1941, tinha muito poucos judeus para dizimar – essa é uma fraca virtude, pode até dizer-se que é uma medida da sua inferioridade, mas não pode acusar-se a Estónia pelas centenas de milhares de judeus dizimados em Riga.

«Estados do Báltico» é uma vasta categoria: em rigor, Estados do Báltico são nove, e incluem a social-democrata Suécia bem como a Dinamarca, a Finlândia, a Alemanha. A Estónia, a Letónia e a Lituânia compartem a circunstância de terem emergido como nações independentes na sequência da desagregação dos impérios europeus em 1919 (como várias outras nações da Europa central), terem sido incluídas no pacto nazi-soviético, ocupadas pela URSS, ocupadas pela Alemanha, e ocupadas de novo pela URSS de 1944 a 1990. Esta circunstância de sessenta anos não torna os três países idênticos, e em rigor deveria fazer pensar duas vezes antes de falar em «Estados do Báltico».

A industrialização da Estónia ocorreu nas décadas de cinquenta e sessenta; foi soviética, sem burguesia local nem judeus nem (hélas) prédios de arte nova nem avenidas largas. A Estónia era, e em larga medida continua a ser, um país de camponeses; não tem uma cidade digna desse nome para apresentar ao turista. Tem um centro histórico medieval cheio de muralhas, e flores, e meninas vestidas como se tivessem acabado de sair de uma história de Hänsel und Gretel, para entreter as hordas de turistas italianos, espanhóis, portugueses que lá se dirigem em excursão (também tem álcool barato para os moços finlandeses e ingleses que se embebedam em despedidas de solteiro). Riga tem uma série de problemas, incluindo a perseguição injusta à população russa, tensões étnicas, etc., mas é uma cidade a sério, graças àquilo que foi até há cerca de um século. E não tem, com toda a probabilidade, também nada que ver com Vilnius ou com a Lituânia, um país que a história aproxima muito mais da influência polaca do que da influência russa – e que hoje não tem uma questão russa comparável à dos outros dois.

Bem sei que o texto do António Figueira não era sobre isso, mas sobre a equiparação entre nazismo e comunismo que está subjacente às remoções e colocações de monumentos na Estónia. Não quero discutir a equiparação do nazismo com o comunismo. Sem dúvida que, se colocada nos termos em que a coloca Nolte – como «guerra civil europeia», o fascismo e o nazismo como resposta defensiva ao ataque bolchevique –, a comparação é de rejeitar. Mas isso não faz de todos os que colocam a questão da experiência histórica do nazismo e do comunismo ipso facto partidários do Nolte – nem faz deles anti-semitas, relativizadores do nazismo (o «Mal Absoluto» - expressão que eu não partilho) e sei lá eu que mais. Acresce que, ainda que a II Guerra Mundial tenha sido ganha por uma aliança entre os EUA, a GB e a URSS, daí não decorre que a UE tenha de ter uma doutrina oficial (um «adquirido civilizacional», como lhe chama o Figueira) sobre o grau de malignidade relativa do comunismo e do nazismo. Eu também acho – já achava quando escrevi aquilo – que, para além de ser imoral andar agora a construir monumentos aos soldados nazis falecidos, aquele género de provocações descaradas à Rússia e à minoria russófona da Estónia era muito má ideia. Mas não partilhei, nem partilho, dos termos absolutos em que o Figueira se refere à «querela histórica» da Estónia, nem da tendência para medir as virtudes e crimes históricos da Estónia pelo que se passou nos outros sítios.

Leituras de Fevereiro

Pelo Google Reader - que armazena os posts dos meus blogs preferidos e os deposita como se fossem emails numa mailbox - pude ler retrospectivamente os blogs de Fevereiro. Foi graças a isso que li o Pedro Magalhães sobre a modernização dos costumes em Portugal, a propósito do referendo do aborto: sempre muito informativo, como também estas notas sobre o voto católico e a alegada popularidade de Sócrates. Um apontamento de humor com Jerónimo de Sousa. Os diários de Pedro Mexia. As anotações do João Pinto e Castro sobre a crise da imprensa diária e a abstenção. E O Céu sobre Lisboa, que continua a ser o meu blog preferido, uma espécie de literatura de viagens sem viagens: o eléctrico 28; música para badalos e música para foguetes; vantagens de integrar uma mesa eleitoral; os dois aviões do jardim do torel; o café do São Jorge; o Príncipe Real ao domingo à tarde; o inquérito à arquitectura portuguesa do século XX; e a publicidade nos transportes públicos.

quinta-feira, março 08, 2007

Cenas da luta de classes na América Andina

consuelo.jpg

A primeira vez que tropecei no nome de María Consuelo Araújo foi há menos de dois meses, no Público. Jovem (35 anos), de sardas, estava incrivelmente bonita na fotografia que ocupava quase uma página. Nas redacções dos jornais, a visita da Ministra dos Negócios Estrangeiros da Colômbia a Portugal também causou burburinho. Da Colômbia? Da Colômbia, pensamos em traficantes de droga, Pablo Escobar, grandes bairros de lata, assassinatos com armas de fogo em Bogotá e Medellín, homens cabeludos e excêntricos como Valderrama, como Higuita (o guarda-redes que nunca estava na baliza), ou no defesa que no Mundial de futebol de 1994 marcou um auto-golo fatídico: propriamente fatídico, que por causa dele foi assassinado ao regressar ao país. Pensamos em índios, em gente mestiça; pensamos menos em loiros, de olho azul, que também os há entre a elite, ou em ministras jovens, modernas, imaculadamente brancas, com mestrado nos Estados Unidos. María Consuelo Araújo – informei-me em Janeiro – tem o crédito moral de ser sobrinha de uma jornalista, e depois ministra, que foi raptada pelas FARC e assassinada em 2001.

A segunda vez que tropecei no nome de María Consuelo Araújo foi há quinze dias. O irmão, Álvaro Araújo, é um dos oito parlamentares da maioria que sustenta o governo a ter sido preso, acusado de ligações aos grupos paramilitares, a quem teria garantido favores em troca de votos obtidos por meio de extorsão e intimidação. O pai da ministra, também ele antigo deputado e ministro, está igualmente sob investigação no âmbito do mesmo assunto. As ligações da maioria parlamentar de direita aos grupos paramilitares põem em causa a credibilidade do governo colombiano, tanto no plano interno como no externo, quer por questões de respeito pelos direitos humanos, como pelos compromissos assumidos com os Estados Unidos no combate ao tráfico de droga. Os grupos paramilitares controlam grande parte do tráfico de cocaína e são acusados de alguns dos piores massacres perpetrados na guerra civil que assola o país há décadas. A posição política de María Consuelo Araújo, com a sua biografia e a sua família, tornou-se insustentável, e a ministra caiu.

É fascinante a quantidade de coisas que a fotografia de uma ministra bonita, jovem, imaculadamente branca, de sardas, com mestrado nos Estados Unidos, nos sugere sobre um país.

quinta-feira, março 01, 2007

Macacos, não me mordam



Gangues de macacos semeavam o terror na estação de comboios de Benares, atacando e pilhando. Comecei por olhar para eles com uma curiosidade simpática, pelas enormes semelhanças que têm com a nossa espécie. Similitude: são símios. Felizmente um indiano chamou-me a atenção para que, se eles olhavam para mim, não era por curiosidade recíproca: estavam de olho no meu cacho de bananas.
Depois de terem perdido perspectivas sobre as minhas bananas, perseguiram, num gangue de dez, um cão que fugia. Mordiam-no e assustavam-no por pura maldade. Só depois de guardar as bananas na mochila percebi o perigo. Os macacos mordem, atacam em bando, estão permanentemente em pose de predadores, à procura da vítima. Na Índia estão por todas as partes, telhados, ruas, estações de autocarro e comboio, templos. Também há cabras, cães, ratos (nas estações de comboios e nos comboios) e as proverbiais vacas; só gatos são um pouco menos conhecidos. Num outro dia, em novo exercício de amabilidade, dei amendoins à mão de um macaco, no túmulo de Akbar, em Agra. Quando acabaram, o macaco deu-me uma palmada na cara, à procura de mais. O macaco é o lobo do homem. [Ler também aqui.]

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Notícias da Índia

Na Índia, por estes dias, discute-se a possibilidade de que o adultério deixe de ser criminalmente punido.

«Trata-se de uma questão mentirosa», como já explicou M. R. D’souza. «Despenalização eu seria a favor, mas do que se trata é da liberalização do adultério. A partir de agora, a mulher ou o homem vão poder cometer adultério porque sim, sem terem de se justificar perante ninguém.» O economista J. C. Neves acrescentou que «ter um amante passará a ser um símbolo de status, tão normal como comprar um telemóvel novo». Grupos que se opõem à despenalização apresentaram estudos científicos que demonstram que o adultério é causa de graves perturbações psicológicas para os cônjuges, e que o parceiro ofendido sente dor. «Encornar por opção, sabendo que bate um coração?», pergunta um destes movimentos. O antigo ministro da Segurança Social Baghandas Felix acredita que a liberalização resultaria num aumento do número de divórcios, com o seu cortejo de efeitos negativos tanto ao nível psicológico como social, e para as crianças tanto quanto para os pais. Lembra ainda que a Índia é o país do mundo com maior número de pessoas consideradas «pobres» ou «extremamente pobres» segundo os critérios do Banco Mundial, e que o divórcio dos pais é, em todo o mundo, um dos principais factores propiciadores da pobreza das famílias. Estes factos, bem como o risco da propagação descontrolada da SIDA, estão a inquietar largos sectores da população indiana, que receiam as consequências negativas de uma liberalização do adultério. A Índia é, actualmente, o país com a mais alta taxa de crescimento de infectados por HIV em todo o mundo.

Como a pradaria

annanicole.jpg
Anna Nicole Smith e J. Howard Marshall, no dia em que se casaram

O texto do Economist sobre Anna Nicole Smith é o melhor obituário que tenho lido em muito tempo.

(…) what you saw first, on meeting Ms Smith, were the Breasts. There were only two of them, but they made a whole frontage: huge, compelling, pneumatic. (…) These were celebrated, American breasts, engineered by silicon to be as broad and bountiful as the prairie. (continua.)

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

O descobrimento do Brasil


A primeira coisa em que reparei, ao chegar a Bombaim, foi que fazia lembrar o Rio de Janeiro. Mas não liguei muito: a mim tudo faz lembrar o Rio de Janeiro - a baía de Xangai, aos meus olhos, é Copacabana - e de qualquer forma eu estava cansado e não tinha dormido. Depois notei, quando estava no hotel, que o barulho que vinha da rua era parecido, a temperatura do ar, o cheiro, a humidade, o som dos pássaros - porque eu estava nos trópicos. Os passeios de Bombaim fazem lembrar os do Rio de Janeiro: um Rio de Janeiro um pouco mais sujo, mais poeirento, mais desordenado e mais pobre, mas o pavimento e o asfalto são parecidos, e no Rio também se vêem famílias com criancas vivendo na rua e pedindo. Ja Marine Drive é a Avenida Atlântica sem os morros em fundo: basta passear pelo calçadão olhando os prédios modernos dos anos cinquenta na orla marítima; os restaurantes das ruas adjacentes também são parecidos. Voltei a encontrar a Zona Sul em Kemps corner, onde entre duas ruas se ergue um morro com um prédio altíssimo: as escalas são iguais às do Rio, assim como o contraste entre o natural e o construído (infelizmente, não tenho fotografias). De modo que já nao me espantou mesmo nada quando, por acaso, passeando por Deli, tropecei neste pedaço de video. Sinto-me como o Cabral, que ia para a Índia e achou o Brasil.

*
Mas ninguém me tinha prevenido para Deli, das cidades mais extraordinárias onde alguma vez estive, talvez mais impressionante do que Roma, e com livrarias pequenas e surpreendentes como Londres ou os Estados Unidos.

quarta-feira, janeiro 24, 2007


Retrato de Tom Zé por Vera Tavares, do livro

[Esta nota sobre o recente livro de entrevistas de Carlos Vaz Marques a músicos brasileiros, MPB.pt (edições Tinta da China), saiu no Le Monde Diplomatique - edição portuguesa deste mês.]

Carlos Vaz Marques recolhe em livro um conjunto de entrevistas que fez com músicos brasileiros para o programa de rádio «Pessoal e… Transmissível». Não é perfeitamente claro que haja nestas entrevistas uma identidade de estilo: algumas são biográficas, outras quase «doutrinárias»; algumas apresentações de músicos, outras conversas com interlocutores desde há muito conhecidos. Apesar do título (MPB.pt), é até duvidoso que a designação «música popular brasileira» ainda represente alguma coisa unificada, que inclua desde Hermeto Pascoal a Maria Rita, unidos pelo mero acaso de terem estado em Lisboa. As introduções feitas por Carlos Vaz Marques também seguem modelos díspares. Há entrevistas luminosas: Chico Buarque tem uma grande inteligência nas formulações, uma riqueza verdadeiramente literária na escolha das palavras. Há curiosas conversas de pendor biográfico com Edu Lobo ou Lenine; a inteligência, embora um pouco lacónica, de Marisa Monte; ou a criatividade torrencial de Tom Zé. Também há entrevistas quase sem assunto (que há para conversar com Maria Rita, se não é de muito bom tom falar apenas da mãe?), ou desagradáveis por demasiado narcísicas (Ney Matogrosso ou Caetano Veloso, todo o tempo dizendo «eu sou assim e assado», «eu acho-me isto e aquilo»).
A riqueza do livro está escondida no cd de cerca de uma hora que o acompanha, colado na última página, com fragmentos gravados das entrevistas. Aí, o que parecia um excesso «doutrinário» de Hermeto Pascoal (um discurso filosófico que às vezes faz lembrar o de Agostinho da Silva) resulta irónico, humorado, divertido. Uma entrevista com Chico César que quase não existe no papel transfigura-se no som, à medida que ele ilustra musicalmente o seu discurso e a sua história de vida. Vanessa da Mata ganha outro encanto quando se ouve o seu riso; e também Maria Rita resulta mais interessante. E é no disco que a perícia de montador de Carlos Vaz Marques vem ao de cima, fazendo coisas em áudio que o texto não permite, pondo os músicos a «dialogar» uns com os outros, criando sequências temáticas, explorando ironias.
Ao ouvir o disco, a própria unidade temática resulta plausível, porque se ganha uma noção da diversidade das raízes – em grande medida populares – musicais do Brasil. Isso é patente em Hermeto, Tom Zé, Chico César e, de uma outra maneira, em Edu Lobo, Chico Buarque, Egberto Gismonti. Na verdade, este livro é um disco, e não tem por que ser um livro. Talvez convenções de ordem comercial o justifiquem. Mas é no formato áudio que ganha riqueza de documento e testemunho.

quinta-feira, janeiro 18, 2007

Dez filmes em 2006


O ano passado foi para mim um belíssimo ano em termos de cinema. Basta ir buscar as listas de 2004 e 2005 para comparar. Depois de A History of Violence, o melhor foi The Departed – Entre Inimigos, de Leonardo Di Caprio. Perdão, de Martin Scorsese. Já não havia um Scorsese tão bom desde, pelo menos, Casino (1995); e Jack Nicholson, como actor, também não é nada para deitar fora. (Aliás, gostei de Mark Wahlberg e até de Vera Farmiga.) Depois, Me and You and Everyone We Know, realizado e protagonizado por uma norte-americana de 32 anos chamada Miranda July. Vi-o em finais de Julho, de modos que para mim foi a grande surpresa do primeiro semestre. O primeiro filme a sério na rentrée foi Volver, de Almodóvar e Penélope Cruz, esta num belíssimo papel evocativo de Anna Magnani e do cinema italiano dos anos 1950. Os meus actores do ano, aliás, são Penélope e Di Caprio - que eu estava capaz de jurar, até ao ano passado, serem ambos péssimos.

Com estes quatro – History of Violence, The Departed, Me and You and Everyone We Know, Volver – fecha uma espécie de pódio.

O segundo pódio tem três filmes, com algumas afinidades de género. Primeiro A Rainha, subtil reconstituição política da semana que se seguiu à morte da Princesa Diana. Depois, Paradise Now, um filme palestiniano sobre dois bombistas suicidas que é surpreendente e não panfletário. Por fim, o português desta lista, o documentário de Sérgio Tréfaut sobre imigrantes em Lisboa. O título – Lisboetas – faz todo o sentido e o filme é talvez um dos melhores retratos da Lisboa contemporânea que eu teria para mostrar a amigos estrangeiros. Estou à espera do dvd. (O Rui Tavares escreveu sobre ele e eu transcrevi - aqui.)

A Rainha, Paradise Now e Lisboetas são três filmes políticos. Curiosamente, aquele que é menos directamente político é o documentário.

O último segmento de três são bons filmes, que cabem bem em qualquer lista de melhores do ano, mas não são óptimos como os quatro primeiros, nem surpreendentes como os três seguintes. Match Point foi tratado como um Woody Allen «sério», como o «regresso de Woody Allen» aos grandes filmes, já para não dizer que é um «regresso do velho Woody Allen», como todos os anos alguém anuncia. Mas eu não achei assim tão sério. Aliás, eu gostei na medida em que não é sério, mas pelo contrário é irónico, é divertido, joga com as expectativas e subverte-as. O filme só me conquistou totalmente a partir da cena em que Jonathan Rhys-Meyers deita o anel ao rio e ele bate na separação, ecoando a cena inicial da bola de ténis: a partir daí, não há brincadeira a que Woody Allen nos poupe. Mas não é um filme especialmente sério, só porque mete ópera e Dostoievski, nem é assim tão diferente de outros divertimentos de Woody Allen, só porque se passa em Londres. É um bom filme em qualquer dia da semana, como são Manhattan Murder Mistery (1993) ou The Curse of the Jade Scorpion (2001), mas também não é muito mais que isso.

Por fim, há o melodrama gay de Ang Lee – Brokeback Mountain –, a melhor coisa que vi no género desde As Pontes de Madison County (1995). E, a fechar (em todos os sentidos), o último Robert Altman.

Ainda deixei de fora uma mão-cheia de filmes que em qualquer ano normal poderiam entrar na lista. Caché, um filme surpreendente de Michael Haneke. Walk the Line, ao qual devo a descoberta de Johnny Cash – aliás, provavelmente a descoberta mais importante que fiz em 2006. A Lula e a Baleia. O filme sobre o pós-guerra bósnio que passou praticamente despercebido, mas não era nada mau – Grbavica. The Corpse Bride, a animação de Tim Burton, e Dans Paris.

Fica então assim:

  1. A History of Violence, de David Cronenberg
  2. The Departed, de Martin Scorsese
  3. Me and You and Everyone We Know, de Miranda July
  4. Volver, de Pedro Almodóvar
  5. A Rainha, de Stephen Frears
  6. Paradise Now, de Hany Abu-Assad
  7. Lisboetas, de Sérgio Tréfaut
  8. Match Point, de Woody Allen
  9. Brokeback Mountain, de Ang Lee
  10. A Prairie Home Companion, de Robert Altman

E ainda: Dans Paris, Caché, Grbavica - Filha da Guerra, Walk the Line, A Lula e a Baleia, The Corpse Bride.

Os piores: Charlie e a Fábrica de Chocolate, Hard Candy e Good Night and Good Luck.