quinta-feira, janeiro 11, 2007

Early morning blog

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Detalhe de fresco de Pisanello, na Basílica de Santa Anastácia, em Verona

O enforcamento
(George Orwell, «The Hanging», originalmente publicado em Agosto de 1931, disponível na íntegra por exemplo ali.)
[Tradução: Ivan Nunes/ Paulo Varela Gomes.]

Isto passou-se na Birmânia, numa manhã pesada da estação das chuvas. Uma luz doentia, de estanho amarelo, incidia obliquamente por sobre os muros altos do pátio da prisão. Esperávamos à porta das celas dos condenados, uma fila de barracos com grades duplas como se fossem pequenas jaulas de animais. Cada cela media cerca de três metros por três e não tinha praticamente nada, apenas uma tábua de dormir e um cântaro de água potável. Em algumas celas havia homens de pele escura agachados em silêncio junto às grades, com os lençóis enrolados à volta do corpo. Eram os condenados, prontos a serem enforcados na semana seguinte ou na outra.
Um prisioneiro tinha sido retirado da sua cela. Era um hindu, fraca amostra de gente, cabeça rapada, olhos vagos e líquidos. Tinha um bigode espesso, farfalhudo, absurdamente grande para o tamanho do seu corpo, como os bigodes dos actores cómicos no cinema. Guardavam-no seis grandes carcereiros indianos, que o preparavam para a forca. Dois deles permaneciam ao lado, com espingardas de baionetas caladas, enquanto os outros o algemavam, passavam uma corrente pelas algemas, prendiam-na aos seus cintos, e amarravam-lhe bem os braços de ambos os lados. Andavam mesmo em cima dele, com as mãos sempre a agarrá-lo, num aperto meticuloso, acariciador, como se o estivessem a apalpar para terem a certeza de que estava lá. Era como se estivessem a segurar um peixe ainda vivo que pode saltar de novo para a água. Mas o homem permanecia perfeitamente submisso, entregando os seus braços flacidamente às cordas, como se mal notasse o que estava a acontecer. (…)
Dali até ao cadafalso eram cerca de 35 metros. Eu observava as costas morenas e nuas do prisioneiro caminhando à minha frente. Andava desajeitadamente com os braços atados, mas de forma bastante firme, com aquele andar bamboleante dos indianos que nunca endireitam os joelhos. A cada passo, os seus músculos deslizavam perfeitamente no lugar, a mecha de cabelo no seu crânio dançava para cima e para baixo, os pés deixavam marca na gravilha molhada. E uma vez, apesar dos dois homens que o agarravam pelos ombros, desviou-se ligeiramente no caminho para evitar uma poça.
É curioso, mas até àquele momento eu não me tinha apercebido do que significa destruir um homem saudável e consciente. Quando vi o prisioneiro desviar-se para evitar a poça, percebi o mistério, a iniquidade inexprimível, que consiste em acabar com uma pessoa que está em plena vida. Este homem não estava a morrer, estava vivo exactamente como nós. Todos os orgãos do seu corpo funcionavam – os intestinos digeriam a comida, a pele renovava-se, as unhas cresciam, havia tecidos a formarem-se – tudo cumpria a sua função de uma maneira solenemente absurda. As unhas continuariam a crescer enquanto ele estivesse já no cadafalso, e ainda quando caísse no vazio com uma décima de segundo para viver. Os seus olhos viam a gravilha amarela e os muros cinzentos, o seu cérebro lembrava-se, previa, pensava – pensava até sobre poças. Nós e ele formávamos um grupo de homens caminhando em conjunto, vendo, ouvindo, sentindo, percebendo o mesmo mundo; daí a dois minutos, depois de um súbito estalido, um de entre nós ter-se-ia ido – menos uma cabeça, menos um universo.
O cadafalso ficava num pequeno pátio, separado dos terrenos principais da prisão, coberto por uma vegetação alta e agressiva. Era uma construção de três paredes de tijolo cobertas por umas tábuas. Por cima, duas vigas e uma trave com a corda a baloiçar. O carrasco, um condenado de barba grisalha vestido com o uniforme branco da prisão, esperava junto da sua máquina. Cumprimentou-nos com uma vénia servil quando entrámos. A uma palavra de Francis, os dois carcereiros, agarrando o prisioneiro de forma mais firme que nunca, encaminharam-no, ou empurraram-no*, para o cadafalso e ajudaram-no desajeitadamente a subir a escada. Nessa altura o carrasco também subiu e ajustou a corda ao pescoço do prisioneiro.
Permanecemos à espera, a quatro ou cinco metros de distância. Os carcereiros tinham formado uma espécie de círculo à volta do cadafalso. E então, quando o nó foi apertado, o prisioneiro começou a gritar pelo seu deus. Gritava alto, repetidamente, «Ram! Ram! Ram! Ram!», não de forma urgente ou assustada como uma reza ou um pedido de ajuda, mas de maneira regular, ritmada, quase como as badaladas de um sino. (…) O carrasco, que permanecia de pé no cadafalso, pegou num pequeno saco de algodão com a forma de um saco de farinha e enfiou-o pela cabeça do prisioneiro. Mas o som, abafado pelo tecido, mesmo assim persistia, uma e outra vez: «Ram! Ram! Ram! Ram! Ram!»
O carrasco desceu e postou-se ao lado da forca, com a mão na alavanca. Tudo parecia acontecer muito devagar. O grito abafado, persistente, do prisioneiro continuava – «Ram! Ram! Ram!» –, sem vacilar um instante. O supervisor, de cabeça pousada sobre o peito, batia lentamente com a sua vara no chão; talvez contasse os gritos, permitindo ao prisioneiro emitir um número determinado – cinquenta, talvez, ou cem. Toda a gente tinha mudado de cor. Os indianos estavam a ficar cinzentos, cor de café de má qualidade, e uma ou duas das baionetas tremiam. Observávamos o homem amarrado, encapuçado, no cadafalso, escutávamos os seus gritos – cada grito mais um segundo de vida; um único pensamento ocupava as cabeças de todos: matem-no depressa, acabem com isto, parem com este barulho abominável!
Subitamente o supervisor decidiu-se. Levantando a cabeça, fez um movimento rápido com o pau. «Chalo!», gritou, de forma quase feroz.
Ouviu-se um retinir de correntes, e a seguir um silêncio absoluto. O prisioneiro estava morto, e a corda retorcia-se sobre si mesma. (…) Aproximámo-nos do cadafalso para inspeccionar o corpo do prisioneiro. Estava pendurado com os dedos dos pés apontados para baixo, girando muito lentamente, morto como uma pedra.
O supervisor pegou na vara e empurrou o corpo nu, que oscilou ligeiramente. «Este já era», disse o supervisor. Saiu de debaixo da forca e expirou profundamente. Subitamente, a sua face já não ostentava um aspecto mal-humorado. Olhou para o relógio. «08h08. Bem, graças a Deus por hoje é tudo.»
Um enorme alívio abateu-se sobre nós, agora que o trabalho estava feito. Dava vontade de cantar, desatar a correr, dar risadinhas. De um momento para o outro começámos todos a conversar alegremente. (…)

*

Bom dia!©

quinta-feira, janeiro 04, 2007

Três notas sobre o enforcamento

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1.

Para mim, a imagem mais forte foi a do antigo ditador no cadafalso, cara descoberta, perante carrascos encapuçados que lhe apertavam a corda à volta do pescoço. Não tenho muita rotina de assistir a enforcamentos: não sei se o espectáculo foi normal dentro do género. Mas impressionou-me a imagem de um homem enfrentando três sujeitos que iam matá-lo de cara escondida. De que se escondiam os homens com os gorros pretos? Um acto de Direito pode ser praticado por sujeitos embuçados? Uma justiça que oculta a sua cara ainda é Justiça?
Foi talvez isto, mais do que as declarações do enfermeiro Ellis, mais do que o facto de ele enfrentar a morte em abstracto (ele não enfrentava A Morte: enfrentava os que o matavam), que humanizou Saddam no cadafalso. Tudo aquilo era fortemente evocativo de uma vingança privada, de um acto clandestino. As notícias posteriores confirmaram esta ideia. Não restam nenhumas dúvidas, a qualquer pessoa séria, de que o que se praticou foi o linchamento de Saddam Hussein.

2.

Terá sido, como se diz, um assassinato político? Ou o culminar de um processo judicial? Infelizmente, nem uma coisa nem outra. O problema do enforcamento de Saddam não é só ter sido um gesto político: é não ter sido suficientemente um gesto político. Explico-me. O assassinato como método político é sempre complicado; mas tem, por assim dizer, a sua dignidade enquanto raciocínio. Os que recorrem a essa prática argumentam geralmente que ela evita males maiores: por exemplo, que matam o cabecilha para desmoralizar a resistência e com isso poupar vidas. (Não vale a pena elaborar muito sobre a triste história do assassinato como método político, incluindo por parte de movimentos revolucionários e de esquerda. Onde pára uma morte, mesmo a que parece razoável num contexto particular? Quantas são ainda justificadas: dez, cem, cem mil? Onde acaba a boa intenção purificadora de fazer justiça e começa uma engrenagem que desemboca no assassinato em massa, na «limpeza», na «purificação política»?)
Mas, no caso de Saddam, longe de servir um objectivo político de pacificação, os efeitos do assassinato (ainda mais reforçados pelas circunstâncias: pelo video que apareceu, pelo dia escolhido) só podem agravar o conflito interétnico no Iraque. Como se justifica manter três anos em cativeiro um homem e, ao fim de três anos, ocupados com um simulacro de julgamento, matá-lo? Que objectivo político é que o seu enforcamento prosseguiu?
Os crimes de Saddam, deste ponto de vista, são irrelevantes. A vingança não repara os crimes. Os homens têm o direito de punir outros homens em função de efeitos sociais desejáveis (para o manter afastado, para o tornar inofensivo, para dar um exemplo à sociedade sobre o que pode e não pode ser feito), mas nenhuma dessas questões estava concebivelmente presente aqui. Por outro lado, um julgamento a-histórico sobre o bem e o mal, num plano definitivo, cabe a Deus, não aos homens. «Terá Hitler entrado no paraíso?», perguntava um dia numa crónica João Bénard da Costa (talvez, não me lembro, parafraseando alguém). E respondia: é possível. Esse tipo de julgamento sobre o bem e o mal num sentido absoluto não nos compete a nós, que somos todos iguais, igualmente relativos.
A execução de Saddam consistiu em dar a um grupo de pessoas o prazer de dispor da vida de um indivíduo. O som do cadafalso que se abre, da reza que se interrompe, do pescoço que se parte, dá-nos o momento em que eles decidiram que o animal-Saddam deixava de estar vivo. O barulho do pescoço de Saddam é o barulho do pescoço de qualquer homem.
Os americanos guardaram durante três anos o antigo ditador para o entregarem a esta cerimónia. A tentativa de os distanciar da responsabilidade por este acto – num país que eles ocuparam, numa guerra civil que eles criaram, apesar de todos os avisos – é outro simulacro.

3.

E no fim há também uma espécie de riso que se escuta em fundo, por esta farsa que chamaram de justiça, num processo em que só houve mentiras: o chefe de Estado deposto ao abrigo de uma guerra ilegal, que acaba enforcado em nome da Lei. Sem essa guerra ilegal, o antigo ditador poderia discursar hoje mesmo no palanque das Nações Unidas. Quando se fala em justiça neste enforcamento (quanto mais em democracia), a dissonância, a incoerência, salta à vista, como uma nota fora de tom. Um simulacro de justiça onde tudo foi injusto até aqui. Seria preciso ser muito estúpido, além de desinformado, para imaginar que com este enforcamento se realizou justiça. Como se estivessem a gozar com a nossa cara. Como se se estivessem a rir.

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Réveillon no Lixo

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Capa da edição em inglês do livro de Ruy Castro, Carnaval no Fogo

Três anos atrás, eu estava no Rio. Na semana entre o Natal e o Ano Novo, as praias de Copacabana, Ipanema, Leblon são invadidas por números indescritíveis de pessoas. As praias cheiram mal. A água está tudo menos limpa. Na noite do réveillon, a população desce à praia em quantidades calculadas entre os dois e os três milhões de pessoas. Os hotéis e os navios aportados organizam um festival de fogo-de-artifício que dura uma meia-hora. Eu estava com os pés dentro da água do mar; uma garrafa vazia de espumante veio com as ondas e acertou-me na canela. Os cariocas (e os turistas) festejam a meia-noite na praia, levam a bebida, deitam as garrafas vazias no mar (junto com as flores a Iemanjá). No dia primeiro de Janeiro, saí à rua em Copacabana e não se conseguia andar, com o lixo, um bairro do tamanho de uma cidade média (ou mais) de Portugal inteiramente cheirando a urina. Tive de apanhar o autocarro e ir fazer tempo em Ipanema até à hora de apanhar o meu vôo. Não foi um bom réveillon.
Lembrei-me disto agora por – naturalmente – várias razões e porque entre os melhores livros estrangeiros publicados este ano em Portugal o Pedro Mexia colocou o do Ruy Castro sobre o Rio de Janeiro. Comprei-o lá, nesse mês de Dezembro de 2003, com sentimentos divididos (por não ter gostado de outros livros do Ruy Castro – mas os temas são sempre muito bons: a bossa-nova, Nelson Rodrigues, Carmen Miranda, Garrincha). A edição era bonitinha e ficou ali na estante até agora – até à lista de melhores de 2006 do DN da sexta-feira passada. Fui ler. O Ruy Castro nunca me decepciona. São duzentas e cinquenta páginas – pequeninas, é certo – das quais odiei praticamente cada linha. Não sorri uma única vez, não me fez pensar quase nada, não despertou curiosidade. Arrastei-o pesadamente ao longo de dois ou três dias – com um brevíssimo intervalo, quase no final: um conjunto de páginas sobre a história da bossa-nova (que o Castro conhece). O Castro não tem graça e faz piadas, o Castro não é historiador e abusa de um estilo que evoca o nosso José Hermano Saraiva: «Foi aqui…»

«Surpreendentemente, uma outra especialidade dos tupinambás, observada pelos visitantes, não conseguiu diminuir sua cotação em sociedade: o canibalismo. (…) No dia marcado para a execução, as aldeias vizinhas eram convocadas para a boca-livre e acorriam em hordas. Depois de muito canto e dança, os convidados sentavam-se no chão, formando um grande círculo. O prisioneiro era chamado ao centro do terreiro, tinha o seu corpo pintado e davam-lhe pedras e cacos de cerâmica para atirar em seus captores. Fazia também parte da regra que ele lhes dirigisse os piores xingamentos e jurasse que seus irmãos viriam vingá-lo. No auge do discurso, levava uma pancada com uma borduna que lhe esmigalhava o crânio, para deixar de ser besta, e morria en beauté, sob aplausos e pedidos de bis. (…) Pela quantidade de gente à mesa e a pouca fartura do prato, cada convidado conseguia comer, no máximo, um dedo do pé ou meia orelha.»
[Ruy Castro, 2003, Carnaval no Fogo – Crônica de uma cidade excitante demais, São Paulo: Companhia das Letras, pp.30-32.]

O Castro partilha do preconceito antiportuguês, que é das coisas mais palermas que se pode encontrar num brasileiro (e sabe Deus que eu sou o último dos patriotas e o primeiro dos brasilófilos). E o Castro tem uma moral e uma «agenda» para nos vender, segundo a qual o Rio realmente sofreu muito (criminalidade, atentados ao património, etc.), mas desde a década de noventa, desde realmente a véspera deste livro, tudo está finalmente a ir ao sítio graças ao esforço empenhado e desinteressado de cidadãos conscientes. Nas últimas páginas, o Castro quer até convencer-nos de que Copacabana, às oito da manhã do dia primeiro de Janeiro, é um espectáculo de limpeza, graças ao cuidado de três milhares de funcionários que apagam os vestígios da rambóia da noite.
Mas eu estive lá: Copacabana no dia primeiro de Janeiro e o livro do Ruy Castro têm um cheiro parecido.

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Groucho



Andamos numa febre de you tube, embora seja duvidoso que haja por aí muito leitor de blogs com disponibilidade para ficar um, dois, quatro, seis ou oito minutos especado em frente do pequeníssimo ecrã a ver um video. De todas as formas. Everyone Says I Love You, que eu vi pela primeira vez no cinema em 2 de Maio de 1997 em Inglaterra, um dia glorioso de primavera, após a primeira vitória eleitoral de Blair, é um dos meus filmes preferidos de Woody Allen. Um musical - e geralmente subestimado. Mas o que eu desconhecia, até ter visto isto no You Tube, é que o próprio título remete para os Irmãos Marx. Eis então Groucho Marx em Horse Feathers cantando a canção-título. Woody Allen também canta no seu filme (até já o pus a tocar ali), talvez como réplica.

quinta-feira, dezembro 14, 2006

Freud&Ana



Depois de ver A Rainha, cheguei a casa e estava a dar Anything Else, de Woody Allen. Trata-se certamente de um Woody Allen dos mais fraquinhos (mas não mais que Hollywod Ending, Melinda and Melinda ou o novo Scoop). Ainda assim, tem muita graça porque é dos mais imersos em temática psicanalítica.

Duas carreiras políticas

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Louvado. Louvado seja o Senhor, que há anos que não me lembro de um semestre de cinema como aquele que temos tido. Desta vez, fui ver A Rainha. Ao contrário do que o título sugere, não se trata de um pastel biográfico, mas de uma reconstituição dos eventos sucedidos na semana de 1997 em que a princesa Diana morreu. E a personagem de Tony Blair, encarnada por Michael Sheen (que apanha muito bem os trejeitos do primeiro-ministro britânico), talvez não seja muito menos central nem muito menos complexa do que a da própria rainha. A história é a reacção emocional massiva, descomunal, da população britânica à morte da princesa, e a forma como Blair e a família real lidaram com o acontecimento. A gestão política.

O início esboça uma dicotomia, entre a legitimidade democrática de Blair – «moderno», emanando do povo, em contacto com os seus sentimentos – e a legitimidade aristocrática da monarquia, um bando de neuróticos sem ligação com a realidade nem com os sentimentos populares. Subtilmente, o filme vai sendo outra coisa completamente diferente. No fim, a Rainha diz que nunca percebeu o que se passou naqueles dias; uma das virtudes do filme está em não dar ele mesmo uma explicação sobre a comoção popular. O filme nunca chega a responder à pergunta «por que é que aquilo aconteceu?», «por que é que as pessoas reagiram daquela forma tão descomunal?» Mostra as tensões, os conflitos, os dilemas da Rainha, mas não nos diz se o desfecho, se a sua derrota e submissão à linha proposta por Tony Blair, foi a coisa mais «decente» ou justa. Faz sentido transgredir todas as regras para responder a um sentimento popular irracional e talvez frívolo? Blair é um homem que compreende o povo, ou um explorador indecente do sentimentalismo? A grande virtude está em contar a derrota política da Rainha sem tornar claro se esse desfecho foi uma coisa positiva.

A outra coisa fascinante é que se trata de um filme sobre política. Blair e a Rainha têm fontes de legitimidade completamente distintas, mas os impulsos a que no fim têm de responder são bastante semelhantes. Apesar da sua legitimidade aristocrática, tradicional, a Rainha não pode ficar indiferente ao sentimento democrático e, para lhe corresponder, tem de quebrar princípios institucionalizados desde há séculos. Blair, pelo seu lado, não pode cavalgar o sentimento popular instantâneo e explorar a aversão pela Rainha: no auge da sua popularidade (alicerçada no contraste entre a sua imagem e a da monarquia), Blair procura sempre fazer a ponte com a família real, recuperar a situação da Rainha. Talvez compreenda que o seu próprio poder só se sustenta se puder ancorar-se numa legitimidade que não é democrática.

Blair emerge como uma personagem complexa e fascinante. O que é que o fez estar «certo» naquele momento, interpretar correctamente o sentimento das pessoas? De onde vem a sua extraordinária intuição política? E por que a perdeu mais tarde, completa e desgraçadamente, com o Iraque e com Bush? Há uma referência indirecta muito inteligente, no fim do filme, aos dissabores que o primeiro-ministro também viria a experimentar.

O filme é um «docudrama», um género cinematográfico que não está entre os mais apreciados pelos especialistas. O realizador apaga-se, para enfatizar o efeito «de realidade». Mas A Rainha é um grande filme político, pela interpretação, pela reconstituição histórica e pelas questões que suscita.

Pinochet no inferno

As notícias relativas ao funeral de Pinochet estão recheadas de detalhes interessantes. A trasladação do cadáver para a Academia Militar, onde foi velado, teve de ser feita de noite, de helicóptero, para evitar reacções adversas. O corpo foi cremado, por medo de que pudesse vir a ser profanado. A cremação, inicialmente prevista para um dos maiores cemitérios de Santiago do Chile, teve de ser realizada num outro lugar mais discreto, a 100 km da capital chilena. É certo que Pinochet nunca foi levado à justiça. Mas, desde 1998 - ano do mandato de captura do juiz Garzón - e até depois de morto, o antigo ditador não fez outra coisa senão inventar esquemas e fugir. É um caso (e talvez raro) de quem, por mais que se proteja, não fica a coberto dos crimes que praticou. Pelas suas decisões e subterfúgios, os seus familiares revelam que têm consciência disso. Suponho que o inferno seja isto.

Outros poderão conferir esta informação melhor do que eu. A acreditar na entrada do wikipédia, a palavra latina para inferno nada tem que ver com calor. Refere-se a «lugar coberto ou oculto». Precisamente.

quinta-feira, dezembro 07, 2006

O preservativo está a um preço caríssimo

Bem sei que não vale a pena perder demasiado tempo com ele: Vasco Pulido Valente é Vasco Pulido Valente, nas suas qualidades e nos seus defeitos, e quem o lê não vai propriamente à procura do rigor no facto e no argumento. O maior trunfo do colunista (para além dos literários) é a originalidade; e este cronista em particular é capaz de viajar a galáxias distantes à procura disso. (Não foi ele quem anunciou ao mundo que a derrota dos republicanos nas eleições de Novembro nada teria que ver com o Iraque?) O texto do último sábado, que proclama:

«Por muito que doa a uma certa demagogia, materialmente, a questão do aborto acabou por se tornar numa questão residual. O uso dos contraceptivos (que não custam caro) e, sobretudo, a “pílula do dia seguinte” (venda livre a menos de quatro euros) fizeram do aborto o resultado da ignorância, da irresponsabilidade ou da má sorte.»

O Doutor Pulido Valente não tem, possivelmente, a menor ideia do preço dos preservativos: à unidade são mais caros do que o jornal onde escreve, o que é sem dúvida uma tremenda injustiça. Além disso, em muitas desafortunadas circunstâncias as pessoas nem sempre gastam apenas um para cada, digamos, «utilização»: há muito preservativo que se estraga. E por fim há ainda uma diferença – estatisticamente muito significativa – entre a eficácia «de laboratório» obtida pela borracha, e a sua eficácia real, na prática concreta das pessoas, que tem a ver com a forma como ele é utilizado.
O que me impressiona muito nos colunistas que se exprimem sobre o aborto é, frequentemente, a forma como minimizam a capacidade de espermatozóide e óvulo se juntarem apesar da vontade dos respectivos progenitores (suponho que se possa dizer assim). De nada adianta vilipendiar as pessoas pelas gravidezes indesejadas. A gravidez acidental é produto de muitas circunstâncias, desde a falta de informação, ao desleixo, à indisponibilidade de anticoncepcionais. Mas é também um facto da vida, da propensão natural do ser humano para o erro e para a falibilidade. Como escrevi outro dia, «acontece, e mais vezes do que se supõe, mesmo a cidadãos íntegros e conscienciosos, infalivelmente racionais, e prudentes até à cópula.»

quinta-feira, novembro 30, 2006

Proibir piora

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Foto do filme Paris Je T’aime

A Joana Amaral Dias e o António Figueira têm trocado argumentos sobre a proibição do véu islâmico, o que ocasionou inúmeras respostas em caixas de comentários e noutros blogs. O editorial do Economist desta semana põe, a meu ver, o assunto nos exactos termos em que ele deve ser posto. Traduzo um excerto, e ainda juntei uns itálicos nas passagens que acho mais relevantes, porque há malta muito preguiçosa a ler. O original pode ser lido ali.

(…) Aqueles que defendem a proibição argumentam com quatro razões principais. Primeiro, o véu (especialmente a burqa e o niqab) exprimem, da parte dos muçulmanos, uma recusa de integração nas sociedades onde vivem; Tony Blair chamou-lhes uma «marca de separação». Segundo, esses trajes são um símbolo da opressão das mulheres muçulmanas; diz-se que elas usam os véus em grande medida graças à intimidação (ou por ordem) dos homens que as dominam. Terceiro, a exibição de símbolos religiosos é uma afronta às sociedades seculares (aspecto que tem especial ressonância em França e na Turquia). E, quarto, há espaços – a sala de aula, o tribunal – em que o uso do véu muçulmano pode ser intimidatório ou constrangedor para alunos ou para jurados.
Alguns destes argumentos são mais fortes que outros, mas nenhum deles sustenta uma proibição liminar ao estilo holandês [i.e., do que é proposto pela ministra da imigração da Holanda]. Os trajes muçulmanos podem de facto ser vistos como uma marca de separação, mas a discriminação racial e sectária é seguramente mais relevante – e a proibição dos véus e trajes religiosos é susceptível de a agravar. A opressão das mulheres muçulmanas é infelizmente muito comum, e deve ser resistida; mas muitas mulheres escolhem usar o véu por razões culturais, e outras fazem-no (por exemplo em países árabes) como um sinal de emancipação, ou até como uma opção de moda. A França e a Turquia têm tradições seculares severas, que podem ser interpretadas de maneira a justificar restrições aos símbolos religiosos; mas é preferível aplicar tais restrições com parcimónia, e só em edifícios estatais, não nas ruas. No mesmo sentido, a decisão de proibir o uso de trajes muçulmanos em tribunais ou por alunos e professores fica mais bem entregue ao sentido discricionário local do que a imposições de âmbito nacional.
Além disso, há poderosos contra-argumentos em relação à proibição dos trajes muçulmanos. Para começar, é anti-liberal impor aos outros aquilo que eles devem vestir, especialmente quando esses outros formam uma minoria religiosa. A proibição é susceptível de fomentar, em lugar de dissuadir, as perseguições e agressões com motivação religiosa. Ela dá força àqueles que sustentam que o Islão é uma religião não-europeia, apesar de haver para cima de 15 milhões de muçulmanos na União Europeia. E pode dificultar a exigência feita por países predominantemente cristãos de maior tolerância religiosa nos países de maioria muçulmana (…).
Acima de tudo, existe o risco de que a proibição, longe de desencorajar o uso do véu, sirva para o encorajar. Actualmente, só uma meia-dúzia de muçulmanas holandesas usam a burqa ou o niqab integral. Assim como o resto da Europa, os holandeses conheceram por experiência própria o perigo do radicalismo islâmico. Medidas intolerantes contra os muçulmanos são apenas susceptíveis de o agravar.

quinta-feira, novembro 16, 2006

The record shows

Yes, there were times, I’m sure you knew,
When I bit off more than I could chew.
But through it all, when there was doubt,
I ate it up, and spit it out.
I faced it all, and I stood tall,
and did it my way.

Li, com gosto, o livro que Filipe Santos Costa acaba de publicar sobre a última campanha eleitoral de Mário Soares para a Presidência da República. O livro é uma crónica detalhada, inteligentemente construída, dos vários passos que levaram Soares desde a decisão de se candidatar até à derrota de 22 de Janeiro. Li com curiosidade todas as partes que não conhecia por não ter estado envolvido – designadamente, as circunstâncias que conduziram à decisão de avançar – e li também com interesse as partes que conhecia e em que estive envolvido. Idealmente, para fazer uma crónica da decisão de avançar, teria sido interessante obter mais informação sobre as outras candidaturas, sobre a forma como as movimentações de Soares foram sendo recebidas naqueles meses de Julho e Agosto – por Alegre, evidentemente, mas também por Cavaco, e até por Jerónimo e Louçã, já que a questão da «unidade da esquerda» assumiu um significado tão relevante.
Filipe Santos Costa falou com Alfredo Barroso, Mega Ferreira, Marcos Perestrello, António Manuel, António Campos, José Manuel dos Santos, entre outros – ou seja, falou com quase todas as pessoas que acompanharam de perto o dia-a-dia da campanha. Falou com todos estes em on e, muito provavelmente, com a maioria deles também em off. É possível que ainda tenha falado com Vasco Pulido Valente (para a história de um almoço), ou pelo menos com Constança Cunha e Sá, que assina o prefácio. As fontes são boas e permitem-lhe reconstruir aspectos cruciais e desconhecidos da campanha com bastante minúcia.
Isto não significa, naturalmente, que não encontre defeitos no relato. O principal é que Filipe Santos Costa está notoriamente mais à vontade a falar de factos que investigou do que a caracterizar psicologicamente os personagens, ou a descrever «estados de alma». A meu ver, as páginas iniciais, que se debruçam sobre os dias da derrota (o sábado de reflexão e o domingo eleitoral) são talvez as mais fracas, porque há poucos factos para relatar, ou quase nenhuns, e muitas «disposições». Filipe Santos Costa não resiste aqui a uma certa tentação de omnisciência – dizer o que os intervenientes estavam a pensar e a sentir para lá daquilo que eles próprios expressaram – e não evita retratar situações de forma um pouco teatralizada, quando a realidade foi talvez um pouco mais rugosa e menos «literária».
Aliás, a questão «psicológica» talvez não seja de pequena monta, e aqui encontro o segundo problema importante do livro. Se pensarmos no plano histórico, é pouco provável que esta campanha de Mário Soares venha a ser vista como um acontecimento relevante; é no plano «psicológico», «humano», que uma candidatura destas, inesperada, «ilógica», oferece uma oportunidade de ouro para fazer um retrato do personagem. Ora, os talentos de Filipe Santos Costa estão notoriamente mais do lado da investigação jornalística (dos factos) e da sua articulação inteligente do que do lado da construção literária (do personagem). É certo que quem queira perceber como e porquê Soares perdeu esta eleição, encontrará no livro a resposta. Mas isso ainda deixa em aberto duas perguntas: Quem? E por quê, se a derrota parecia inevitável a quase todos desde o início? Fico a pensar que o talento de Filipe Santos Costa promete bastante para outros trabalhos de investigação (uma boa crónica do processo Casa Pia desde que rebentou o escândalo, por exemplo, parece-me muito necessária), mas que os detalhes da campanha falhada de Mário Soares só poderão interessar a poucos como eu. Talvez me engane.
De todas as formas, ainda que Filipe Santos Costa não invista (felizmente) o seu trabalho a tentar desenhar um perfil psicológico de Soares, alguma coisa emerge do relato. Tenho para mim que, na sua aparente simplicidade, ou talvez mesmo por causa da sua aparente simplicidade (dizer o que lhe apetece e fazer quase sempre o que quer), Soares é das personagens mais complexas que me foi dado conhecer. Indagações sobre o que motiva a sua acção, sobre o que pretende, são o mais das vezes fúteis e falíveis. Mas um retrato do que foi Soares nesta campanha, da combinação de uma certa inabilidade política com uma determinação, uma energia, uma obstinação extraordinárias, essa imagem emerge claramente deste livro. Sem que Filipe Santos Costa seja condescente, a sua admiração, o seu espanto, perante este personagem singular também transparece, nítida. E a imagem que resulta é, quer-me parecer, muito próxima daquela que eu próprio tinha ao finalizar a campanha. Foi na hora da derrota que Filipe Santos Costa viu os apoiantes da candidatura gritando mais empolgadamente «Soares é fixe» perante o seu candidato, num momento em que a circunstância propriamente política já estava em boa medida superada. Foi com o My Way que nós no Super Mário terminámos a campanha. Não deve ser por acaso.

[Filipe Santos Costa, 2006, A Última Campanha, ed. Palavra, Lisboa.]