
Uma resposta sombria a E Deus Criou a Mulher. O que Deus faz, Deus desfaz.
Um semi-blog do artista anteriormente conhecido como Ivan Nunes. teguivel@gmail.com
A primeira vez que tropecei no nome de María Consuelo Araújo foi há menos de dois meses, no Público. Jovem (35 anos), de sardas, estava incrivelmente bonita na fotografia que ocupava quase uma página. Nas redacções dos jornais, a visita da Ministra dos Negócios Estrangeiros da Colômbia a Portugal também causou burburinho. Da Colômbia? Da Colômbia, pensamos em traficantes de droga, Pablo Escobar, grandes bairros de lata, assassinatos com armas de fogo em Bogotá e Medellín, homens cabeludos e excêntricos como Valderrama, como Higuita (o guarda-redes que nunca estava na baliza), ou no defesa que no Mundial de futebol de 1994 marcou um auto-golo fatídico: propriamente fatídico, que por causa dele foi assassinado ao regressar ao país. Pensamos em índios, em gente mestiça; pensamos menos em loiros, de olho azul, que também os há entre a elite, ou em ministras jovens, modernas, imaculadamente brancas, com mestrado nos Estados Unidos. María Consuelo Araújo – informei-me em Janeiro – tem o crédito moral de ser sobrinha de uma jornalista, e depois ministra, que foi raptada pelas FARC e assassinada em 2001.
A segunda vez que tropecei no nome de María Consuelo Araújo foi há quinze dias. O irmão, Álvaro Araújo, é um dos oito parlamentares da maioria que sustenta o governo a ter sido preso, acusado de ligações aos grupos paramilitares, a quem teria garantido favores em troca de votos obtidos por meio de extorsão e intimidação. O pai da ministra, também ele antigo deputado e ministro, está igualmente sob investigação no âmbito do mesmo assunto. As ligações da maioria parlamentar de direita aos grupos paramilitares põem em causa a credibilidade do governo colombiano, tanto no plano interno como no externo, quer por questões de respeito pelos direitos humanos, como pelos compromissos assumidos com os Estados Unidos no combate ao tráfico de droga. Os grupos paramilitares controlam grande parte do tráfico de cocaína e são acusados de alguns dos piores massacres perpetrados na guerra civil que assola o país há décadas. A posição política de María Consuelo Araújo, com a sua biografia e a sua família, tornou-se insustentável, e a ministra caiu.
É fascinante a quantidade de coisas que a fotografia de uma ministra bonita, jovem, imaculadamente branca, de sardas, com mestrado nos Estados Unidos, nos sugere sobre um país.

A Joana Amaral Dias e o António Figueira têm trocado argumentos sobre a proibição do véu islâmico, o que ocasionou inúmeras respostas em caixas de comentários e noutros blogs. O editorial do Economist desta semana põe, a meu ver, o assunto nos exactos termos em que ele deve ser posto. Traduzo um excerto, e ainda juntei uns itálicos nas passagens que acho mais relevantes, porque há malta muito preguiçosa a ler. O original pode ser lido ali.
(…) Aqueles que defendem a proibição argumentam com quatro razões principais. Primeiro, o véu (especialmente a burqa e o niqab) exprimem, da parte dos muçulmanos, uma recusa de integração nas sociedades onde vivem; Tony Blair chamou-lhes uma «marca de separação». Segundo, esses trajes são um símbolo da opressão das mulheres muçulmanas; diz-se que elas usam os véus em grande medida graças à intimidação (ou por ordem) dos homens que as dominam. Terceiro, a exibição de símbolos religiosos é uma afronta às sociedades seculares (aspecto que tem especial ressonância em França e na Turquia). E, quarto, há espaços – a sala de aula, o tribunal – em que o uso do véu muçulmano pode ser intimidatório ou constrangedor para alunos ou para jurados.
Alguns destes argumentos são mais fortes que outros, mas nenhum deles sustenta uma proibição liminar ao estilo holandês [i.e., do que é proposto pela ministra da imigração da Holanda]. Os trajes muçulmanos podem de facto ser vistos como uma marca de separação, mas a discriminação racial e sectária é seguramente mais relevante – e a proibição dos véus e trajes religiosos é susceptível de a agravar. A opressão das mulheres muçulmanas é infelizmente muito comum, e deve ser resistida; mas muitas mulheres escolhem usar o véu por razões culturais, e outras fazem-no (por exemplo em países árabes) como um sinal de emancipação, ou até como uma opção de moda. A França e a Turquia têm tradições seculares severas, que podem ser interpretadas de maneira a justificar restrições aos símbolos religiosos; mas é preferível aplicar tais restrições com parcimónia, e só em edifícios estatais, não nas ruas. No mesmo sentido, a decisão de proibir o uso de trajes muçulmanos em tribunais ou por alunos e professores fica mais bem entregue ao sentido discricionário local do que a imposições de âmbito nacional.
Além disso, há poderosos contra-argumentos em relação à proibição dos trajes muçulmanos. Para começar, é anti-liberal impor aos outros aquilo que eles devem vestir, especialmente quando esses outros formam uma minoria religiosa. A proibição é susceptível de fomentar, em lugar de dissuadir, as perseguições e agressões com motivação religiosa. Ela dá força àqueles que sustentam que o Islão é uma religião não-europeia, apesar de haver para cima de 15 milhões de muçulmanos na União Europeia. E pode dificultar a exigência feita por países predominantemente cristãos de maior tolerância religiosa nos países de maioria muçulmana (…).
Acima de tudo, existe o risco de que a proibição, longe de desencorajar o uso do véu, sirva para o encorajar. Actualmente, só uma meia-dúzia de muçulmanas holandesas usam a burqa ou o niqab integral. Assim como o resto da Europa, os holandeses conheceram por experiência própria o perigo do radicalismo islâmico. Medidas intolerantes contra os muçulmanos são apenas susceptíveis de o agravar.